SOUSENIORALDEANO
Prolongar a juventude é desejo de todos, desfrutar de uma velhice sadia é sabedoria de poucos.
quarta-feira, 29 de abril de 2026
PORTAS
O Silêncio das Portas
Um conto à maneira de José Saramago
Ninguém soube ao certo quando foi que as portas começaram a fechar-se sozinhas, nem a quem caberia a culpa, se é que se pode atribuir tal responsabilidade a quem vive do lado de dentro ou do lado de fora, porque as portas, e isto aprendi cedo, são sempre fronteiras entre destinos. O senhor Manuel, homem de poucas falas e muitas dúvidas, começou a notar as primeiras diferenças numa manhã cinzenta, talvez terça, mas podia bem ser quinta, já que os dias, naquela vila, eram todos irmãos, filhos do mesmo tédio e netos da mesma esperança esquecida. A porta da cozinha, outrora risonha com suas dobradiças rangentes, teimou em não abrir ao toque habitual do ombro cansado do senhor Manuel, gesto aprendido de gerações, como quem cumprimenta um velho amigo, e ali ficou, imóvel, como se tivesse decidido, por conta própria, não mais permitir a passagem da rotina, talvez querendo guardar para si o cheiro do café e a dança do vapor que subia em espirais preguiçosas. Dona Amália, sua mulher, achou graça ao início, mas logo se impacientou, porque quem tem filhos para alimentar não costuma ter tempo para filosofias das portas nem dos batentes. Na praça, as conversas eram feitas de perguntas, e os velhos juntavam-se em círculos apertados, sussurrando teorias com a mesma convicção de quem comenta o tempo: terá sido o vento, ou será feitiço, algum recado de Deus ou capricho de diabo, quem pode saber, minha senhora, quem pode saber. O padre Arnaldo, homem de voz grave e paciência curta, tentou benzer a entrada da igreja, mas a porta, indiferente à água benta e palavras latinas, recusou-se a ceder. As crianças, que não conhecem o peso das preocupações adultas, viam nos novos acontecimentos oportunidades de jogo, inventando códigos secretos para atravessar paredes invisíveis, enquanto os mais velhos se perguntavam se as portas dos corações também se fechariam, e se sim, quem teria a chave para abrir o que foi selado pelo medo ou pela dúvida. Naquela noite, sentados à mesa por força da persistência e do improviso, senhor Manuel e dona Amália comeram em silêncio, ouvindo o rumor das ruas, as portas que se batiam ao longe, como se tentassem dizer algo há muito esquecido. Ninguém se atreveu a perguntar se amanhã as portas estariam abertas, porque ali, naquela vila, a esperança é coisa delicada, precisa ser cuidada como se cuida uma planta teimosa, dessas que só florescem quando ninguém vê. E naquela madrugada, entre o último suspiro do vento e o primeiro canto do galo, alguém, talvez a própria noite, sussurrou que as portas se fecham para recordar que, às vezes, é preciso aprender a bater, esperar, e escutar, mesmo que o silêncio doa mais do que a ausência de resposta.
Conceição Parreira
Abril 2026
ESCRITA NARRATIVA
Havia numa aldeia portuguesa, encostada ao rio e ao silêncio, uma miúda que só falava francês. Chamava-se Leonor, mas poucos o sabiam, porque ninguém lhe perguntava o nome: perguntavam-lhe antes porquê. Por que razão, numa terra de sinos e broas, aquela criança respondia bonjour quando lhe diziam bom dia. Por que motivo dizia merci ao invés de obrigada, e chorava em francês, com um choro mais comprido, quase musical. A mãe dizia que não era teimosia. Dizia que Leonor nascera assim, com a língua trocada no berço. O pai, homem de poucas palavras, encolhia os ombros como quem aceita o destino tal como aceita a chuva fora de tempo. Mas a aldeia não aceitava. A aldeia observa, cochicha, corrige. Na escola, a professora falava devagar, como se o português pudesse ser aprendido por osmose. Leonor ouvia, atenta, com olhos grandes, e respondia sempre em francês, com frases completas, educadas, impecáveis. Não errava um verbo. Errava apenas o país. As outras crianças riam-se. Chamavam-lhe a estrangeira, a parisiense, sem nunca terem visto Paris. Leonor não se defendia. Limitava-se a sorrir, um sorriso fino, como quem sabe um segredo que não pode traduzir. Às vezes, ao fim da tarde, sentava-se à beira do rio e falava sozinha. Em francês. O rio parecia entender. Corria mais manso, como se escutasse. Talvez fosse ali que a língua dela fazia sentido — na água, que não tem pátria. Um dia, chegou à aldeia uma mulher vinda de fora, com um lenço vermelho ao pescoço e livros debaixo do braço. Quando Leonor lhe disse bonsoir, a mulher parou. Sorriu como quem encontra casa depois de muito tempo. — Enfin, disse. Finalmente. Conversaram horas. Ninguém percebeu nada, mas perceberam tudo: Leonor ria alto, gesticulava, existia inteira. Pela primeira vez, não era um erro. Quando a mulher partiu, deixou um livro. Leonor guardou-o como quem guarda um espelho. Continuou a falar francês, é verdade. Mas já não o fazia sozinha. E a aldeia, aos poucos, aprendeu que nem todas as vozes nascem no mesmo lugar. Algumas vêm de longe para nos ensinar que o mundo é maior do que a nossa língua.
Conceição Parreira
Abril 2026
terça-feira, 28 de abril de 2026
segunda-feira, 27 de abril de 2026
ESCRITA NARRATIVA
PORTA QUE NÃO FECHAVA
NUMA NOITE DE NATAL
ANOS SETENTA
Hoje é véspera de Natal, neste dia o horário era o de um dia normal de trabalho, fechando as portas ás dezasseis horas para fecho de contas de uma Agência bancária.
- Senhor João
- Diga senhor Sequeira
- Falta-me quinhentos escudos na caixa (Era muito dinheiro para a época).
Então vamos conferir o expediente e após a contagem dos valores, conferido os documentos que originaram as contas do dia, nada foi encontrado de mal e o expediente foi dado como encerrado.
Os colegas que iam passar o Natal com a família sairam, mas os restantes tiveram que ficar, contrariados, mas havendo erros terão que ser encontrados.
Dois colegas foram a casa dos clientes com depósitos nesse dia perguntando-lhes se tinham as contas certas, afirmativo responderam os visitados.
Outros dois colegas foram a casa dos clientes que tinham levantado cheques, também nada de anormal se passou.
Não posso esquecer que estamos precisamente na noite de Natal, já passa da meia noite de mil novecentos e setenta... e tal.
Com muita tristeza de todos nos despedimos com os votos de Boas Festas.
- Senhor Sequeira, lamento mas vamos fechar o cofre e de imediato procedemos ao encerramento do mesmo, mas o cofre não fechava...ora esta. Só cá me faltava esta coisa. Não fecha porquê?
'Mais insistência, mais cuidado e nada, estamos a falar de portas enormes e pesadíssimas.
Sentei-me à secretária, descansei a minha cabeça sobre as mãos e fiquei pensando e agora.....
- Senhor João o cofre fechou, diz-me o senhor Sequeira.
- Qual o motivo da anormalidade, pergunto espantado.
- Estava um maço da notas caído entre os ferrolhos do cofre, isto é nas dobradiças das porta como tal o cofre não fechava.
Este acontecimento é selado com um abraço entre dois colegas e amigos.
João Paiva
Abril de 2026



