domingo, 22 de fevereiro de 2026

INTERIOR DA IGREJA DE NOSSA SENHORA DA ATALAIA

PAINEL LATERAL


 

TRABALHOS MANUAIS


NAPERONS DE QUARTO 

TRABALHOS MANUAIS

NAPERON DE QUARTO

 

TRABALHOS MANUAIS


 NAPERON DE QUARTO

ESCRITA NARRATIVA

GARRAFÃO

Sempre no mesmo lugar, em cima de uma mesa de madeira com mais de sessenta anos, já carunchosa e com pés reforçados,com mais de dois metros de comprimento, por um de largura. E o garrafão lá está cheio ou vazio, mas mais cheio, empalhado com palha já tão velha que começa a desfazer-se.

Este cenário ainda se mantém vivo, como se tivesse nascido ontem e o velho garrafão em cima da mesa continua a ver grandes alegrias dos caçadores, assim como maus comportamentos dos mesmos.

Como devem ter reparado, já falei de caçadores, portanto estamos inseridos numa propriedade agrícola, onde se pode caçar com a devida licença. Nunca fui caçador, nem gostava do lazer da caça, mas vivi muitos acontecimentos relacionados com este desporto.

Um dia o Tio António Torcato, capataz de uma herdade vizinha, homem já idoso e que possivelmente, pouco foi mais longe do que a Arraiolos e de certeza à procura de um médico. Conhecia aqueles lugares como ninguém e era um exemplar caçador.

Na casa da malta, encontrava-se sempre um tacho de ferro fundido de quatro pés sobre uma lareira sempre acesa e que mantinha sempre uma sopa bem quentinha e acompanhada de alguns petisco de ocasião, à mão de semear encontrava-se o garrafão.

Junto a lareira, a mesa e uns bancos corridos e em cima da mesa lá estava o garrafão cheio evidentemente e algumas canecas de barro, um pão mole, um lugar agradável sobretudo no inverno. Quando por ali passasse alguém dava dois dedos de conversa ao tio António Torcato o que era muito do seu agrado e logo lhe oferecia comida quentinha e vinho do garrafão e depois era ouvi-los contar as suas peripécias, das suas caçadas e demais situações rocambolescas.

Ouço uma motorizada chegar ao monte e venho ver quem é, era o tio António que quase não se percebia o que ele dizia. tal era a aflição.

- Tio António o que se passa? Não consigo entendê-lo.

- Caçadores, caçadores e pouco mais disse que eu percebesse.

- Caçadores, maus, porco morto, vamos senhor João.

Metemo-nos na carrinha, mas antes tive uma ideia, voltar para traz e ligar para G.N.R. e dizer-lhes que algo de mal se estava a passar no monte do tio António Torcato para onde eu iria, pedindo-lhes que se lá dirigissem, o assunto é grave.

Ao chegar com o tio António, verifico que estão estacionados dois carros vários caçadores e um porco morto no pátio. O grupo está enervado e culpam um colega, mas até aqui ainda não percebi o que aconteceu.

Chovia e fazia muito frio naquela manhã e um grupo de caçadores, chegou ao monte e de imediato foram convidados para a casa da malta, porque estava quentinho, junto à lareira e podiam saborear um caldinho apetitoso acompanhado de um naco de chouriço ou toucinho, o tio António Torcato logo agarrou no garrafão para lhes servir vinho.

De repente entra o jeep da G.N .R. com a sua guarnição e perguntam o que efetivamente aconteceu e tomaram conta da ocorrência.

Mas havia um caçador, este já identificado pela guarda que continuava muito nervoso e não obedecia a ninguém, porque ao ver um porco que tinha fugido da malhada e se passeava pelo alpendre, o matou de imediato.

Foi um dos maiores desgostos do tio António Torcato, que depois de oferecer o que tinha para dar, como agradecimento mataram um dos seus animais. Não me restou outro caminho senão agarrar o tio Torcato pelo braço levá-lo para a casa da malta onde, para o alegrar, petiscamos e demos que fazer ao garrafão.

João Paiva

Fevereiro 2026

F DE FRUTA


 

F DE FLORES


 

F DE FLORES


 

F DE FLORES


 

F DE FLORES


 

F DE FLORES


 

F DE FLORES


 

F DE FLOR


 

sábado, 21 de fevereiro de 2026

CENTRO DE INTERPRETAÇÃO DAS LINHAS DE TORRES

RELÍQUIA


 

SOBRAL DE MONTE AGRAÇO


CENTRO DE INTERPRETAÇÃO DAS LINHAS DE TORRES


 

CARNAVAL 2018


CORSO - MONTIJO


 

CARNAVAL 2026

CUPIDOS


 

CARNAVAL 2018


CORSO - MONTIJO


 

CARNAVAL 2018

CORSO - MONTIJO


 

CARNAVAL 2018



SAMOUCO - MOINHO DA PRAIA

 

TRABALHOS MANUAIS

 

TOALHA DE MÃO PARA A COZINHA

TRABALHOS MANUAIS

 


TOALHA DE MÃO PARA A COZINHA

TRABALHOS MANUAIS

 

SACO PARA O PÃO

TANGERINAS NO INVERNO

ATALAIA - QUINTA TREZE 


 

VISITA DE ESTUDO AO MUSEU DO TESOURO REAL

 

A CEIA DE EMAÚS

BANDEJA - ALEMANHA 1700

(Prata e prata dourada)

VISITA DE ESTUDO AO MUSEU DO TESOURO REAL

 

GUARNIÇÃO DE CORPETE

EUROPA SÉC. XVIII

(Diamantes, rubis, granadas, prata e ouro)

VISITA DE ESTUDO AO MUSEU DO TESOURO REAL

 

CRUZ DE MALTA EM FILIGRANA DE OURO COM DETALHES EM ESMALTE POLICROMADO

VISITA DE ESTUDO AO MUSEU DO TESOURO REAL

 

VIOLINISTA QUE TOCAVA NA ENTRADA 

RENDA E BORDADO

 


TRABALHOS MANUAIS

 


CONJUNTO DE NAPERONS DE QUARTO

POESIA

                        FADO - FADISTA

            Para se ser fadista

            Tem que haver condão

            E um pouco de artista

            O resto se deve a paixão


            Quem quiser cantar o fado

            Será mulher ou homem perfeito

            E o canto bem enquadrado

            Porque um fado nunca o rejeito


            De frente e em público

            Tem que haver aprume

            Porque já carrega o júbilo

            Da responsabilidade que assume


            E já agora, quem canta o fado

            Com vontade de ser, raíz

            Tudo nele tem que ser concertado

            E ter cuidado no que diz


            No palco ou no coreto da praça

            Lá está o que há de melhor

            Dando o ar da sua graça

            Numa verdade maior


            Quando se olha para um fadista

            E até lhe achamos graça

            Porque nos parece um artista

            Mostrando e bem a sua raça


            O fadista de vontade aberta

            Carrega no peito a paixão

            E sempre na hora certa

            Lá está e estará a gratidão


            Não se troca por nada o valor do fado

            Pois que carrega enorme prontidão

           Tal é o peso do seu fardo

           Quando cantado com emoção


            Quando o fadista se apresenta

            É bem modesto na humildade

            Mas sabe dar a voz que presta

            Com todo e querer e vontade

    

            E para terminar

            O fado se canta com rigor

            Para nunca o público enganar

            Seu, grande defensor

João Paiva            

Fevereiro 2026            

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

CARNAVAL MONTIJO

 O NOSSO CARNAVAL



CARNAVAL MONTIJO

 O NOSSO CARNAVAL




CARNAVAL MONTIJO

 O NOSSO CARNAVAL



PINTURA

 MANDALA



FAROL DO CABO ESPICHEL

 

STRESA - ITÁLIA

 


quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

COISAS COMEÇADAS PELA LETRA F

 FALCÃO



CARNAVAL MONTIJO

 O NOSSO CARNAVAL



ESCRITA NARRATIVA

FORCADO

AS VELHICES DE UM AVÔ (12)

Também eu gosto e muito de touros e touradas. Senti um apego aos touros,quando na Herdade de Rio Frio, estive tão perto deles que até o seu bafo, sentina minha cara, onde tive a oportunidade de lhe passar a mão pelo pêlo, ao contrário não gostou do meu e deu um passo à retaguarda, enquanto eu mergulhava na caixa da carrinha, ficando estatelado de barriga para cima e sempre com os olhos no touro.

Depois ía vê-los com muita frequência aos prados e as tendas, mas nunca fui à sua cara, andei várias vezes engalfinhado nos mourrilhos das feras. O grupo de forcados juvenis do Montijo, nasceu nos bancos da Praça da República e depois de alguns treinos na Herdade da Barroca de Alva, começava a surgir os putos com muita habilidade, para virem a ser grandes forcados como: o Pina, o Sérgio, o Carvalheira e tantos outros.

Depois foi tempo de andarmos de porta em porta dos velhos forcados, pedindo jaquetas, calções, cintas e barretes e as famosas meias, porque a maioria de nós não tinha possibilidades de as comprar. E assim conseguimos organizar a nossa primeira corrida na Praça de Touros, com um cartaz tauromáquico onde se anunciava com pompa e circunstância os nossos nomes.

Nunca cheguei a concretizar o sonho de pegar um touro, na praça, porque como já trabalhava no Banco não tinha a possibilidade de frequentar com regularidade os treinos, como faziam os meus colegas.

Para não perder o gosto, frequentava com regularidade todos os sítios onde se realizavam largadas, como no Samouco, S.Francisco, Sarilhos, Moita, quer pelas ruas, quer pelas praças desmontáveis.

Numa largada de touros que se realizou aqui pelas ruas, onde praticávamos com afinco os nossos desejos, nunca vou esquecer quantas vezes fui ao chão e por vezes saia mal tratado.

Sem eu saber um dia fui presenciado pelo gerente da Agência Bancária onde trabalhava, pois foi ali mesmo que acabou o meu sonho.

Na segunda-feira quando me apresento ao trabalho, onde já se encontrava o gerente sentado na sua secretária ao ver-me entrar, da um salto da cadeira como impulsionado por uma mola e manda-me entrar para o gabinete da gerência.

Diz-me o gerente: Tens que escolher e já, o Banco ou os forcados, fiquei espantado a olhar para ele, e, até me pareceu ver uma "fera a colher seriamente o forcado".

João Paiva        

Fevereiro 2026        

CARNAVAL

 




CARNAVAL

 


CARNAVAL

 


CARNAVAL 2018


CORSO MONTIJO

 

CARNAVAL 2018

CORSO MONTIJO


 

CARNAVAL 2018


 

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

MONTIJO - CARNAVAL 2019


O HOMEM DO BIGODE

 

MONTIJO - CARNAVAL 2019

A GALINHA E OS FILHOTES


 

MONTIJO - CARNAVAL 2019


SEMPRE PRESENTE


 

MONTIJO - CARNAVAL 2019


A GALINHA AMARELA


 

MONTIJO - CARNAVAL 2019


BATUCANDO

 

ESCRITA NARRATIVA

PRÓLOGO — A Pergunta que Desperta


Há perguntas que não nascem da curiosidade. Nascem do cansaçoSurgem devagar, como uma névoa que se levanta do chão depois de muitos anos de silêncio. Não aparecem quando tudo está claro, nem quando a vida corre sem sobressaltos. Elas chegam quando algo dentro de nós já não aceita respostas pequenas. Foi assim que esta pergunta começou a viver em mim: O que estou eu a fazer neste mundo? Não veio como uma frase nítida. Veio como uma inquietação sem nome, como um desconforto subtil que não se explica. Uma sensação de estar presente e, ao mesmo tempo, deslocada. De cumprir tarefas, mas não tocar o essencial. De falar com pessoas, mas guardar dentro de mim um silêncio antigo. Durante muito tempo, tentei afastá-la. Dizia a mim mesma que era apenas cansaço. Que passaria. Que todos vivem assim. Mas há perguntas que não se calam — porque não são ruído. São chamamento. Elas regressam nas horas quietas da noite, nos momentos em que o mundo abranda, nos instantes em que deixamos de representar papéis e ficamos apenas diante de nós próprios. Foi num desses instantes que compreendi: esta pergunta não era um problema para resolver. Era uma porta. Uma porta que se abria para dentro. Ao atravessá-la, percebi algo que ninguém nos ensina: existem pessoas que não vieram ao mundo para viver apenas na superfície das coisas. Vieram para escutar o que não é dito, para sentir o que não é visível, para dar nome ao que vive sem linguagem. São pessoas que caminham com o Tempo como companheiro — não o tempo dos relógios, mas o tempo profundo, aquele que guarda memórias, cicatrizes e transformações invisíveis. Este livro nasce desse encontro. Não é uma tentativa de encontrar uma resposta definitiva. Porque talvez ela não exista. É, antes, uma travessia. Uma travessia pelas perguntas que nos habitam, pelas dores que nos moldam, pelos silêncios que nos ensinam, e pelas pequenas luzes que continuam a acender-se mesmo nos dias mais escuros. Ao longo destas páginas, não encontrarás soluções rápidas nem promessas de felicidade permanente. Encontrarás algo mais humano — e talvez mais verdadeiro: o caminho de quem aprende a viver sem fugir das próprias perguntas. Porque, às vezes, o sentido da vida não está em saber exatamente para onde vamos. Está em ter coragem de escutar aquilo que, dentro de nós, pede para nascer. Se esta pergunta também vive em ti — mesmo que em silêncio — então este livro já é, de alguma forma, teu. E talvez possamos atravessar juntos este território onde nada é totalmente certo, mas tudo é profundamente vivo. Porque a pergunta permanece. E é ela que nos mantém despertos.

Capítulo 1 — Antiga como o Tempo

Continuação: Com o passar dos dias, comecei a perceber que aquela pergunta não queria respostas rápidas. Ela não aceitava explicações prontas, nem se satisfazia com frases bonitas. Era uma pergunta paciente. Não batia à porta — permanecia diante dela, silenciosa, como alguém que sabe que não pode ser ignorado para sempre. E quanto mais eu tentava afastá-la, mais ela se entranhava no modo como eu via o mundo. Comecei a notar pequenas coisas que antes me passavam despercebidas. O olhar cansado das pessoas nas ruas. A pressa constante que parecia impedir qualquer escuta verdadeira. As conversas cheias de palavras, mas vazias de presença. Percebi então algo que me inquietou profundamente: muitos vivem sem nunca se perguntarem porquê. Vivem como quem atravessa um corredor estreito — olhando apenas em frente, evitando olhar para dentro. Mas há um momento na vida em que esse corredor se abre de repente. E quando isso acontece, já não é possível regressar à antiga distração. Foi nesse momento que compreendi: a pergunta não tinha surgido para me confundir. Tinha surgido para me acordar. Porque acordar não é tornar-se feliz de imediato. É tornar-se consciente. E a consciência tem um peso. Ela faz-nos ver as ausências que antes ignorávamos, as feridas que escondíamos, os silêncios que carregávamos há anos. Faz-nos perceber quantas vezes vivemos para cumprir expectativas, para corresponder a imagens, para sobreviver em vez de verdadeiramente existir. Mas, ao mesmo tempo, a consciência traz consigo uma dádiva rara: a possibilidade de viver com verdade. Foi também nesse tempo que comecei a sentir o Tempo de outra forma. Já não como inimigo que me roubava juventude, nem como relógio que impunha urgência. Passei a senti-lo como uma presença silenciosa que caminhava ao meu lado. O Tempo não me pressionava. Observava-me. E parecia dizer: “Não tenhas pressa em compreender. Há perguntas que só se revelam quando a alma está pronta para as escutar.” Com o Tempo ao meu lado, comecei a aceitar algo que antes me assustava talvez não estivesse perdida. Talvez estivesse em transição. Entre a vida que aprendi a viver e a vida que ainda não sabia nomear. E essa perceção trouxe uma paz inesperada. Porque percebi que não precisava encontrar imediatamente uma resposta para a pergunta que me habitava. Bastava não fugir dela. Bastava caminhar com ela. E, aos poucos, fui compreendendo que existem perguntas que não pedem solução. Pedem presença. Pedem escuta. Pedem coragem. E, acima de tudo, pedem tempo —porque são tão antigas quanto o próprio Tempo.

Capítulo 2 — O Despertar da Consciência

Versão expandida: O despertar da consciência não acontece de uma só vez. Não chega como um trovão que rasga o céu, nem como uma certeza luminosa que resolve todas as dúvidas. Ele começa quase sem se anunciar — como uma mudança subtil na respiração da alma. No início, é apenas um desconforto difícil de explicar. A vida continua aparentemente igual, os dias mantêm as suas rotinas, as pessoas continuam a falar das mesmas coisas. Nada mudou por fora. Mas por dentro, algo já não encaixa. As palavras que antes pareciam suficientes tornam-se pequenas. As ocupações que antes preenchiam o tempo começam a parecer vazias. E surge uma sensação estranha: a de estar presente e, ao mesmo tempo, distante de tudo. É como se uma parte de nós tivesse acordado antes do resto. Essa parte não grita. Não exige respostas imediatas. Apenas observa. Observa a forma como vivemos em piloto automático. Observa quantas vezes sorrimos sem sentir alegria. Observa o modo como nos adaptamos para não incomodar, para não destoar, para não ficar sozinhos. E, lentamente, começa a fazer perguntas. Perguntas que não procuram soluções rápidas, mas verdade. Pergunta se a vida que vivemos é realmente nossa. Pergunta se as escolhas que fizemos nasceram do coração ou do medo. Pergunta quem somos quando deixamos de representar papéis. Durante muito tempo, podemos tentar ignorar esse movimento interior. Dizemos a nós próprios que é apenas cansaço. Que todos passam por fases assim. Que basta ocupar a mente para que a inquietação desapareça. Mas a consciência não se dissolve com distrações. Ela permanece. E quanto mais tentamos afastá-la, mais ela se manifesta — nos silêncios, nas pausas inesperadas, nos momentos em que nos sentimos inexplicavelmente deslocados do mundo. É então que percebemos algo fundamental:o despertar da consciência não é um problema. É um processo. Um processo lento, por vezes doloroso, mas profundamente transformador. Porque a consciência ilumina tudo. Não apenas o que é belo, mas também o que evitámos ver durante anos. Ilumina as feridas antigas que fingíamos ter esquecido. Ilumina os medos que orientaram escolhas. Ilumina as perdas que nunca foram verdadeiramente choradas. E, talvez o mais difícil, ilumina as partes de nós que viviam escondidas — aquelas que foram silenciadas para que pudéssemos ser aceites, amados ou simplesmente sobreviver. É natural que este despertar traga dor. Porque ver com clareza implica reconhecer o que antes estava envolto em sombra. Mas há uma verdade essencial que só se compreende ao atravessar este processo: a consciência não chega para nos destruir. Chega para nos libertar. Ela não exige que mudemos tudo de imediato. Não pede que abandonemos a vida que construímos. Pede apenas que deixemos de viver inconscientemente. Pede honestidade. Pede presença. Pede coragem para olhar sem fugir. Foi neste tempo que comecei também a sentir o Tempo de forma diferente. Antes, o Tempo era apenas medida — horas, dias, anos que passavam sem pausa. Era algo que me pressionava, que me fazia sentir atrasada, que parecia exigir rapidez constante. Mas, ao despertar da consciência, o Tempo transformou-se. Deixou de ser um perseguidor para se tornar uma presença. Passei a senti-lo como um companheiro silencioso, sempre ao meu lado, observando sem julgamento. E parecia dizer-me: “Não te apresses. A consciência não floresce na pressa. Ela precisa de silêncio, de escuta e de tempo.” Com essa nova relação com o Tempo, algo dentro de mim começou a suavizar-se. Percebi que não estava perdida. Estava em transformação. Entre aquilo que fui ensinada a ser e aquilo que a minha essência começava a revelar. Esse espaço intermédio — entre o antigo e o novo — é, muitas vezes, desconfortável. Porque já não pertencemos completamente à vida de antes, mas ainda não sabemos habitar a vida que se aproxima. É um território de incerteza. Mas também é um território fértil. É ali que a consciência amadurece. É ali que começamos a distinguir o essencial do supérfluo. É ali que nasce a possibilidade de viver com verdade. Com o tempo, compreendi algo profundamente libertador: o despertar da consciência não tem como objetivo dar-nos respostas definitivas. O seu propósito é outro. Ensinar-nos a viver acordados. A viver atentos ao que sentimos. A viver alinhados com aquilo que somos. A viver com a coragem de não nos abandonarmos para sermos aceites. E embora este caminho possa trazer momentos de solidão, traz também uma forma de liberdade que nada exterior pode oferecer: a liberdade de sermos, finalmente, inteiros. Porque, uma vez desperta, a consciência não volta a adormecer. Ela permanece — silenciosa, vigilante, paciente — lembrando-nos, a cada dia, que viver não é apenaspassar pelo mundo. É estar verdadeiramente presente nele.


Conceição Parreira

Fevereiro 2026

CARNAVAL

No Carnaval em Portugal

até o inverno se disfarça:

põe um sol de papelão

e um sorriso de ameaça.


Sai à rua o Zé Povinho

com coroa de purpurina,

rei por três dias apenas —

na quarta já volta à sina.


Há políticos de cartolina

com promessas de serpentina,

que voam leves no ar...

mas nunca chegam à esquina.


O vizinho vira pirata,

a tia vira rainha,

e quem nunca teve voz

berra alto na marchinha.


Come-se sonhos e filhoses,

bebe-se riso barato,

e até a crise, coitada,

usa máscara de gato.


Mas o mais curioso, afinal,

neste teatro improvisado,

é que, findo o Carnaval,

ninguém tira o disfarçado.


Porque há máscaras tão coladas

que nem a chuva desmancha:

uns vestem-nas só em fevereiro,

outros... usam-nas o ano inteiro na franja. 


Conceição Parreira

Fevereiro de 2026

CARNAVAL MONTIJO

 O NOSSO CARNAVAL



CARNAVAL