SOUSENIORALDEANO
Prolongar a juventude é desejo de todos, desfrutar de uma velhice sadia é sabedoria de poucos.
domingo, 24 de maio de 2026
ESCRITA NARRATIVA
Matias e os Outros Rapazes
Eles sentavam-se juntos todos os dias, mas já não eram iguais. O Tomás falava mais alto, como se isso lhe desse vantagem. O Rui ria-se de tudo, mesmo quando não tinha graça. O André provocava, empurrava, fazia comentários soltos. E o Matias... o Matias ficava quieto. — Estás muito calado ultimamente — disse o Tomás, quebrando o silêncio. — Normal — respondeu o Matias. Mentira. Nada era normal. Todos gostavam da mesma rapariga, mas ninguém falava disso diretamente. Era uma regra não dita. Mesmo assim, estava em tudo: nos olhares trocados, nas piadas com segundas intenções, na tensão no ar. O Rui foi o primeiro a dizer em voz alta: — Não vale fingir que não sentimos o mesmo. O André riu-se.— Sentimos? Ou sentes tu? O Matias levantou os olhos pela primeira vez.— Não é uma competição. O silêncio caiu pesado. — Claro que é — disse o Tomás. — Sempre é. Matias abanou a cabeça. — Se for assim, eu saio. Ninguém esperava isso. — Sair? — o Rui franziu o sobrolho. — Por causa dela? — Por causa de nós — respondeu Matias. — Não quero que a gente se perca por algo que nenhum de nós controla. O André deixou de sorrir. O Tomás desviou o olhar. O Rui suspirou. Naquele momento, perceberam que o Matias não era o mais fraco. Era o único que não precisava ganhar. E isso mexeu com todos.
Conceição Parreira
Maio 2026
POESIA
A minha vida é uma banalização da escuridão —
como se a noite tivesse alugado quarto
dentro dos meus ossos.
Já não me assusta o escuro.
Assusta-me a facilidade
com que aprendi a chamá-lo de casa.
Há sombras sentadas à mesa comigo,
bebem do meu silêncio
e conhecem o nome de todas as minhas quedas.
Às vezes sorrio.
Mas é um sorriso cansado,
daqueles que acendem por fora
e morrem antes de chegar aos olhos.
Transformei o abismo em rotina,
a dor em mobília antiga,
e a tristeza já entra sem bater à porta.
No entanto,
há qualquer coisa em mim
que ainda resiste —
uma espécie de fósforo húmido,
quase apagado,
mas teimosamente vivo.
Porque até a escuridão,
quando é observada durante demasiado tempo,
acaba por confessar
que nasceu da ausência de luz.
Conceição Parreira
Maio 2026















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