PRÓLOGO — A Pergunta que Desperta
Há perguntas que não nascem da curiosidade. Nascem do cansaço. Surgem devagar, como uma névoa que se levanta do chão depois de muitos anos de silêncio. Não aparecem quando tudo está claro, nem quando a vida corre sem sobressaltos. Elas chegam quando algo dentro de nós já não aceita respostas pequenas. Foi assim que esta pergunta começou a viver em mim: O que estou eu a fazer neste mundo? Não veio como uma frase nítida. Veio como uma inquietação sem nome, como um desconforto subtil que não se explica. Uma sensação de estar presente e, ao mesmo tempo, deslocada. De cumprir tarefas, mas não tocar o essencial. De falar com pessoas, mas guardar dentro de mim um silêncio antigo. Durante muito tempo, tentei afastá-la. Dizia a mim mesma que era apenas cansaço. Que passaria. Que todos vivem assim. Mas há perguntas que não se calam — porque não são ruído. São chamamento. Elas regressam nas horas quietas da noite, nos momentos em que o mundo abranda, nos instantes em que deixamos de representar papéis e ficamos apenas diante de nós próprios. Foi num desses instantes que compreendi: esta pergunta não era um problema para resolver. Era uma porta. Uma porta que se abria para dentro. Ao atravessá-la, percebi algo que ninguém nos ensina: existem pessoas que não vieram ao mundo para viver apenas na superfície das coisas. Vieram para escutar o que não é dito, para sentir o que não é visível, para dar nome ao que vive sem linguagem. São pessoas que caminham com o Tempo como companheiro — não o tempo dos relógios, mas o tempo profundo, aquele que guarda memórias, cicatrizes e transformações invisíveis. Este livro nasce desse encontro. Não é uma tentativa de encontrar uma resposta definitiva. Porque talvez ela não exista. É, antes, uma travessia. Uma travessia pelas perguntas que nos habitam, pelas dores que nos moldam, pelos silêncios que nos ensinam, e pelas pequenas luzes que continuam a acender-se mesmo nos dias mais escuros. Ao longo destas páginas, não encontrarás soluções rápidas nem promessas de felicidade permanente. Encontrarás algo mais humano — e talvez mais verdadeiro: o caminho de quem aprende a viver sem fugir das próprias perguntas. Porque, às vezes, o sentido da vida não está em saber exatamente para onde vamos. Está em ter coragem de escutar aquilo que, dentro de nós, pede para nascer. Se esta pergunta também vive em ti — mesmo que em silêncio — então este livro já é, de alguma forma, teu. E talvez possamos atravessar juntos este território onde nada é totalmente certo, mas tudo é profundamente vivo. Porque a pergunta permanece. E é ela que nos mantém despertos.
Capítulo 1 — Antiga como o Tempo
Continuação: Com o passar dos dias, comecei a perceber que aquela pergunta não queria respostas rápidas. Ela não aceitava explicações prontas, nem se satisfazia com frases bonitas. Era uma pergunta paciente. Não batia à porta — permanecia diante dela, silenciosa, como alguém que sabe que não pode ser ignorado para sempre. E quanto mais eu tentava afastá-la, mais ela se entranhava no modo como eu via o mundo. Comecei a notar pequenas coisas que antes me passavam despercebidas. O olhar cansado das pessoas nas ruas. A pressa constante que parecia impedir qualquer escuta verdadeira. As conversas cheias de palavras, mas vazias de presença. Percebi então algo que me inquietou profundamente: muitos vivem sem nunca se perguntarem porquê. Vivem como quem atravessa um corredor estreito — olhando apenas em frente, evitando olhar para dentro. Mas há um momento na vida em que esse corredor se abre de repente. E quando isso acontece, já não é possível regressar à antiga distração. Foi nesse momento que compreendi: a pergunta não tinha surgido para me confundir. Tinha surgido para me acordar. Porque acordar não é tornar-se feliz de imediato. É tornar-se consciente. E a consciência tem um peso. Ela faz-nos ver as ausências que antes ignorávamos, as feridas que escondíamos, os silêncios que carregávamos há anos. Faz-nos perceber quantas vezes vivemos para cumprir expectativas, para corresponder a imagens, para sobreviver em vez de verdadeiramente existir. Mas, ao mesmo tempo, a consciência traz consigo uma dádiva rara: a possibilidade de viver com verdade. Foi também nesse tempo que comecei a sentir o Tempo de outra forma. Já não como inimigo que me roubava juventude, nem como relógio que impunha urgência. Passei a senti-lo como uma presença silenciosa que caminhava ao meu lado. O Tempo não me pressionava. Observava-me. E parecia dizer: “Não tenhas pressa em compreender. Há perguntas que só se revelam quando a alma está pronta para as escutar.” Com o Tempo ao meu lado, comecei a aceitar algo que antes me assustava talvez não estivesse perdida. Talvez estivesse em transição. Entre a vida que aprendi a viver e a vida que ainda não sabia nomear. E essa perceção trouxe uma paz inesperada. Porque percebi que não precisava encontrar imediatamente uma resposta para a pergunta que me habitava. Bastava não fugir dela. Bastava caminhar com ela. E, aos poucos, fui compreendendo que existem perguntas que não pedem solução. Pedem presença. Pedem escuta. Pedem coragem. E, acima de tudo, pedem tempo —porque são tão antigas quanto o próprio Tempo.
Capítulo 2 — O Despertar da Consciência
Versão expandida: O despertar da consciência não acontece de uma só vez. Não chega como um trovão que rasga o céu, nem como uma certeza luminosa que resolve todas as dúvidas. Ele começa quase sem se anunciar — como uma mudança subtil na respiração da alma. No início, é apenas um desconforto difícil de explicar. A vida continua aparentemente igual, os dias mantêm as suas rotinas, as pessoas continuam a falar das mesmas coisas. Nada mudou por fora. Mas por dentro, algo já não encaixa. As palavras que antes pareciam suficientes tornam-se pequenas. As ocupações que antes preenchiam o tempo começam a parecer vazias. E surge uma sensação estranha: a de estar presente e, ao mesmo tempo, distante de tudo. É como se uma parte de nós tivesse acordado antes do resto. Essa parte não grita. Não exige respostas imediatas. Apenas observa. Observa a forma como vivemos em piloto automático. Observa quantas vezes sorrimos sem sentir alegria. Observa o modo como nos adaptamos para não incomodar, para não destoar, para não ficar sozinhos. E, lentamente, começa a fazer perguntas. Perguntas que não procuram soluções rápidas, mas verdade. Pergunta se a vida que vivemos é realmente nossa. Pergunta se as escolhas que fizemos nasceram do coração ou do medo. Pergunta quem somos quando deixamos de representar papéis. Durante muito tempo, podemos tentar ignorar esse movimento interior. Dizemos a nós próprios que é apenas cansaço. Que todos passam por fases assim. Que basta ocupar a mente para que a inquietação desapareça. Mas a consciência não se dissolve com distrações. Ela permanece. E quanto mais tentamos afastá-la, mais ela se manifesta — nos silêncios, nas pausas inesperadas, nos momentos em que nos sentimos inexplicavelmente deslocados do mundo. É então que percebemos algo fundamental:o despertar da consciência não é um problema. É um processo. Um processo lento, por vezes doloroso, mas profundamente transformador. Porque a consciência ilumina tudo. Não apenas o que é belo, mas também o que evitámos ver durante anos. Ilumina as feridas antigas que fingíamos ter esquecido. Ilumina os medos que orientaram escolhas. Ilumina as perdas que nunca foram verdadeiramente choradas. E, talvez o mais difícil, ilumina as partes de nós que viviam escondidas — aquelas que foram silenciadas para que pudéssemos ser aceites, amados ou simplesmente sobreviver. É natural que este despertar traga dor. Porque ver com clareza implica reconhecer o que antes estava envolto em sombra. Mas há uma verdade essencial que só se compreende ao atravessar este processo: a consciência não chega para nos destruir. Chega para nos libertar. Ela não exige que mudemos tudo de imediato. Não pede que abandonemos a vida que construímos. Pede apenas que deixemos de viver inconscientemente. Pede honestidade. Pede presença. Pede coragem para olhar sem fugir. Foi neste tempo que comecei também a sentir o Tempo de forma diferente. Antes, o Tempo era apenas medida — horas, dias, anos que passavam sem pausa. Era algo que me pressionava, que me fazia sentir atrasada, que parecia exigir rapidez constante. Mas, ao despertar da consciência, o Tempo transformou-se. Deixou de ser um perseguidor para se tornar uma presença. Passei a senti-lo como um companheiro silencioso, sempre ao meu lado, observando sem julgamento. E parecia dizer-me: “Não te apresses. A consciência não floresce na pressa. Ela precisa de silêncio, de escuta e de tempo.” Com essa nova relação com o Tempo, algo dentro de mim começou a suavizar-se. Percebi que não estava perdida. Estava em transformação. Entre aquilo que fui ensinada a ser e aquilo que a minha essência começava a revelar. Esse espaço intermédio — entre o antigo e o novo — é, muitas vezes, desconfortável. Porque já não pertencemos completamente à vida de antes, mas ainda não sabemos habitar a vida que se aproxima. É um território de incerteza. Mas também é um território fértil. É ali que a consciência amadurece. É ali que começamos a distinguir o essencial do supérfluo. É ali que nasce a possibilidade de viver com verdade. Com o tempo, compreendi algo profundamente libertador: o despertar da consciência não tem como objetivo dar-nos respostas definitivas. O seu propósito é outro. Ensinar-nos a viver acordados. A viver atentos ao que sentimos. A viver alinhados com aquilo que somos. A viver com a coragem de não nos abandonarmos para sermos aceites. E embora este caminho possa trazer momentos de solidão, traz também uma forma de liberdade que nada exterior pode oferecer: a liberdade de sermos, finalmente, inteiros. Porque, uma vez desperta, a consciência não volta a adormecer. Ela permanece — silenciosa, vigilante, paciente — lembrando-nos, a cada dia, que viver não é apenaspassar pelo mundo. É estar verdadeiramente presente nele.
Conceição Parreira
Fevereiro 2026
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