COMBOIO
O comboio partiu ainda com a madrugada colada às janelas. Havia um silêncio espesso
no cais, como se todos os destinos estivessem a prender a respiração. Sentei-me junto
à janela, levando comigo apenas uma mala pequena e um cansaço antigo que não
passava pela alfândega.
À medida que o comboio avançava, os países iam-se dissolvendo como pensamentos
mal acabados. Campos verdes, rios imóveis, estações com nomes difíceis de
pronunciar — tudo passava com a mesma delicadeza com que se folheia um livro já
lido. No reflexo do vidro, via o meu rosto misturado com a paisagem: eu também estava
em trânsito, entre o que tinha sido e aquilo que ainda não sabia nomear.
Havia pessoas que dormiam, outras liam, algumas olhavam o nada com devoção. Um
homem de cabelos brancos desenhava mapas imaginários num caderno. Uma rapariga
falava baixo ao telefone, como se confessasse um segredo ao próprio comboio.
Ninguém perguntava a ninguém de onde vinha. Talvez porque todos ali estivessem a
fugir de algo — ou a aproximar-se.
Quando atravessámos a fronteira invisível da Holanda, a luz mudou. Tornou-se mais
clara, quase líquida. Os campos pareciam pintados com paciência e os canais surgiam
como frases bem pontuadas. Senti que Amsterdão não seria apenas um lugar, mas um
estado de espírito: um espaço onde o tempo anda de bicicleta e a solidão aprende a
conviver com a beleza.
Ao chegar, o comboio parou com um suspiro metálico. Desci devagar, como quem não
quer acordar de um sonho. A cidade esperava-me sem pressa, com as suas pontes
curvas e janelas abertas para dentro da vida dos outros. Percebi então que a verdadeira
viagem não tinha sido até Amsterdão, mas até esse lugar raro onde finalmente me
sentia em movimento outra vez.
E, pela primeira vez em muito tempo, isso bastava.
Conceição Parreira
Fevereiro 2026