SOUSENIORALDEANO
Prolongar a juventude é desejo de todos, desfrutar de uma velhice sadia é sabedoria de poucos.
sexta-feira, 13 de março de 2026
quinta-feira, 12 de março de 2026
POESIA
NAUFRÁGIO
E mais ou menos, quando
O mar se altera e enfurece
E há sempre um barco afundando
Levando para o fundo quem padece
O mar não quer amainar
Há uma tripulação aflita
Que tenta em aflição se salvar
Mas há outra que apenas só grita
O tripulante lá ficou agarrado
Aquilo que tinha à mão
Sentindo-se o maior desgraçado
Agarrado à fotografia do irmão
Aos Santinhos também pediu
Sobretudo ao seu Santo Padroeiro
E Ele lá conseguiu
Enviar-lhe um fiel companheiro
Não veio um, mas sim uma companheira
Nas vestes de uma gaivota
Surgindo naquela manhã milagreira
Que o conseguiu trazer de volta
João Paiva
Março de 2026
POESIA
MAR
Por essas rotas a diante
Os olhos postos no infinito
Quero ver a terra distante
Sem navegar por instinto
É como sentir o coração
Que muito tem para nos dar
E com muita preocupação
Porque continua a trabalhar
O mar por vezes nos engana
Convidando-nos a navegar
É como a simpática cigana
Com o querer de nos enganar
Marinheiro tens que ser afoito
Com o mar não se pode brincar
Agora estamos feitos num oito
E ninguém que nos possa salvar
Noutro dia subi a um farol
Manhã com névoa de serrar
Que nem consegui ver o sol
Nem aquela imensidão de mar.
João Paiva
Março de 2026
POESIA
O MEU RIO
Muitos anos entre nós passaram
Foste com gosto a minha ambição
Recebeste bem os que até a ti chegaram
A quem dedicaste a melhor atenção
Na enchente por vezes barafustaste
Na vazante deixaste um agueiro
Não foste de todo um traste
Porque sempre limpaste o esteiro
Quando chegamos ao preia mar
Os mais velhos e sabedores de fé
Põem-se muitas vezes a reclamar
Pelos desencontros da tua maré
Os antigos que ainda cá estão
Olham para os filhos já criados
E dizem, para o rio não foram não
Muito menos para embarcados
Meu rio não podes estar doente
Apesar de muito mal tratado
Não tenho dúvidas que estás carente
E muito longe de estares acabado
Nas tuas margens sempre vivi
E nelas muitas vezes mergulhei
Com as correntes muito aprendi
E os muitos sustos que apanhei
O teu leito é um pegado lameiro
Se estivesse na minha mão te ajudava
Sabendo que foste um rio primeiro
Onde toda a gente navegava
Na tua enchente e vazante
Muito me ajudaram a sonhar
Desde o mau tempo a levante
Ao mar sereno para navegar
João Paiva
Março de 2026
POESIA
MARÉ
Estou junto á maré
Que acaba de chegar, serena
Convida-me a por lá o pé
E eu lhe nego com muita pena
Por estares quentinha, não me apanhas
Pensando melhor leva-me ao infinito
Esse que nos devassa as nossas entranhas
É isso, mesmo que sinto
Ao longe vem um barqueiro
Cheio de força e a remar
Já se safou do seu agueiro
E á praia quer chegar
Gostamos de ver a serenidade do mar
Mas também nos assusta quando enfurece
E quantas vezes mais, nos põe a chorar
Quando um náufrago no mar desaparece
Quando o mar toca no sol
Ou o sol toca no mar
É tão bonito aquele enorme lençol
Em cujo fenómeno nos põe abraçar
João Paiva
Março 2026
quarta-feira, 11 de março de 2026
ESCRITA NARRATIVA
VISITA A CASA DA MINHA SOBRINHA
Chego já o cozido à portuguesa, composto com as melhores carnes e enchidos de porco está ao lume, depois de tudo previamente amanhado como mandam os preceitos dos nossos antepassados e não tarda muito e o cheiro tradicional da confeção começa a exalar por todo a casa.
A mesa bem portuguesa, onde não faltou um vinho de Pégões e para sobremesa um melão, não de Almeirim nem do Alentejo, mas sim de um país sul americano, que pena, mas não faltou o nosso bolo de milho da tia Beatriz (minha mãe).
Agora a história que vou contar: Acabamos de almoçar e fomos dar a volta dos tristes como se diz cá na terra e ficámos presos à conversa com um antigo companheiro da primária, de nome Salvador.
- Pergunta-me o Salvado:
- Lembras-te do Jorge Gordo que também foi teu colega na Banca? Ja faleceu.
- Eu sei e aproveito para contar uma história que passei com o Jorge e o meu primo Luis, que enquanto cá andar será sempre recordada.
- Como sabes eu tinha um barco, que era a minha grande paixão e navegava com qualquer tempo. Certo dia o Jorge pediu-me para navegar comigo, mas não atendi o pedido pelo facto de ele não saber nadar. Tanto me pediu que um dia fez parte da tripulação. Numa manobra de rumo por mim executada e com o excesso de peso do Jorge, o barco afundou-se. Ele com grande aflição segurou-se à minha camisola e não a largou mais. Com a ajuda do Luis, conseguimos que o Jorge me largasse e só assim foi possível o seu salvamento e também o meu.
Até aqui tudo bem, mas o Salvador diz-me:
- Não continues, porque eu estava na praia e assisti a todo esse drama. Fui eu quem os auxiliou a sairem da água, não te lembras?
Passaram mais de sessenta anos. Como é possível esta lembrança surgir agora entre nós os dois? Foi um momento maravilhoso este, um recordar de histórias, mas uma coisa aconteceu: Selámos com um abraço os nossos oitenta anos de vida, abraço este que durou tantos anos a saldar.
João Paiva
Março de 2026
ESCRITA NARRATIVA
A Fábula do Urso Maior e do Urso Menor
Na orla de uma floresta antiga viviam dois ursos: o Urso Maior e o Urso Menor. O Urso Maior tinha passos pesados, voz grave e uma certeza antiga de que o mundo era perigoso. O Urso Menor tinha olhos curiosos, patas ainda inseguras e acreditava que o mundo era um lugar por descobrir. Todos os dias, o Urso Menor perguntava: — Posso ir mais longe hoje? E o Urso Maior respondia sempre: — Ainda não. A floresta ensina devagar. Certo dia, enquanto o Urso Maior dormia à sombra de um carvalho, o Urso Menor aventurou-se um pouco mais. Não foi longe — apenas o suficiente para se perder do cheiro seguro do outro. Assustado, o Urso Menor chamou. Chamou baixo, chamou alto, chamou com o coração. O Urso Maior acordou e percebeu: proteger não é prender. Correu pela floresta, derrubou silêncios, afastou medos, até encontrar o Urso Menor encolhido junto a um riacho. — Pensei que o mundo fosse maior do que eu — disse o pequeno. — E é — respondeu o Urso Maior, abraçando-o — mas tu também estás a crescer. Nesse dia, regressaram juntos. O Urso Maior caminhou um pouco atrás, atento. O Urso Menor caminhou um pouco à frente, confiante. Moral da fábula: Quem ama protege, mas também aprende a soltar. E crescer é isso: ir um pouco mais longe, sabendo que alguém nos espera.
Conceição Parreira
Março 2026
ESCRITA NARRATIVA
O comboio partiu ainda com a madrugada colada às janelas. Havia um silêncio espesso no cais, como se todos os destinos estivessem a prender a respiração. Sentei-me junto à janela, levando comigo apenas uma mala pequena e um cansaço antigo que não passava pela alfândega. À medida que o comboio avançava, os países iam-se dissolvendo como pensamentos mal acabados. Campos verdes, rios imóveis, estações com nomes difíceis de pronunciar — tudo passava com a mesma delicadeza com que se folheia um livro já lido. No reflexo do vidro, via o meu rosto misturado com a paisagem: eu também estava em trânsito, entre o que tinha sido e aquilo que ainda não sabia nomear. Havia pessoas que dormiam, outras liam, algumas olhavam o nada com devoção. Um homem de cabelos brancos desenhava mapas imaginários num caderno. Uma rapariga falava baixo ao telefone, como se confessasse um segredo ao próprio comboio. Ninguém perguntava a ninguém de onde vinha. Talvez porque todos ali estivessem a fugir de algo — ou a aproximar-se. Quando atravessámos a fronteira invisível da Holanda, a luz mudou. Tornou-se mais clara, quase líquida. Os campos pareciam pintados com paciência e os canais surgiam como frases bem pontuadas. Senti que Amsterdão não seria apenas um lugar, mas um estado de espírito: um espaço onde o tempo anda de bicicleta e a solidão aprende a conviver com a beleza. Ao chegar, o comboio parou com um suspiro metálico. Desci devagar, como quem não quer acordar de um sonho. A cidade esperava-me sem pressa, com as suas pontes curvas e janelas abertas para dentro da vida dos outros. Percebi então que a verdadeira viagem não tinha sido até Amsterdão, mas até esse lugar raro onde finalmente me sentia em movimento outra vez. E, pela primeira vez em muito tempo, isso bastava.
Conceição Parreira
Março 2026




