O azul do mar não era apenas uma cor. Era uma respiração antiga, um silêncio líquido onde o céu vinha descansar ao fim da tarde. Havia dias em que parecia leve, quase transparente, como se Deus tivesse lavado o mundo durante a noite e deixado sobre as ondas uma claridade limpa e infinita. Outros dias, porém, o azul escurecia devagar, carregado de segredos, como os olhos de alguém que amou demais e aprendeu a sofrer em silêncio. À beira-mar, o tempo perdia importância. As horas dissolviam-se na espuma e o pensamento tornava-se tão vago quanto as gaivotas que riscavam o horizonte. O vento trazia o cheiro do sal e das distâncias, enquanto as ondas repetiam, numa língua antiga, histórias que ninguém conseguia traduzir completamente. Talvez o mar falasse apenas para quem tivesse dentro de si alguma solidão. O azul entrava pelos olhos e espalhava-se pelo corpo como uma memória esquecida. Fazia lembrar verões antigos, mãos dadas, risos perdidos no ar quente das tardes de infância. Havia qualquer coisa de eterno naquele movimento contínuo da água: um ir e voltar semelhante ao amor, que tantas vezes parte convencido de que não regressa, mas acaba sempre por deixar vestígios na areia do coração. Ao cair da noite, o mar transformava-se numa manta escura bordada de prata pelo luar. E aquele azul, já quase negro, parecia guardar dentro de si todos os sonhos naufragados do mundo, todas as lágrimas escondidas, todas as esperanças que insistem em sobreviver apesar das tempestades. Porque o mar, tal como a vida, nunca deixa de recomeçar.
Conceição Parreira
Maio 2026














































