SOUSENIORALDEANO
Prolongar a juventude é desejo de todos, desfrutar de uma velhice sadia é sabedoria de poucos.
quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026
quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026
CIRCUNSTÂNCIA
Uma cela
Cinco homens
Em seis dias apreçados
Cinco gestos algemados
Por recusarem a trela
Uma ponta de aço espesso
Corta p'ra Luz a saída
Mas cá dentro pulsa a Vida
Porque a Esperança não está morta
Uma janela
com grades
Filtra ao sol a alegria
Rouba a beleza do dia
Mas a Razão mora nela
Uma mesa
Ao chão pregada
Cinco beliches torcidos
Lembrando esquifes fendidos
Não nos tiram a Certeza
Uma sonora
pancada
Atravessando a parede
Vem aliviar a sede
do convívio lá de fora
Um tribunal
Arbitrário
Sem lugar para a defesa
Transforma o Homem em presa
Do poderio animal
Octávio Dias
Fevereiro 2026
ESCRITA NARRATIVA
COMBOIO
O comboio partiu ainda com a madrugada colada às janelas. Havia um silêncio espesso no cais, como se todos os destinos estivessem a prender a respiração. Sentei-me junto à janela, levando comigo apenas uma mala pequena e um cansaço antigo que não passava pela alfândega. À medida que o comboio avançava, os países iam-se dissolvendo como pensamentos mal acabados. Campos verdes, rios imóveis, estações com nomes difíceis de pronunciar — tudo passava com a mesma delicadeza com que se folheia um livro já lido. No reflexo do vidro, via o meu rosto misturado com a paisagem: eu também estava em trânsito, entre o que tinha sido e aquilo que ainda não sabia nomear. Havia pessoas que dormiam, outras liam, algumas olhavam o nada com devoção. Um homem de cabelos brancos desenhava mapas imaginários num caderno. Uma rapariga falava baixo ao telefone, como se confessasse um segredo ao próprio comboio. Ninguém perguntava a ninguém de onde vinha. Talvez porque todos ali estivessem a ugir de algo — ou a aproximar-se. Quando atravessámos a fronteira invisível da Holanda, a luz mudou. Tornou-se mais clara, quase líquida. Os campos pareciam pintados com paciência e os canais surgiam como frases bem pontuadas. Senti que Amesterdão não seria apenas um lugar, mas um estado de espírito: um espaço onde o tempo anda de bicicleta e a solidão aprende a conviver com a beleza. Ao chegar, o comboio parou com um suspiro metálico. Desci devagar, como quem não quer acordar de um sonho. A cidade esperava-me sem pressa, com as suas pontes curvas e janelas abertas para dentro da vida dos outros. Percebi então que a verdadeira viagem não tinha sido até Amesterdão, mas até esse lugar raro onde finalmente me sentia em movimento outra vez. E, pela primeira vez em muito tempo, isso bastava.
Conceição Parreira
Fevereiro 2026
POESIA
PARA TI (Que não te conheço)
Como é belo o teu cabelo
Mesmo pertinho do teu olhar
Não há na terra paralelo
Na hora de contigo sonhar
Logo que vejo os teus olhos
Tenho que os meus fechar
A idade já não perdoa
Mas o cupido tenta entrar
Para a alma despertar
Ati tenho algo a dizer
Por muito de ti gostar
Não quero verte sofrer
Outubro é um mês quente
Cheio de amor e emoção
A um desconhecido carente
Se abre sempre um coração
Meus olhos estão a ver
E o teu olhar já sorria
Não o posso esquecer
Teu rosto já me alumia
Estou aqui para te ver
Estou aqui para te olhar
Aqui para não te esquecer
Aqui para contigo sonhar
Dia para mim importante
E que não posso esquecer
Deito fora o que não presta
Fica o resto para te oferecer
João Paiva-Fevereiro 2026
ESCRITA NARRATIVA
“A Folha de Papel em Branco”
Há quem tema a escuridão, quem se assuste com alturas e quem desconfie de palhaços. Mas poucos assumem o pavor mais silencioso e mais democrático de todos: a folha de papel em branco. Sim, ela mesma — aquela superfície aparentemente inocente que, segundo fontes altamente confiáveis (o meu próprio bloco de notas), já provocou mais suores frios do que provas de matemática. Às 9h02 da manhã, hora oficial da coragem criativa, uma folha A4 impecavelmente branca foi avistada em cima de uma mesa, exibindo a sua habitual expressão vazia. Interpelada pela reportagem, manteve-se em silêncio, postura que especialistas interpretam como pressão psicológica sobre o escritor. O escritor — que, por questões de privacidade, identificaremos apenas como “Eu Mesmo” —aproximou-se munido de uma caneta preta, na esperança de iniciar o ritual sagrado da escrita. “Hoje vai”, afirmou, com uma convicção que durou exatamente três segundos, tempo suficiente para lembrar que não fazia ideia do que escrever. A folha, impassível, observava. Testemunhas relatam que o primeiro ataque de pânico criativo aconteceu quando “Eu Mesmo” pousou a caneta e a retirou logo depois, sem deixar sequer um rabisco. O incidente foi registado como “tentativa frustrada de começar pela introdução”. Peritos em criatividade alertam que a folha em branco é astuta. Finge disponibilidade, mas apresenta uma ameaça psicológica complexa. “Ela força-nos a olhar de frente para o nada”, explica a professora de Literatura, Dra. Metáfora de Sousa, “e depois pergunta: e então, o que tens para mim?”. A situação só começou a melhorar quando o escritor abandonou a estratégia da inspiração súbita e optou pela abordagem “vamos escrever qualquer coisa antes que o café arrefeça”. O primeiro parágrafo surgiu às 9h47, seguido de um suspiro de alívio e de uma sensação de vitória proporcional a ter conseguido estacionar à primeira. No final, a folha já não estava branca. Estava povoada de palavras, frases e duas rasuras — marcas de batalha, símbolos de resistência e testemunho de que, às vezes, escrever é metade luta, metade comédia involuntária. A folha em branco não deu declarações finais, mas ficou comprovado: por mais intimidante que pareça, ela perde sempre para o escritor que ousa começar... mesmo que seja a escrever uma crónica sobre ela própria. E assim se fecha mais um caso no departamento de Crimes Criativos e Outros Desabafos Jornalísticos.
Conceição Parreira
Fevereiro 2026
P'ra Ti
Estava meu amor quedado e surdo
Condenado por certo à vanidade
Da vida sem razão, descrendo em tudo
Mas de tudo conservando a castidade
Tal era a servil passividade
Com que via os desaires do meu luto
Que não sabia o era ter saudade
E no futuro não via qualquer fruto
Mas eis que num repente tu surgiste
Trazendo a meu viver nova surtida
Que me transformou em novo alguém
E juro minha querida que se existe
Quem criou do nada, febre e vida
És tu minha adorada e mais ninguém
Octávio Dias
Fevereiro 2026
BENIDORM
terça-feira, 3 de fevereiro de 2026
ÚLTIMA ANÁLISE
Um círio arde cansado
Iluminando o casebre
E o morto vive na febre
De ter morrido enganado
Afasta a Morte um momento
Escarra no chão uma dor
E nos olhos um fulgor
Receando-se o tormento
Relembra os danos passados
Tenta lembrar alegrias
Mas só lhe surgem os dias
De martírios renovados
Em vão tenta recordar
Algo que tenha valido
Todo esse mal sofrido
No constante labutar
Vê trabalhos, vê canseiras
Vê o corpo repartido
Vê o seu amor traído
Das mais diversas maneiras
Vê os malogras que a Vida
Com bastas mãos espalhou
No caminho que o levou
A essa margem esquecida
Com um olhar moribundo
Abarca tudo o que o cerca
Não achando qualquer perca
por ter de deixar o mundo
E num gesto derradeiro
De mil perguntas eivado
Puxa a Morte p'ra seu lado
E recai no travesseiro
Octávio Dias
Fevereiro 2026
NATAL
Natal – há esmolas a rodos
P’ra quem a sorte é precária
Por uma vez jantam todos
Porém a fome é diária
Octávio Dias
Fevereiro 2026
O SILÊNCIO É A LINGUAGEM DA ALMA
UNIVERSIDADE SÉNIOR DO MONTIJO
REIKI E OUTRAS TERAPIAS
O Silêncio é a linguagem da alma.
A morte parece um fim, mas também o pôr do sol também parece um fim, mas ele regressa todos os dias. Assim acontece connosco, terminamos esta vida e nascemos numa outra. As nossas almas são como sementes à procura de um terreno fértil para germinarem e alcançarem a vida. É o silêncio que nos traz as respostas que precisamos de ouvir. As respostas são sopradas pelo vento. No silêncio do amor nós encontraremos a centelha divina no nosso coração. A maior sabedoria está no silêncio da nossa própria alma. O silêncio é libertador, ele conduz-nos ao campo da consciência onde só existe pura presença e criação. Os segredos mais íntimos não são para serem revelados e, nós apenas sussurramos os pensamentos dos nossos corações e os transformamos em pássaros para que eles possam voar até você, e encontrem a liberdade que todos procuramos nas questões que colocamos a nós mesmos.
Bernardino Traquete
Fevereiro 2026
POESIA
Afinal viver não é sofrer
É amar incondicionalmente
E de maltratar se abster
O olhar cinzento da criança
O cabelo loiro
E claro de sol
Plena de caracóis densos
Era uma verdade mentirosa
No vão de escada melindrosa
A brusca busca das almas
Conduz-nos ao tormento do inferno
Mas há esperança no silêncio
Um sopro leve, desconcertante,
No rumor das palavras não ditas
E no eco do riso distante.
Por entre as fissuras do medo
Cresce uma flor tímida
A promessa do impossível
Tecida em pétalas de luz.
No abismo onde caímos
Ergue-se a ponte do afeto,
E no rumor do quotidiano
Desenha-se o contorno secreto
Do que nos salva e condena
Entre sombras, sonhos e nevoeiro.
Conceição Parreira
Fevereiro 2026
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