terça-feira, 3 de novembro de 2026

POESIA

 ALENTEJO  


Ó meu querido Alentejo

Pelas planícies me perdi

Tão grande meu desejo

E não posso viver sem ti


Tens sol tórrido no verão

E as águas frias da fonte

Quase morro de paixão

Ao vê-las debaixo da ponte


Alentejo do meu coração

Como tu és sempre igual

Fazes parte deste torrão

A que se chama Portugal


Alentejo tens que esperar

Porque eu por ti tudo farei

E muito tenho que estudar

Para te ensinar o que sei


Ao Alentejo lá cheguei

E também semeei trigo

A terra que muito amei

Arraiolos te levo comigo

João Paiva

Outubro de 2026


Lido pelo autor, em Arraiolos, em 30 de outubro de 2026, durante o passeio cultural pela EN 4. 


SE OS GATOS DESAPARECESSEM DO MUNDO

 


SAPATINHOS

 


JOANA VASCONCELOS - MAAT

CONSTRUÍMOS SORRISOS

 




O HOMEM DUPLICADO


QUANDO UM HOMEM DESCOBRE QUE HÁ OUTRO HOMEM EXATAMENTE IGUAL A SI, E VAI PROCURÁ-LO...

segunda-feira, 2 de novembro de 2026

VALQUÍRIA

 


MAAT - JOANA VASCONCELOS

POESIA

MAR 2

 

Mar mar mar e mar

Grande e profundo

Sem fim sem fundo

Como o verbo amar

 

Afogas muita gente

Muito barco se destroi

Algumas dores te doi

À mais pequena sentes

 

Peixes vivem contentes

Porque bem te dão viver

Também podem morrer

Mas sempre sorridentes

 

Quando ao mar me deitei

Um banho quis e fui tomar

Já ía para o fundo do mar

E porque lá me descuidei

 

Estava com muita atenção

E tão bem para ele olhava

Ele querendo bem pegava

Não ligando minha paixão 

João Paiva

Outubro de 2026 

CONSTRUÍMOS SORRISOS

 


POESIA

CAMINHO DESCONHECIDO

 

É por aí que vou sozinho

E com o tempo que faça

Saberei receber com carinho

Todos aqueles da minha raça

 

Não quero lembrar o passado

E novo o futuro quero abraçar

Mas que não seja acorrentado

A quem o deseja de amordaçar

 

Descanso e vou ficar para amanhã

Amigos ao lerem esta mensagem

E se cá estiverem com a mente sã

Inveja nasce numa curva da viagem

 

Por aqui um verbo encontrei

E para sempre quero lembrar

Um grande amor que apanhei

Cujo nome não quero revelar

 

O caminho está para terminar

E eu a julgar que não tinha fim

Foi bela a forma de me enganar

E eu de cansaço só disse que sim

João Paiva

Outubro de 2026 

ESCRITA NARRATIVA

 ATALAIA


Hoje é dia de festa, já começou ontem, quando fomos provar os  novos calções a casa da avó, para irmos  à procissão da Senhora da Atalaia, o nosso entusiasmo era maravilhoso, embora detestando o cheiro das farturas e dos frangos assados, mas no fim nós nunca enjoámos as farturas e frangos assados, porque além dos temperos já duvidosos, ainda recebia todo o pó que se fazia, com todo aquele movimento de pessoas. Naqueles tempos eram aos milhares e tínhamos que andar aos empurrões uns com os outros.

Chegou a hora de irmos esperar a camionete do João Cândido Belo que fazia o transporte permanente entre o Montijo e a Atalaia, chegámos bem, cumprimos todos os rituais da feira, já cansados e cheios e ouvir o barulho dos foguetes no acompanhamento da procissão, o calor intenso, e nós vestidinhos, como se estivesssemos no inverno, calções de fazenda a dizer com o casaco, ainda me lembro a quem a mãe foi comprar a fazenda, isto é o tecido, ao senhor João dos fatos, que já era nosso amigo e ficou para a vida fora, ninguém ía à procissão em mangas de camisa e para provar isto que aqui digo é só verem as fotografias daquele tempo.

Com isto tudo já são horas de irmos jantar, que como manda a tradição tem que ser no eucaliptal que fica por traz da igreja, e alguns eucaliptos ainda lá estão, mas antes tinhamos que passar pelo salão de exposições da igreja, onde se encontram reproduzidos quadros que mostram os pedidos de auxílio, socorro e promessas que os fiéis fizeram à Nossa Senhora da Atalaia, neste lugar está o quadro do naufrágio do nosso pai, que só se salvou por saber nadar, já o mesmo não aconteceu aos seus companheiros, esse quadro é uma oferta de agradecimento à Nossa Senhora, que satisfez todos os pedidos que o pai fez com toda a sua devoção.

O jantar já vai a meio e nós também já estamos a ficar cansados e com vontade de ir para casa, descansar e dormir, e a minha mãe dizia-nos para acalmar. Para onde vão? Respondíamos com alegria e vivacidade para a festa, depois de onde vens? Da festa, já sem força para responder já não temos alegria, só temos sono.

Bem jantar acabado, arrumamos as coisas, dentro dos cestos de verga, ir deitar o lixo fora, porque o local do jantar tinha que ficar limpinho até para o ano, assim acontecia.

O meu pai diz-nos, temos que nos despachar, porque vem aí uma trovoada e das grossas, portanto não temos tempo a perder, a minha mãe lá começa a perguntar-lhe como é que sabia daquelas coisas, mas a verdade é que daí a pouco, caíam os primeiros pingos e vai de andar depressa para nos abrigar e tentarmos apanhar a camionete que nos levasse de volta, mas as pessoas entraram em pânico a fugirem de um lado para o outro foi terrivel. Para além de não encontrarmos forma de vir para casa, também não encontramos sítio para nos arribar. Agora já estamos encharcados até aos ossos e a nossa mãe a tentar protegermos e o pai à procura de taxi ou qualquer outro transporte que nos levasse para casa e nada.

A bicha para a camionete era enorme e todos debaixo daquela chuva torrencial e impiedosa.

Uma grande desgraça se abateu naquele dia sobre a feira, onde antes não faltava alegria e diversão.

Pela madrugada exaustos e sem compreendermos tal desgraça, chegou o momento de já estarmos sentados numa das tais camionetes de regresso a casa.

Quando olho para traz e só via desgraça naquela madrugada da Atalaia, nem queria acreditar.

João Paiva

Setembro de 2026

sexta-feira, 23 de outubro de 2026

CONSTRUÍMOS SORRISOS

 


IGREJA DE SANTA CATARINA DE ITÁLIA - MALTA

 


ALMOUROL


 

CONSTRUÍMOS SORRISOS


 

MALTA

 


CONSTRUÍMOS SORRISOS

 


VILA NOVA DA BARQUINHA

 


quinta-feira, 22 de outubro de 2026

CONSTRUÍMOS SORRISOS

 


POESIA

 A TERRA DE NINGUÉM

Há um lugar onde ninguém mora.

Não aparece nos mapas, não tem fronteiras, nem caminhos assinalados.

É uma terra feita de espera.

Chega-se a ela quando a vida nos tira o chão e ainda não nos ofereceu um novo horizonte.

Ali, o tempo caminha descalço.

As horas deixam de contar os dias e passam apenas a respirar.

Foi nessa terra que aprendi o verdadeiro peso do silêncio.

Não o silêncio que nasce da ausência, mas aquele que nos obriga a ouvir a voz escondida dentro de nós.

No princípio, tive medo.

As paisagens pareciam vazias.

As árvores erguiam os braços como quem procura uma resposta no céu.

O vento atravessava os campos sem encontrar uma única palavra.

Depois, devagar, comecei a reparar que a terra de ninguém estava cheia de pequenas vidas.

Uma flor nascida entre as pedras.

Uma ave que insistia em cantar antes do amanhecer.

Uma semente que rompia a terra sem perguntar se era o tempo certo.

Foi então que compreendi.

Há lugares que parecem abandonados apenas porque estão à espera de um coração capaz de os reconhecer.

Também nós somos, por vezes, essa terra.

Um espaço onde a esperança parece ter partido.

Um campo onde o passado já não floresce e o futuro ainda não lançou raízes.

Mas é precisamente aí, nesse intervalo invisível, que a vida prepara o seu milagre.

Nenhum rio nasce caudaloso.

Nenhuma árvore oferece sombra no dia em que germina.

Nenhum ser humano se encontra sem primeiro se perder.

Hoje, quando volto a essa terra sem nome, já não a vejo como um lugar de abandono.

Vejo-a como o primeiro degrau de todas as recomeçadas.

Porque descobri que a terra de ninguém é, afinal, a terra onde começamos, pela primeira vez, a pertencer a nós próprios.


Conceição Parreira

Outubro de 2026