No Carnaval em Portugal
até o inverno se disfarça:
põe um sol de papelão
e um sorriso de ameaça.
Sai à rua o Zé Povinho
com coroa de purpurina,
rei por três dias apenas —
na quarta já volta à sina.
Há políticos de cartolina
com promessas de serpentina,
que voam leves no ar...
mas nunca chegam à esquina.
O vizinho vira pirata,
a tia vira rainha,
e quem nunca teve voz
berra alto na marchinha.
Come-se sonhos e filhoses,
bebe-se riso barato,
e até a crise, coitada,
usa máscara de gato.
Mas o mais curioso, afinal,
neste teatro improvisado,
é que, findo o Carnaval,
ninguém tira o disfarçado.
Porque há máscaras tão coladas
que nem a chuva desmancha:
uns vestem-nas só em fevereiro,
outros... usam-nas o ano inteiro na franja.
Conceição Parreira
Fevereiro de 2026
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