domingo, 3 de maio de 2026

PLANTAS

 






POESIA

                A VOZ DO POETA

            Eu não sonho pequeno,

            que isso é coisa de quem tem medo.

            Eu sonho largo, aberto, inteiro,

            como um grito que rasga o peito

            e se recusa a morrer em segredo.

            Sou poeta,

            e isso basta para me faltar tudo

            e ainda assim sobrar-me o mundo.

            Trago nos bolsos

            o vento das palavras por dizer,

            trago nos olhos

            as cidades que ainda não existem,

            e no sangue

            uma febre antiga

            que me empurra para viver. Para sonhar

            Ah, que o sonho do poeta

            não é dormir,

            é incendiar a realidade

            até ela acordar!

            É pegar no dia cinzento

            e virá-lo do avesso,

            é chamar pelo sol

            quando o céu insiste em negar,

            é dizer “há mais”

            quando tudo grita “não há”.

            E eu digo:

            há!

            Há dentro de cada rua cansada

            um poema à espera de nascer,

            Há em cada esquina, um verso,

            uma criança a brincar,

            ao entardecer,

            há dentro de cada gesto calado

            uma revolução por acontecer.

            O poeta não pede licença,

            entra.

            Não bate à porta,

            arromba.

            Porque o seu sonho

            não cabe em molduras, ou taças,

            não se dobra em silêncio,

            não se vende em parcelas de rotina.

            O sonho do poeta é perigoso,

            tem dentes,

            tem punhos,

            tem asas.

            E quando levanta voo,

            meu amigo,

            não há chão que o prenda.

            Por isso escrevo,

            não para ser eterno,

            mas para não ser ausente.

            Escrevo

            porque o mundo, às vezes,

            esquece-se de respirar.

            E alguém tem de lembrar-lhe,

            Respira. Acorda...

Bernardino Traquete            

Maio de 2026            

PINTURA

 TELAS E IMAGENS






POESIA

                DIA DA MÃE

            Hoje é dia da mãe, feliz

            Para mim todos os são

            E sempre como te sinto

            Mãe perto, meu coração


            Para ti que és mãe, muito especial

            Dos teus filhos que muito lhes quer

            Não podes passar ao lado teu ideal

            Mãe seras sempre grande mulher


            Os anos, bem foram passando

            Os netos também apareceram

            Com realidade foste sonhando

            Mãe os netos, enfim cresceram


            Homem ou mulher vão crescer

            Deles, outros seres vão nascer

            Quero que um dia ao amanhecer

            Mãe só a ti, que tenho a enaltecer


            Na guerra, ou na tragédia

            Na tempestade e naufágio

            Na mais funesta miséria

            Mãe grito de privilégio


            No almoço, ou no jantar

            No passeio, ou no lazer

            Na igreja junto ao altar

            Mãe que mais sei dizer


            Na companhia, na educação

            Nas muitas longas conversas

            Que mantivemos ao serão

            Mãe é utilizada sem reservas


            Se aprende, mãe a dizer

            Se aprende muito a gostar

            De tudo nos da com prazer

            Mãe tudo tens para nos dar


            Mas hoje vai ser diferente

            Vejo os teus olhos a brilhar

            E o pulsar do coração quente

            Mãe uma prenda te vou dar


            Guarda bem guardadinha

            Porque sei que vais gostar

            Esconde bem escondidinha

            Mãe não a podes estragar


            Mãe palavra tão pequena

            Da maior e pura verdade

            Pois é a mais verdadeira

            Mãe em toda humanidade


            Depois de toda uma vida

            A tua partida vai acontecer

            Ao deixares a vida querida

            Mãe como é? Como vai ser

João Paiva            

Maio de 2026            

FLORES DO MEU JARDIM


 

ESCRITA NARRATIVA

A Fábula do Baralho Desalinhado

Numa velha gaveta de madeira vivia um baralho de cartas. Já fora inteiro, elegante, bem contado. Mas o tempo, as mãos nervosas e os jogos mal perdidos tinham-no deixado... confuso. O Rei de Copas achava que mandava em todos. — Sou rei, logo decido — dizia, batendo na mesa invisível. A Dama de Espadas, afiada como o próprio naipe, respondia:— Mandar não é o mesmo que pensar. O Valete de Paus ria-se, saltitante: — Que interessa quem manda, se ninguém se diverte? Num canto, o Ás de Ouros permanecia em silêncio. Sabia que valia muito, mas também sabia esperar. As cartas numéricas sentiam-se esquecidas. — Sem nós, não há jogo — murmurava o Sete de Copas, meio sonhador. Um dia, a gaveta abriu-se. Uma mão humana tentou jogar, mas desistiu depressa: faltavam cartas, sobravam egos, não havia ordem. Foi então que o baralho percebeu: separados, eram apenas pedaços de papel. Juntos, com regras e respeito, podiam criar histórias, apostas, encontros. O Rei baixou a coroa. A Dama afrouxou o corte. O Valete aprendeu a ouvir.E até o Ás se misturou. Quando voltaram a ser baralho, voltaram a ser jogo.

Moral da fábula:

Não é o valor de cada carta que faz o jogo, mas a forma como todas aceitam jogar juntas.

Conceição Parreira 

Maio 2028

ESCRITA NARRATIVA


O comboio partiu ainda com a madrugada colada às janelas. Havia um silêncio espesso no cais, como se todos os destinos estivessem a prender a respiração. Sentei-me junto à janela, levando comigo apenas uma mala pequena e um cansaço antigo que não passava pela alfândega. À medida que o comboio avançava, os países iam-se dissolvendo como pensamentos mal acabados. Campos verdes, rios imóveis, estações com nomes difíceis de pronunciar — tudo passava com a mesma delicadeza com que se folheia um livro já lido. No reflexo do vidro, via o meu rosto misturado com a paisagem: eu também estava em trânsito, entre o que tinha sido e aquilo que ainda não sabia nomear. Havia pessoas que dormiam, outras liam, algumas olhavam o nada com devoção. Um homem de cabelos brancos desenhava mapas imaginários num caderno. Uma rapariga falava baixo ao telefone, como se confessasse um segredo ao próprio comboio. Ninguém perguntava a ninguém de onde vinha. Talvez porque todos ali estivessem a fugir de algo — ou a aproximar-se. Quando atravessámos a fronteira invisível da Holanda, a luz mudou. Tornou-se mais clara, quase líquida. Os campos pareciam pintados com paciência e os canais surgiam como frases bem pontuadas. Senti que Amsterdão não seria apenas um lugar, mas um estado de espírito: um espaço onde o tempo anda de bicicleta e a solidão aprende a conviver com a beleza. Ao chegar, o comboio parou com um suspiro metálico. Desci devagar, como quem não quer acordar de um sonho. A cidade esperava-me sem pressa, com as suas pontes curvas e janelas abertas para dentro da vida dos outros. Percebi então que a verdadeira viagem não tinha sido até Amsterdão, mas até esse lugar raro onde finalmente me sentia em movimento outra vez. E, pela primeira vez em muito tempo, isso bastava.


Conceição Parreira

Maio 2026

PRAZERES DE VERÃO

 


RECANTOS DO MONTIJO

 



sábado, 2 de maio de 2026

A PREPARAR A FESTA

 MERCADO DO CAIS - MONTIJO


FLORES NO CAIS

 




POESIA

                DIA DA MÃE

            Hoje é dia da mãe, feliz

            Para mim todos os são

            E sempre como te sinto

            Mãe perto,meu coração


            Para ti que és mãe, muito especial

            Dos teus filhos que muito lhes quer

            Não podes passar ao lado teu ideal

            Mãe seras sempre grande mulher


            Os anos,bem foram passando

            Os netos também apareceram

            Com realidade foste sonhando

            Mãe os netos, enfim cresceram


            Homem ou mulher vão crescer

            Deles, outros seres vão nascer

            Quero que um dia ao amanhecer

            Mãe só a ti, que tenho a enaltecer


            Na guerra, ou na tragédia

            Na tempestade e naufágio

            Na mais funesta miséria


            Mãe grito de privilégio

            No almoço, ou no jantar

            No passeio, ou no lazer

            Na igreja junto ao altar

            Mãe que mais sei dizer


            Na companhia, na educação

            Nas muitas longas conversas

            Que mantivemos ao serão

            Mãe é utilizada sem reservas


            Se aprende, mãe a dizer

            Se aprende muito a gostar

            De tudo nos da com prazer

            Mãe tudo tens para nos dar


            Mas hoje vai ser diferente

            Vejo os teus olhos a brilhar

            E o pulsar do coração quente

            Mãe uma prenda te vou dar


            Guarda bem guardadinha

            Porque sei que vais gostar

            Esconde bem escondidinha

            Mãe não a podes estragar


            Mãe palavra tão pequena

            Da maior e pura verdade

            Pois é a mais verdadeira

            Mãe em toda humanidade


            Depois de toda uma vida

            A tua partida vai acontecer

            Ao deixares a vida querida

            Mãe como é? como vai ser

João Paiva            

Maio de 2026            

DIA DA MÃE

 FELIZ DIA DA MÃE PARA TODAS AS MÃES DO NOSSO BLOG



BÁVARO - RÉPUBLICA DOMINOCANA

SAÚDE


 

FLORES

CINERÁRIAS


 

sexta-feira, 1 de maio de 2026

DE COSTAS


 

TUDO BOM


 

BÁVARO - REPÚBLICA DOMINICANA

DESLUMBRANTE


 

FLORES


ORQUÍDEA

 

KIOTO - JAPÃO

PAGODE DE 3 ANDARES  
DO TEMPLO BUDIST KIYOMIZU-DERA


 

POESIA

            ATÉ AQUI CHEGUEI

            O que é que para cá vim fazer

            Nada de novo, estou a sonhar

            Mesmo assim quero agradecer

            Por liberdade poder encontrar


            Já esqueci e tudo o que encontrei

            Mas não posso e triste quero ficar

            Porque se com alguma coisa sonhei

            Essa sim, será sempre para lembrar


            Mas nasci sim desinteresseiro

            E a fortuna não a quiz procurar

            A culpa foi do meu travesseiro

            Porque não me soube orientar


            Naquela rica e boa ocasião

            Eramos muito trabalhadores

            E muita coisa se fazia à mão

            Porque eramos sonhadores


            Por outras palavras, já pesadas

            Porque não pretendo continuar

            As costas já estão bem curvadas

            Que hei-de fazer, se não pensar

João Paiva            

Maio de 2026            

PÔR DO SOL NO ROSÁRIO - MOITA



 

DIA DO TRABALHADOR

 

Como é hábito, no início de cada mês, o Blog oferece música.


Como hoje é o dia do trabalhador, o Blog presta homenagem a todos os trabalhadores através da voz de Manuel de Almeida, com este “Fado do Trabalho”


Espero que gostem.


Clicar abaixo para abrir o vídeo e escutar a música

quinta-feira, 30 de abril de 2026

ESCRITA NARRATIVA

MUITO ANTES DO VINTE E CINCO DE ABRIL

Fiz dezoito anos e nesse ano havia eleições e eu queria votar, já era homem e tinha conseguido prosseguir a carreira bancária, agora que tinha conseguido as habilitações necessárias para a promoção e para complemento só me faltava votar, como homem livre e trabalhador.

Não tive juventude, trabalho e estudos eram os meus horizontes.

Estudar no Externato da Dra.Ana Maria, não era possível para a bolsa dos meus pais, tanto mais que o estudo era pós-laboral e e não havia dinheiro. Distribui garrafas de Gaz que muito ajudou as finanças lá de casa, ainda bem que no Montijo, nessa época havia muito poucos primeiros andares predominava os rés do chão, o que para mim era uma sorte, pois que meu pai pescador de tapas esteiro e minha mãe nas limpesas.

Clandestinamente participei em reuniões que se realizavam nos velhos armazéns da cortiça, junto ao forno da cal. Sujeitos ás investidas do cabo Joaquim da Guarda Nacional Republicana e que para os colegas que não sabiam nadar, era mau porque ficavam sujeitos ás patifarias, mas os outros em que me incluía, nadávamos para outro lado do rio.

Para mim foi terrível porque despi a samarra do meu pai e a atirei ao rio para que melhor pudesse nadar, mas a samarra nunca mais a vi.

Ano de eleições, mãe quero votar, sim filho levas uma camisa branca, umas calças vincadas, sapatos engraxados e ficas a preceito para poderes votar.

Bicha para se votar, ali por cima dos armazéns do Nelson, na Calçada. Lá ía chegando á mesa de voto, presidida por um homem de bem, de boa família que nos deu de comer muitas vezes e eu sorridente cheguei á mesa.

- O que fazes aqui? Perguntou o presidente da mesa.

- Venho votar, respondi com tranquilidade.

- Tu vais é daqui para fora,o mais rapidamente possível. Nunca soube as razões, mas pela vida fora soube analisar perfeitamente tal situação.

Eu fui, não era eu, não sei quem era, mas a minha avó e a minha mãe secaram-me as lágrimas.

Fiquei muitos anos esperando por outro dia contrário a este, mas ele não aparecia. E eu a ver os meus colegas ficando para traz, palmilhando os caminhos que eu percorri lamentavelmente.

No banco onde trabalhava já há alguns anos, porque para lá fui com treze, não se podia falar em política e imaginar agora como era essa vida, que apenas tinha como horizonte, a espera do meu pai vinda do mar e que eu o ajudaria no amanho das redes e na limpeza da canoa.

Outra grande anomalia me ia apanhar durante alguns anos, a minha carreira militar ía dar cabo de todos os meus projetos e o Curso de Contabilidade e Pagadoria ía ficar para traz, onde em troca me era oferecido (obrigado) o Curso de Milicianos em Mafra, que nos preparava para uma terrível guerra, que bastante me marcou.

Três da manhã toca o telefone, já não me lembro quem foi o felizardo que me telefonou a dar a notícia, por tanta gente desejada. Dei dois ou três gritos de alegria e repentinamente guardei uma medalha militar, não fosse alguém tirar-me tanta alegria.

Primeira alegria no 25 de Abril, já posso votar, tardiamente mas possível, mas ninguém me tira as mágoas passadas, só sei que levei quase toda a família a votar.

Freneticamente passei a participar pelo bem estar dos operários corticeiros, pelas mulheres dos porcos e pelos pobres pescadores.

Ainda no Banco passei pelo período onde não se podia falar de política e quem não obedecia ía para a rua, mas agora podemos gritar bem alto pelos nossos direitos, pois sim meu irmão. Resta um tempo para contar algumas histórias, bem credenciadas, como aquela em que levei a minha avó Sofia, com os seus cem anos a votar, coisa inédita para ela.

João Paiva

Abril de 2026

PORTAS DO SOL - SANTARÉM

 


ESCRITA NARRATIVA

BACALHAU 

Zé Manel, tenho algumas dúvidas se ainda te lembras dos bacalhaus a secar no sótão, mas eu lembro-me perfeitamente quando num qualquer dia que estava na armação com o pai e venho numa enviada para a Praça da Ribeira, com o peixe acabado de ser pescado, quando vi a pai a aproximar-se de um bacalhoeiro que vinha a entrar no Tejo, possivelmente já com os motores parados, ou até já estivesse ancorado, quando me apercebo que um balde peixe ainda a saltar, era puxado por tripulantes do bacalhoeiro para bordo do mesmo.

De imediato daquele navio eram atirados para cima da nossa canoa a "Boa Viagem", pintadinha de azul e branco, bacalhaus já escalados,mas apenas salgados, dali é que íam para as secas em Alcochete e para as do Seixal.

Dia de festa para as duas embarcações, numa a oportunidade de saborearem uma caldeirada, cujo peixe tinha acabado de sair do mar e do outro lado isto é do nosso lado, comer bacalhau vindo expressamente da Terra Nova. Eu não me lembro do gosto do bacalhau, peixe que tanto tu como eu não gostávamos, mas gosto de recordar este acontecimento, porque foi vivido por mim há mais de sessenta anos.

Fiquei deslumbrado com o tamanho do navio, que tive a oportunidade de encostar

uma das minhas mãos, aquele enorme monstro, todo pintado de branco e que ali estava na minha presença.

Pelo nosso lado o vinho deve ter esgotado, por ter acompanhado tão precioso pitéu, porém no grande navio, aquela caldeirada apenas chegou para o comandante e seus oficiais e possivelmente o vinho não se esgotou.

Mas a história não acaba aqui e agora que fazer aos bacalhaus que chegaram a nossa casa, levaram mais uma camada de sal e foram pendurados no nosso sótão e enquanto aqueles bacalhau não foram comidos houve sempre guerra, porque tu nem eu gostávamos de bacalhau.

João Paiva

   Abril de 2026 

POESIA

                    PÃO

            O pão que o forno

            Nos dá pela mão do padeiro

            É cozido em forno morno

            Com a caruma do pinheiro


            Não há consumidor que resiste

            Ao cheiro do pão cozido

            Só quem estiver longe não assiste

            Ao belo cheiro que é produzido


            O pão de trigo ou de centeio

            É amassado com muito suor

            Pela mão do bom forneiro

            Ao qual dedica o seu amor


            O pão muito dá de comer

            A tanta gente necessitada

            Todos o comem sem saber

            Foi feito com boa vontade


            Da mesa do pobre ou do rico

            O precioso alimento que é pão

            Que todos devoram com afinco

            O cobiçado alimento feito mão

João Paiva            

Abril de 2026            

quarta-feira, 29 de abril de 2026

PATOS

 


PORTAS

 CÂMARA MUNICIPAL DE LISBOA





PUXADORES DE PORTA - MONSARAZ

 



PORTAS


O Silêncio das Portas

Um conto à maneira de José Saramago

Ninguém soube ao certo quando foi que as portas começaram a fechar-se sozinhas, nem a quem caberia a culpa, se é que se pode atribuir tal responsabilidade a quem vive do lado de dentro ou do lado de fora, porque as portas, e isto aprendi cedo, são sempre fronteiras entre destinos. O senhor Manuel, homem de poucas falas e muitas dúvidas, começou a notar as primeiras diferenças numa manhã cinzenta, talvez terça, mas podia bem ser quinta, já que os dias, naquela vila, eram todos irmãos, filhos do mesmo tédio e netos da mesma esperança esquecida. A porta da cozinha, outrora risonha com suas dobradiças rangentes, teimou em não abrir ao toque habitual do ombro cansado do senhor Manuel, gesto aprendido de gerações, como quem cumprimenta um velho amigo, e ali ficou, imóvel, como se tivesse decidido, por conta própria, não mais permitir a passagem da rotina, talvez querendo guardar para si o cheiro do café e a dança do vapor que subia em espirais preguiçosas. Dona Amália, sua mulher, achou graça ao início, mas logo se impacientou, porque quem tem filhos para alimentar não costuma ter tempo para filosofias das portas nem dos batentes. Na praça, as conversas eram feitas de perguntas, e os velhos juntavam-se em círculos apertados, sussurrando teorias com a mesma convicção de quem comenta o tempo: terá sido o vento, ou será feitiço, algum recado de Deus ou capricho de diabo, quem pode saber, minha senhora, quem pode saber. O padre Arnaldo, homem de voz grave e paciência curta, tentou benzer a entrada da igreja, mas a porta, indiferente à água benta e palavras latinas, recusou-se a ceder. As crianças, que não conhecem o peso das preocupações adultas, viam nos novos acontecimentos oportunidades de jogo, inventando códigos secretos para atravessar paredes invisíveis, enquanto os mais velhos se perguntavam se as portas dos corações também se fechariam, e se sim, quem teria a chave para abrir o que foi selado pelo medo ou pela dúvida. Naquela noite, sentados à mesa por força da persistência e do improviso, senhor Manuel e dona Amália comeram em silêncio, ouvindo o rumor das ruas, as portas que se batiam ao longe, como se tentassem dizer algo há muito esquecido. Ninguém se atreveu a perguntar se amanhã as portas estariam abertas, porque ali, naquela vila, a esperança é coisa delicada, precisa ser cuidada como se cuida uma planta teimosa, dessas que só florescem quando ninguém vê. E naquela madrugada, entre o último suspiro do vento e o primeiro canto do galo, alguém, talvez a própria noite, sussurrou que as portas se fecham para recordar que, às vezes, é preciso aprender a bater, esperar, e escutar, mesmo que o silêncio doa mais do que a ausência de resposta.


Conceição Parreira

Abril 2026