... No silêncio que se seguiu à última página escrita, eles compreenderam que já não havia margem para fingimentos. O livro estava completo, e com ele esgotava-se também a necessidade de existirem separados.
Eu rendo-me, escreveu o primeiro, não por cansaço, mas porque pensar até ao fim é aceitar que nenhuma ideia me pertenceu. Vivi de hipóteses. Entrego-as agora ao vazio que sempre me respondeu melhor do que as pessoas.
Eu rendo-me, assinou o segundo, porque sentir tudo foi excessivo, e já não sei distinguir o que vivi do que inventei para sobreviver. Deixo aqui o meu coração — não como prova, mas como resto.
Eu rendo-me, declarou o terceiro, com método e frieza. Analisei a vida, cataloguei o mundo, e ainda assim falhei no essencial: viver sem precisar de explicar. Renuncio à lucidez como quem depõe uma arma.
Eu rendo-me, murmurou o último, sem razão nem argumento. Apenas porque existir cansa quando não há testemunhas. Fui o mais próximo do autor, e por isso o mais descartável.
No fim, nenhuma assinatura coincidiu com o nome da capa.
Porque a verdadeira rendição não foi deles, foi do autor, que ao deixá-los falar até ao fim, aceitou desaparecer com eles.
E assim o livro terminou: não com uma resposta, mas com a concordância silenciosa de que ninguém escreve para vencer.
Conceição Parreira
Janeiro 2026