BACALHAU
Zé Manel, tenho algumas dúvidas se ainda te lembras dos bacalhaus a secar no sótão, mas eu lembro-me perfeitamente quando num qualquer dia que estava na armação com o pai e venho numa enviada para a Praça da Ribeira, com o peixe acabado de ser pescado, quando vi a pai a aproximar-se de um bacalhoeiro que vinha a entrar no Tejo, possivelmente já com os motores parados, ou até já estivesse ancorado, quando me apercebo que um balde peixe ainda a saltar, era puxado por tripulantes do bacalhoeiro para bordo do mesmo.
De imediato daquele navio eram atirados para cima da nossa canoa a "Boa Viagem", pintadinha de azul e branco, bacalhaus já escalados,mas apenas salgados, dali é que íam para as secas em Alcochete e para as do Seixal.
Dia de festa para as duas embarcações, numa a oportunidade de saborearem uma caldeirada, cujo peixe tinha acabado de sair do mar e do outro lado isto é do nosso lado, comer bacalhau vindo expressamente da Terra Nova. Eu não me lembro do gosto do bacalhau, peixe que tanto tu como eu não gostávamos, mas gosto de recordar este acontecimento, porque foi vivido por mim há mais de sessenta anos.
Fiquei deslumbrado com o tamanho do navio, que tive a oportunidade de encostar
uma das minhas mãos, aquele enorme monstro, todo pintado de branco e que ali estava na minha presença.
Pelo nosso lado o vinho deve ter esgotado, por ter acompanhado tão precioso pitéu, porém no grande navio, aquela caldeirada apenas chegou para o comandante e seus oficiais e possivelmente o vinho não se esgotou.
Mas a história não acaba aqui e agora que fazer aos bacalhaus que chegaram a nossa casa, levaram mais uma camada de sal e foram pendurados no nosso sótão e enquanto aqueles bacalhau não foram comidos houve sempre guerra, porque tu nem eu gostávamos de bacalhau.
João Paiva
Abril de 2026




