SOUSENIORALDEANO
Prolongar a juventude é desejo de todos, desfrutar de uma velhice sadia é sabedoria de poucos.
terça-feira, 7 de abril de 2026
ESCRITA NARRATIVA
ILHA DO RATO
Quantos montijenses não conhecem a Ilha do Rato, ou o Mouchão do Montijo, muitos, muitos milhares, mesmo.
Pontos de referência para a ilha, do nosso lado temos, a Base Aérea, a Quinta do Batedoiro, a Quinta do Seixalinho e do lado do Lavradio, temos a Ponta da Passadeira e a ilha fica de frente e para o Rosairinho.
Quem vai para Lisboa de barco encontra a base a estibordo e a dita ilha a bombordo, repara naquela porção de terra rodeada por água, quer na vazante, quer na enchente repara nitidamente a ilha, que dista da base aproximadamente dois quilómetros.
Presentemente já não tem qualquer habitação, nem restos de viveiros de peixe e de mariscos, que por lá existiam. Foi habitada por uma família de pescadores, oriundos do bairro do mesmo nome, que por lá se mantiveram, até aos anos sessenta/setenta. Eram independentes na sua alimentação porque se abasteciam na vila do Montijo, de tudo quanto necessitavam e aproveitavam para vender o pescado e as ostras e as ameijoas que eram em abundância.
Não quero esquecer para as gentes da minha geração, sobretudo para os pescadores e seus familiares, utilizavam aquela ilha para fins turísticos, pois que para ali rumavam, acompanhados dos bons produtos porcinos, como torresmos, chouriços e toucinhos, assim como os nossos bons melões e do célebre vinho do Montijo, da casa José Leite, Gabriel do Carmo e dos Pinhos.
Assim passavam bons fins de semana, quero aqui fazer um reparo, esta ilha foi muito utilizada pela juventude da borda de água.
Hoje quase completamente assoreada, julgo que corre o risco de se perder. Este verão tive a oportunidade de visitar esta ilha a bordo da canoa "Deolinda Maria," esta senhora foi mãe de três dignos pescadores, dos quais dois morreram no mar, esta canoa tem como mestre um velho homem do mar de nome Alexandre.
João Paiva
Abril de 2026
JARMELO: HISTÓRIA, LENDA E SILÊNCIO
A antiga vila do Jarmelo localiza-se numa ramificação da Serra da Estrela, a cerca de quinze quilómetros da cidade da Guarda, numa posição estratégica que permitia o controlo das rotas entre o Planalto Beirão e a fronteira com Castela. Atualmente, o seu território reparte-se entre as freguesias de São Pedro e São Miguel do Jarmelo, tendo o antigo castro um papel organizador do espaço.
Neste cume ventoso do Jarmelo, onde hoje as pedras guardam um silêncio austero, ecoa ainda o rumor de uma maldição antiga. Diz a lenda que aquela que foi uma das mais prósperas vilas da Beira não sucumbiu ao tempo, mas à fúria de um rei ferido pelo luto.
Cresci a ver, da janela, o cume do Jarmelo recortado contra o céu. A sua presença constante, imóvel e silenciosa, acompanhou os meus dias muito antes de eu compreender o peso histórico e simbólico daquele lugar. Ao mesmo tempo, fui ouvindo a lenda repetida em tom quase ritual, tantas vezes contada que deixou de ser apenas uma história para passar a fazer parte da paisagem interior. Entre aquilo que via e aquilo que escutava, o Jarmelo foi-se tornando um espaço onde memória pessoal, tradição oral e identidade coletiva se confundem.
A memória histórica da localidade está profundamente associada à lenda do assassínio de Inês de Castro, segundo a qual um dos seus assassinos seria natural do Jarmelo. A tradição refere que, após a subida ao trono de D. Pedro I, a vila teria sido arrasada como forma de vingança régia. Apesar da falta de confirmação documental, esta lenda permanece central na identidade simbólica do lugar.
No antigo Jarmelo, a relação entre história e memória estende-se também à arte contemporânea. Destaca-se o conjunto escultórico Homenagem a Inês de Castro, composto por sete peças em ferro inauguradas em 2006 e concebidas por Rui Miragaia, que evocam episódios ligados à lenda. A escolha do ferro e a disposição das esculturas ao longo do percurso para o castro reforçam a integração paisagística e a dimensão narrativa do local. Outras intervenções artísticas, como uma escultura inspirada na vaca jarmelista, contribuem igualmente para a valorização e reinterpretação da identidade local.
Convido todas as pessoas a visitar o Jarmelo e a descobrir de perto as suas paisagens, histórias e manifestações artísticas. Uma caminhada pelo antigo castro, acompanhada pela observação das esculturas e pela vivência das tradições locais, oferece uma experiência única de aprendizagem e partilha, ideal para quem procura enriquecimento cultural e momentos de convívio.
Venha conhecer o Jarmelo e deixe-se envolver pela sua identidade singular.
Conceição Lavrador
Abril/2026
POEMA COM JOGO DE PALAVRAS COMEÇADAS PELA LETRA J
Jaz no jardim da linguagem
uma letra leve,
j — de janela, de gesto, de jogo.
Junto palavras como quem junta jasmim,
e o cheiro já é quase um jeito de dizer
o que jamais se diz.
Jogo-me no jorro do som,
no jeitinho das sílabas
que dançam, juntas, em júbilo.
J é também o já e o jamais,
o começo e o corte,
o salto súbito do pensamento.
Juro que a letra se move —
não é tinta, nem traço:
é um jardim inteiro a germinar na boca.
E quando a noite chega,
e tudo jaz em silêncio,
resta o j —
ainda jovem,
ainda vivo,
ainda jogando luz
no escuro das palavras.
Conceição Parreira
Abril 2026
ESCRITA NARRATIVA
Era uma miúda de 9 anos, daquelas que ainda acreditam que o mundo cabe inteiro num sorriso. Todos os dias, depois da escola, corria para o parque como quem corre para casa. A mochila ficava esquecida num banco, os atacadores desatados, e o coração começava logo a bater mais depressa quando via o baloiço vazio. O baloiço era o seu lugar secreto. Sentava-se, segurava as correntes frias e empurrava-se com força, cada vez mais alto, como se pudesse tocar o céu com a ponta dos ténis. Lá em cima, por um segundo, o tempo parava. O vento batia-lhe na cara, os cabelos voavam livres e ela imaginava que era um pássaro, uma astronauta, ou simplesmente alguém capaz de ir aonde quisesse. No parque havia árvores antigas que pareciam ouvir os seus pensamentos, crianças a rir, mães a conversar baixinho e o cheiro da relva misturado com terra molhada. A miúda conhecia cada canto: o escorrega quente ao sol, a areia onde desenhava caminhos com um pau, o banco onde se sentava a observar os outros, como se estivesse a aprender vida sem ninguém dar por isso. Às vezes brincava sozinha, outras vezes fazia amigos que duravam apenas uma tarde. Não se importava. Para ela, cada encontro era uma pequena aventura. Inventava histórias, dava nomes às nuvens, falava com o baloiço como se fosse um velho amigo que nunca a julgava. Quando o sol começava a descer e alguém a chamava para ir embora, suspirava fundo. Sabia que tinha de sair do parque, mas levava consigo a sensação de liberdade, guardada no peito. Em casa, antes de adormecer, fechava os olhos e voltava a baloiçar, alto, muito alto, naquele lugar onde a infância ainda era inteira. E assim, dia após dia, a miúda crescia devagar, sem pressa, embalada pelo baloiço e pelos sonhos que só quem tem 9 anos sabe inventar.
Conceição Parreira
Abril 2026
segunda-feira, 6 de abril de 2026
POESIA
HOJE É DIA MUNDIAL DA ATIVIDADE FÍSICA
E o vamos sempre lembrar
Da nossa condição física
Para a saúde melhorar
Não nos podemos esquecer
Que Também temos joelhos
E que logo começam a doer
E logo aparecem os artelhos
Não podemos ficar sós
Porque a pouco e pouco
Vamos perdendo a voz
E que nos resta?Ser loucos
Nem pensar, é preferível
Fugir para onde eu não sei
Mas não vou ficar parado
Com varas e redes cheguei
E o silêncio da velhice
É um terrível contratempo
Eu não o consigo tolerar
Vou doar ao esquecimento
João Paiva
Abril de 2026
domingo, 5 de abril de 2026
ESCRITA NARRATIVA
LISBOA Ultima noite
Desembarquei do velho navio Carvalho Araújo, no Cais de Alcântara, vindo de Angra do Heroísmo, para embarcar no navio Niassa, com destino á guerra de Angola.
Fico a saber por um colega, que a minha mulher já se encontra no navio e que vai comigo para África.
Não quero acreditar, mas como é possível? Como um doido procuro por todo o navio a minha mulher, mas não a encontro, estão a bordo mais de três mil militares.
Como tudo isto aconteceu, não imagino, outra doidice, a minha mulher abandona o seu curso, para se integrar no meu contingente militar. Ainda julguei que se tratasse de uma enorme confusão. Eu não era militar de superior patente, dado que fui um miliciano, no cumprimento dos deveres militares e portanto não imaginava que fosse possível uma mulher acompanhar o seu marido.
Desisto de a procurar as cegas, dirijo-me ao meu comandante, outra carga de trabalhos para o encontrar, mas já sei notícias da minha mulher, agora estou no cais para me despedir dos meus pais e restante família.
Faço uma chamada de atenção para o que eram esses tempos conturbados com a guerra do ultramar. Militares a partir sem poderem despedir de suas mães. Não aconteceu comigo apesar de ter vindo dos Açores. Há sempre mais uns beijos e abraços de todos aqueles familiares que foram á Doca de Alcântara desejar boa sorte aos que partiam.
Voltei ao navio procurando a minha mulher, já sei onde se encontra, tenho o número do camarote e do respetivo convéns, foi fácil chegar até ela.
Depois de nos abraçar viemos a terra porque estavam os meus sogros que queriam abraçar e beijar a filha naquele início de dia, e de vida, desfeitos em lágrimas difícil foi separa-los.
Começa agora a acomodação dos soldados nos respetivos porões, porões pois então!Tristeza.
Sai do navio na companhia da minha mulher e com a obrigação de voltar na próxima madrugada e já ataviados, o que parecia uma coisa do outro mundo, eis que se torna realidade.
Devidamente camuflado, vagueamos pelas ruas mortas de Lisboa. Enquanto os meus colegas se foram divertir para as boites do antigamente.
Assim, subimos a Avenida da Liberdade, fomos ao Saldanha e acabamos a subir e a descer ruas até ao alvorecer, ouvimos ainda os primeiros pregões e o rebuliço tão peculiar das manhãs lisboetas.
Agora nós os dois o que pensamos e o que dissemos, já não sei, nem o que disse nem o que ouvi. O barulho dos elétricos já aí estão e até um polícia sinaleiro despediu-se de um jovem casal prestes a ir para a guerra. Por andarmos sós e longe da azáfama do cais de embarque, fomos bem vigiados e ainda ouve alguém que nos desejou boa sorte.
O que fizemos mais não sei, estamos a caminho do cais de Alcântara e já com o sol a nascer, onde vamos, encontramos outros militares que se preparam para partir e quantos de nós não irão regressar.
Alguns familiares ainda foram dar os últimos abraços e beijos e não tarda muito e o navio começa e desencostar do cais para iniciar a viagem de muitos dias e muitas lágrimas e foram muitas as que se juntaram às aguas do Tejo.
De pé e junto a uma amurada mais alta do navio, nos despedimos de Lisboa, desenhando um coração e gritando até ao meu regresso.
João Paiva
Abril 2026
POESIA
Primavera em Ti
Quando a primavera chega,
não bate à porta —
entra devagarinho
pelas frestas do meu peito.
Traz nos dedos
o perfume das flores recém-nascidas
e pousa no meu ombro
como quem sabe o caminho do abraço.
Os campos vestem-se de verde esperança,
as árvores ensaiam rendas de luz,
e no ar há uma promessa antiga
de recomeço e de ternura.
É na primavera que te penso mais:
como se o teu nome
fosse semente na minha boca,
pronto a florir em beijo.
As andorinhas riscam o céu
com cartas de amor invisíveis,
e cada pétala que cai
é um segredo que te pertence.
No teu olhar
há manhãs claras e longas,
há rios que desaprendem o inverno
e aprendem a correr livres.
Se o mundo renasce em flores,
eu renasço em ti —
numa estação sem fim,
onde amar é o único clima possível.
CONCEIÇÃO PARREIRA
Abril 2026
FÁBULA
O Caranguejo e o Escorpião
À beira de um rio de águas calmas vivia um caranguejo paciente, que caminhava de lado, observando o mundo com atenção. Passava os dias a recolher pequenos tesouros da areia e a ouvir o murmúrio da água. Num dia quente, apareceu um escorpião vindo do deserto próximo. Estava cansado e precisava atravessar o rio, mas não sabia nadar. — Caranguejo — disse ele —, leva-me nas tuas costas até à outra margem. Prometo não te picar. O caranguejo hesitou. — Como posso confiar em ti, se o teu ferrão é feito para ferir? O escorpião respondeu com voz sincera: — Se te picar, afogar-me-ei contigo. Não faria sentido. Depois de pensar longamente, o caranguejo aceitou. Entrou devagar na água, sentindo o peso do escorpião nas costas. A meio do rio, porém, sentiu uma dor aguda. — Porque fizeste isso? — perguntou, já enfraquecido. — Agora morreremos os dois. O escorpião baixou a cabeça e respondeu: — Não foi por mal. Foi da minha natureza. O caranguejo afundou-se nas águas, compreendendo, tarde demais, que a confiança não pode ignorar aquilo que o outro é.
Moral da fábula: Nunca esperes que alguém deixe de ser quem é só porque a situação o exige.
Conceição Parreira
Abril 2026
sábado, 4 de abril de 2026
sexta-feira, 3 de abril de 2026
POESIA
PÁSCOA
Páscoa lembrança de férias
Dos meus passados anos
Esperando pelas notas frias
Que me causavam danos
Páscoa vamos ver flores
Com aquela linda cor roxa
Não desanima os amores
Nem a pétala fica murcha
Páscoa das minhas andorinhas
Dos lindos dias ao amanhecer
A saudade é nobre e só minha
Que me dá força para renascer
Páscoa a guerra tens que acabar
Não há mais espaço para morrer
Mas dispara corações para amar
E das poeiras faz terras para viver
Páscoa vens com a enorme paixão
Não esqueço quando da igreja saía
Aqueles andores para sua procissão
E depois um mar de gente que sorria
João Paiva
Abril 2026
POESIA
CORES DA VIDA
Quero um pincel de vida às cores
Para um sonho poder pintar
É aquela lua cheia de amores
Que prometeu por mim chamar
As cores são tão bonitas
Pelos caminhos das nossas vidas
Amachuquemos as secas e esquisitas
E guardamos as mais garridas
Acordar e espreitar a varanda florida
É logo meio caminho para acordar
E esquecer um pouco da vida sofrida
E lembrar o que há para amar
Neste caminho vou escutando
Porque outro não conheço
Não quero a vida só pensando
Daquilo que ainda padeço
A vida é vestida de amarelo e rosa
Não é preciso muitas cores
Mas que sejam vivas e amorosas
Para endoidecer os seus amores
João Paiva
Abril de 2026
POESIA
HOJE
Hoje o dia foi real
Foi sim meu irmão
Tu és grande e leal
Assim é, o meu coração
Hoje e sempre, como ontem
Continuo a querer muito amar
Não posso estar sem ninguém
E alguém muito menos magoar
Hoje quase fui borda fora
Quase não me apanhavam
Não chegou a minha hora
E nem sequer discordavam
Hoje a hora não presta
Não é por eu não querer
É apenas mais um alerta
Para quem quiser saber
Hoje a vida é muito bela
Para quem vive com amor
É como num barco á vela
A navegar no seu esplendor
João Paiva
Abril de 2026



