ACRÍLICO SOBRE TELA
SOUSENIORALDEANO
Prolongar a juventude é desejo de todos, desfrutar de uma velhice sadia é sabedoria de poucos.
sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026
CEMITÉRIO DOS PRAZERES - LISBOA
PROSA
DATILOGRAFIA
AS VELHICES DE UM AVÔ (7)
DATILOGRAFIA, foi a disciplina que fui dar, numa escola que existiu na Praça da
Republica , quando jovem e já la vão sessenta e seis e anos, quando saía do meu
trabalho, como bancário e a título gracioso ía dar aulas para as alunas e alunos
que nos procuravam.
No fim de uma aula fiz-me acompanhar por uma aluna e acabei por levá-la a
casa, que ficava ali para os lados da Rua Direita. Era graciosa, muito bonita e
trajava lindamente um vestido de chita, muito bem folhiado, calçava meias
brancas e soquetes ligeiramente acastanhadas e com atacadores de cor.
O cabelo revolto atirado para traz, de cor preto, ficava-lhe muito bem e era
gabado por todos lá na escola, apesar deste tipo de cabelo ser penteado para os
lados ela apreciava pentea-lo á sua maneira.
A miuda tinha cá um jeito para escrever máquina, e com o som das teclas
construía uma melodia, que me atirava para as nuvens. Um dia pude acariciar as
suas lindas mãos, sedosas e finas. "Como me recordo destes tempos em que
jogava ténis de mesa, ía aos bailes da 1oDezembro, praticava hoquei em patins
na Banda Democrática e velejava e muito nas canoas do rio onde o meu pai
ganhava o seu pão como pescador e sei lá o mais que fazia" Conversávamos
coisas um pouco acima da nossa juventude e íamos ficando amigos.
Depois de algumas lições e no final da aula, fui com ela rua acima até chegarmos
a sua casa, que ficava num primeiro andar, mas cujas escadas eu nunca subi,
ficava sempre no vão, até que a sua mãe a chamava para cima. Nesse dia eu
tinha a obrigação de acender a luz de presença na agência bancária onde
trabalhava e naquela noite, não sei porquê a luz ficou apagada.
A minha mãe já andava desconfiada com o atrazo das horas quando chegava
acasa e não está com meias medidas, põe o chaile pelas costas e vai direitinha á
escola e repara que a luz está apagada o que constituia uma falta grave.
Em braza pergunta por mim na escola e de lá saíu com toda a informação, voltou
a casa pegou numa vassoura de cabo comprido e abalou em minha direção, para
fazer justiça.
Encontrava-me no vão da escada, muito sossegadinho, talvez aquecendo as
mãos da pequena, enquanto faziamos juras de amor e até já tinhamos combinado
o programa para irmos ao baile 5 no próximo sábado a noite na Primeiro de
Dezembro, a sociedade que relizava espetáculos e bailes na vila.
Repentinamente, zás uma vassourada a correr-me do pescoço aos pés, isto é
pelas costas a baixo. Grande salto eu dei acompanhado de um grito da mocinha.
A minha mãe ficou toda satisfeita por me ter apanhado com a vassoura e, assim
vim correndo direitinho a casa.
Depois de tudo o que se passou, no outro dia pelas dez horas, já estava no
Banco para trabalhar, só então reparei que a luz estava apagada.
quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026
quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026
CIRCUNSTÂNCIA
Uma cela
Cinco homens
Em seis dias apreçados
Cinco gestos algemados
Por recusarem a trela
Uma ponta de aço espesso
Corta p'ra Luz a saída
Mas cá dentro pulsa a Vida
Porque a Esperança não está morta
Uma janela
com grades
Filtra ao sol a alegria
Rouba a beleza do dia
Mas a Razão mora nela
Uma mesa
Ao chão pregada
Cinco beliches torcidos
Lembrando esquifes fendidos
Não nos tiram a Certeza
Uma sonora
pancada
Atravessando a parede
Vem aliviar a sede
do convívio lá de fora
Um tribunal
Arbitrário
Sem lugar para a defesa
Transforma o Homem em presa
Do poderio animal
Octávio Dias
Fevereiro 2026
ESCRITA NARRATIVA
COMBOIO
O comboio partiu ainda com a madrugada colada às janelas. Havia um silêncio espesso no cais, como se todos os destinos estivessem a prender a respiração. Sentei-me junto à janela, levando comigo apenas uma mala pequena e um cansaço antigo que não passava pela alfândega. À medida que o comboio avançava, os países iam-se dissolvendo como pensamentos mal acabados. Campos verdes, rios imóveis, estações com nomes difíceis de pronunciar — tudo passava com a mesma delicadeza com que se folheia um livro já lido. No reflexo do vidro, via o meu rosto misturado com a paisagem: eu também estava em trânsito, entre o que tinha sido e aquilo que ainda não sabia nomear. Havia pessoas que dormiam, outras liam, algumas olhavam o nada com devoção. Um homem de cabelos brancos desenhava mapas imaginários num caderno. Uma rapariga falava baixo ao telefone, como se confessasse um segredo ao próprio comboio. Ninguém perguntava a ninguém de onde vinha. Talvez porque todos ali estivessem a ugir de algo — ou a aproximar-se. Quando atravessámos a fronteira invisível da Holanda, a luz mudou. Tornou-se mais clara, quase líquida. Os campos pareciam pintados com paciência e os canais surgiam como frases bem pontuadas. Senti que Amesterdão não seria apenas um lugar, mas um estado de espírito: um espaço onde o tempo anda de bicicleta e a solidão aprende a conviver com a beleza. Ao chegar, o comboio parou com um suspiro metálico. Desci devagar, como quem não quer acordar de um sonho. A cidade esperava-me sem pressa, com as suas pontes curvas e janelas abertas para dentro da vida dos outros. Percebi então que a verdadeira viagem não tinha sido até Amesterdão, mas até esse lugar raro onde finalmente me sentia em movimento outra vez. E, pela primeira vez em muito tempo, isso bastava.
Conceição Parreira
Fevereiro 2026
POESIA
PARA TI (Que não te conheço)
Como é belo o teu cabelo
Mesmo pertinho do teu olhar
Não há na terra paralelo
Na hora de contigo sonhar
Logo que vejo os teus olhos
Tenho que os meus fechar
A idade já não perdoa
Mas o cupido tenta entrar
Para a alma despertar
Ati tenho algo a dizer
Por muito de ti gostar
Não quero verte sofrer
Outubro é um mês quente
Cheio de amor e emoção
A um desconhecido carente
Se abre sempre um coração
Meus olhos estão a ver
E o teu olhar já sorria
Não o posso esquecer
Teu rosto já me alumia
Estou aqui para te ver
Estou aqui para te olhar
Aqui para não te esquecer
Aqui para contigo sonhar
Dia para mim importante
E que não posso esquecer
Deito fora o que não presta
Fica o resto para te oferecer
João Paiva-Fevereiro 2026
ESCRITA NARRATIVA
“A Folha de Papel em Branco”
Há quem tema a escuridão, quem se assuste com alturas e quem desconfie de palhaços. Mas poucos assumem o pavor mais silencioso e mais democrático de todos: a folha de papel em branco. Sim, ela mesma — aquela superfície aparentemente inocente que, segundo fontes altamente confiáveis (o meu próprio bloco de notas), já provocou mais suores frios do que provas de matemática. Às 9h02 da manhã, hora oficial da coragem criativa, uma folha A4 impecavelmente branca foi avistada em cima de uma mesa, exibindo a sua habitual expressão vazia. Interpelada pela reportagem, manteve-se em silêncio, postura que especialistas interpretam como pressão psicológica sobre o escritor. O escritor — que, por questões de privacidade, identificaremos apenas como “Eu Mesmo” —aproximou-se munido de uma caneta preta, na esperança de iniciar o ritual sagrado da escrita. “Hoje vai”, afirmou, com uma convicção que durou exatamente três segundos, tempo suficiente para lembrar que não fazia ideia do que escrever. A folha, impassível, observava. Testemunhas relatam que o primeiro ataque de pânico criativo aconteceu quando “Eu Mesmo” pousou a caneta e a retirou logo depois, sem deixar sequer um rabisco. O incidente foi registado como “tentativa frustrada de começar pela introdução”. Peritos em criatividade alertam que a folha em branco é astuta. Finge disponibilidade, mas apresenta uma ameaça psicológica complexa. “Ela força-nos a olhar de frente para o nada”, explica a professora de Literatura, Dra. Metáfora de Sousa, “e depois pergunta: e então, o que tens para mim?”. A situação só começou a melhorar quando o escritor abandonou a estratégia da inspiração súbita e optou pela abordagem “vamos escrever qualquer coisa antes que o café arrefeça”. O primeiro parágrafo surgiu às 9h47, seguido de um suspiro de alívio e de uma sensação de vitória proporcional a ter conseguido estacionar à primeira. No final, a folha já não estava branca. Estava povoada de palavras, frases e duas rasuras — marcas de batalha, símbolos de resistência e testemunho de que, às vezes, escrever é metade luta, metade comédia involuntária. A folha em branco não deu declarações finais, mas ficou comprovado: por mais intimidante que pareça, ela perde sempre para o escritor que ousa começar... mesmo que seja a escrever uma crónica sobre ela própria. E assim se fecha mais um caso no departamento de Crimes Criativos e Outros Desabafos Jornalísticos.
Conceição Parreira
Fevereiro 2026



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