ANCONA-ITÁLIA
"La ginestra, o il fiore del deserto"
Lírica de Giacomo Leopardi 1836
Prolongar a juventude é desejo de todos, desfrutar de uma velhice sadia é sabedoria de poucos.
SAMARRA
Tinha para aí uns 17/18 anos, quando fui junto da minha mãe e pedi-lhe:
- Mãe empreste-me a samarra do pai, está muito frio e tenho que sair com uns amigos.
- Estás a mentir, tu vais mas é , para a reunião clandestina, que se dá nos antigos armazéns, junto ao forno cal.
- Nada disso, mãe.
- Olha bem para o teu emprego, se fores apanhado como o primo Joaquim, tu perdes o emprego e depois como é?
- Nada disso, mãe, repito.
- Jura que não me mentes.
- Nada disso, mãe
Pois foi tudo isso, a reunião era relacionada com os problemas laborais das mulheres que trabalhavam nas fábricas onde se matava e preparavam as carnes dos porcos, que eram sacrificadas dentro das próprias fábricas, onde se fabricavam os chouriços e se enlatavam todos os produtos para alimentação.
Quando cheguei à reunião já ia a meio e o frio era muito, e pouco tinha ouvido dos mestres que vinham de Lisboa em defesa dos operários corticeiros e das operárias das fábricas dos porcos. Nesta altura entram de rompante, três ou quatro G.N.R, a cavalo que pretendiam prender os chefes do proletariado e mais alguns operários que por ali se encontravam e mais gente que estavam naquele local pela primeira vez.
Tinha muito respeito pelos conselhos da minha mãe, do meu pai tinha, poucos ou nenhuns porque com a vida que tinha na pesca, não estava voltado para esses problemas e também nada sabia e entendia esta nova linguagem, que eu fui aprendendo. Como empregado no Banco, sabia perfeitamente que se fosse apanhado pela guarda, ficava com o emprego em risco.
Pois, cheguei a casa sem a samarra, porque ao fugir da guarda, não me restou outra alternativa que não fosse a fuga a nado para o outro lado do rio, por isso lá se foi a samarra, pelo rio abaixo e nunca mais a vi, molhado e a tremer de frio cheguei a casa e quem conhece bem a região, sabe quantos quilómetros tive que percorrer, descalço alem de outras faltas, para não ser preso.
A minha mãe mais ralada, ficou do que eu, então prometi-lhe a não lá voltar .
João Paiva
Março de 2026
CANOA
Canoa que fazes aqui
Estou a ver passar
O rio que sempre vi
E que me deixe navegar
Ai parada para nada serves
Vem comigo as redes lançar
E como bem sabes
Preciso de ti para pescar
Pelo rio abaixo vou partir
E preparar contigo a forma de pescar
Porque gosto de te ver sorrir
Porque muito peixe vamos apanhar
Debaixo da tua coberta
Onde se sofre de suores
É bom deixares uma aberta
Para suavizar os teus amores
Agora é só as redes lançar
E agarrar o que vier
Sem lamúrias e não fraquejar
E seja o que Deus quiser
João Paiva
Março de 2026
PESCADORES
Descalços era assim
Que embarcavam
Com bom mar ou ruím
E sorridentes pescavam
Com bom mar
Era um paraíso
Para melhor pescar
Só precisavam de juízo
As redes tinham que descer
E para o fundo do mar
Agora é só pensar no querer
Do peixe que há para apanhar
O arrais homem crente
Dá largas ao seu saber
Que tem pela frente
Gente que não pode sofrer
Aos muros estão a chegar
As mulheres já repararam
As canoas estão a entregar
Aqueles que muito amaram
NAVEGANDO
Como é bom navegar
Sem terra para ver
Dá-nos a possibilidade de sonhar
E todo o tempo para viver
Agora vejo um pássaro
Vem docemente na amurada pousar
Com muita alegria reparo
Naquilo que estou a avistar
Olhando para a água
Vejo outro pássaro a voar
E digo com alguma mágoa
Ainda não vi um pássaro a nadar
Nada mais tenho que fazer
Se não ver pássaros a cirandar
Mas vou ficar contente de ver
Muitos peixes a voar
Em todos os sentidos os vejo a nadar
E a ficar muito contente
Por aquele fenómeno encontrar
E vê-los voar persistentemente
João Paiva
Março 2026