SOU GENTE DO BLOG
Prolongar a juventude é desejo de todos, desfrutar de uma velhice sadia é sabedoria de poucos.
terça-feira, 26 de maio de 2026
segunda-feira, 25 de maio de 2026
ESCRITA NARRATIVA
O azul do mar não era apenas uma cor. Era uma respiração antiga, um silêncio líquido onde o céu vinha descansar ao fim da tarde. Havia dias em que parecia leve, quase transparente, como se Deus tivesse lavado o mundo durante a noite e deixado sobre as ondas uma claridade limpa e infinita. Outros dias, porém, o azul escurecia devagar, carregado de segredos, como os olhos de alguém que amou demais e aprendeu a sofrer em silêncio. À beira-mar, o tempo perdia importância. As horas dissolviam-se na espuma e o pensamento tornava-se tão vago quanto as gaivotas que riscavam o horizonte. O vento trazia o cheiro do sal e das distâncias, enquanto as ondas repetiam, numa língua antiga, histórias que ninguém conseguia traduzir completamente. Talvez o mar falasse apenas para quem tivesse dentro de si alguma solidão. O azul entrava pelos olhos e espalhava-se pelo corpo como uma memória esquecida. Fazia lembrar verões antigos, mãos dadas, risos perdidos no ar quente das tardes de infância. Havia qualquer coisa de eterno naquele movimento contínuo da água: um ir e voltar semelhante ao amor, que tantas vezes parte convencido de que não regressa, mas acaba sempre por deixar vestígios na areia do coração. Ao cair da noite, o mar transformava-se numa manta escura bordada de prata pelo luar. E aquele azul, já quase negro, parecia guardar dentro de si todos os sonhos naufragados do mundo, todas as lágrimas escondidas, todas as esperanças que insistem em sobreviver apesar das tempestades. Porque o mar, tal como a vida, nunca deixa de recomeçar.
Conceição Parreira
Maio 2026
SANTO ANTÓNIO
Quadras para o Santo António
Santo António casamenteiro,
leva o meu sonho contigo,
se o amor vier primeiro,
que venha também amigo.
Na janela há manjerico,
com cheiro a madrugada,
Lisboa canta baixinho
pelas ruas enfeitadas.
Santo António de Lisboa,
ouve esta minha oração,
traz um amor que seja boa
companhia e coração.
Há sardinhas sobre a brasa,
vinho, música e luar,
e em cada porta da casa
há vontade de bailar.
O balão sobe no céu,
como um segredo lançado,
cada namoro é um novelo
de futuro embrulhado.
Santo António sorridente,
de menino ao colo teu,
abençoa esta gente
que ainda acredita no céu.
Na marcha vai a saudade
vestida de cor e brilho,
Lisboa dança a cidade
como mãe dança o filho.
Quem namora em Santo António
fica preso ao coração,
porque junho tem demónio
e mil flores na canção.
Conceição Parreira
Maio 2026
domingo, 24 de maio de 2026
ESCRITA NARRATIVA
Matias e os Outros Rapazes
Eles sentavam-se juntos todos os dias, mas já não eram iguais. O Tomás falava mais alto, como se isso lhe desse vantagem. O Rui ria-se de tudo, mesmo quando não tinha graça. O André provocava, empurrava, fazia comentários soltos. E o Matias... o Matias ficava quieto. — Estás muito calado ultimamente — disse o Tomás, quebrando o silêncio. — Normal — respondeu o Matias. Mentira. Nada era normal. Todos gostavam da mesma rapariga, mas ninguém falava disso diretamente. Era uma regra não dita. Mesmo assim, estava em tudo: nos olhares trocados, nas piadas com segundas intenções, na tensão no ar. O Rui foi o primeiro a dizer em voz alta: — Não vale fingir que não sentimos o mesmo. O André riu-se.— Sentimos? Ou sentes tu? O Matias levantou os olhos pela primeira vez.— Não é uma competição. O silêncio caiu pesado. — Claro que é — disse o Tomás. — Sempre é. Matias abanou a cabeça. — Se for assim, eu saio. Ninguém esperava isso. — Sair? — o Rui franziu o sobrolho. — Por causa dela? — Por causa de nós — respondeu Matias. — Não quero que a gente se perca por algo que nenhum de nós controla. O André deixou de sorrir. O Tomás desviou o olhar. O Rui suspirou. Naquele momento, perceberam que o Matias não era o mais fraco. Era o único que não precisava ganhar. E isso mexeu com todos.
Conceição Parreira
Maio 2026
POESIA
A minha vida é uma banalização da escuridão —
como se a noite tivesse alugado quarto
dentro dos meus ossos.
Já não me assusta o escuro.
Assusta-me a facilidade
com que aprendi a chamá-lo de casa.
Há sombras sentadas à mesa comigo,
bebem do meu silêncio
e conhecem o nome de todas as minhas quedas.
Às vezes sorrio.
Mas é um sorriso cansado,
daqueles que acendem por fora
e morrem antes de chegar aos olhos.
Transformei o abismo em rotina,
a dor em mobília antiga,
e a tristeza já entra sem bater à porta.
No entanto,
há qualquer coisa em mim
que ainda resiste —
uma espécie de fósforo húmido,
quase apagado,
mas teimosamente vivo.
Porque até a escuridão,
quando é observada durante demasiado tempo,
acaba por confessar
que nasceu da ausência de luz.
Conceição Parreira
Maio 2026
quinta-feira, 14 de maio de 2026
ESCRITA NARRATIVA
Variáveis meu amor
Meu mundo mora muito além das montanhas. Mistura memórias, murmúrios e melodias numa manhã morna de março. Minha mãe mantinha, na mesa modesta, maçãs maduras e malmequeres murchos, enquanto o moinho, movido pelo murmúrio do vento, marcava o mesmo minuto melancólico. Mário caminhava mansamente pela margem do mar, mergulhado numa melodia muda. Mirava as marés como quem mede mistérios antigos. Muitas vezes, mesmo sem motivo, mantinha no rosto um meio sorriso melancólico, marca maior da sua maneira misteriosa de amar o mundo. Mas numa madrugada muito escura, mudou. Uma memória mal resolvida mostrou-lhe medos mantidos durante muitos anos. Mário, movido pela mágoa, mergulhou num silêncio moribundo. Mesmo assim, manteve-se firme. Moldou novamente a própria alma, como mestre moldando mármore. Meses mais tarde, numa manhã luminosa, encontrou Maria. Morena, meiga e musical, Maria mudou-lhe o mapa da vida. Juntos, misturaram sonhos modestos, mãos marcadas pelo trabalho e muitos momentos memoráveis. E no meio daquela pequena moradia junto ao mar, descobriram que o maior milagre humano mora mesmo nas coisas mínimas.
Conceição Parreira
Maio 2026
domingo, 3 de maio de 2026
ESCRITA NARRATIVA
A Fábula do Baralho Desalinhado
Numa velha gaveta de madeira vivia um baralho de cartas. Já fora inteiro, elegante, bem contado. Mas o tempo, as mãos nervosas e os jogos mal perdidos tinham-no deixado... confuso. O Rei de Copas achava que mandava em todos. — Sou rei, logo decido — dizia, batendo na mesa invisível. A Dama de Espadas, afiada como o próprio naipe, respondia:— Mandar não é o mesmo que pensar. O Valete de Paus ria-se, saltitante: — Que interessa quem manda, se ninguém se diverte? Num canto, o Ás de Ouros permanecia em silêncio. Sabia que valia muito, mas também sabia esperar. As cartas numéricas sentiam-se esquecidas. — Sem nós, não há jogo — murmurava o Sete de Copas, meio sonhador. Um dia, a gaveta abriu-se. Uma mão humana tentou jogar, mas desistiu depressa: faltavam cartas, sobravam egos, não havia ordem. Foi então que o baralho percebeu: separados, eram apenas pedaços de papel. Juntos, com regras e respeito, podiam criar histórias, apostas, encontros. O Rei baixou a coroa. A Dama afrouxou o corte. O Valete aprendeu a ouvir.E até o Ás se misturou. Quando voltaram a ser baralho, voltaram a ser jogo.
Moral da fábula:
Não é o valor de cada carta que faz o jogo, mas a forma como todas aceitam jogar juntas.
Conceição Parreira
Maio 2028
ESCRITA NARRATIVA
O comboio partiu ainda com a madrugada colada às janelas. Havia um silêncio espesso no cais, como se todos os destinos estivessem a prender a respiração. Sentei-me junto à janela, levando comigo apenas uma mala pequena e um cansaço antigo que não passava pela alfândega. À medida que o comboio avançava, os países iam-se dissolvendo como pensamentos mal acabados. Campos verdes, rios imóveis, estações com nomes difíceis de pronunciar — tudo passava com a mesma delicadeza com que se folheia um livro já lido. No reflexo do vidro, via o meu rosto misturado com a paisagem: eu também estava em trânsito, entre o que tinha sido e aquilo que ainda não sabia nomear. Havia pessoas que dormiam, outras liam, algumas olhavam o nada com devoção. Um homem de cabelos brancos desenhava mapas imaginários num caderno. Uma rapariga falava baixo ao telefone, como se confessasse um segredo ao próprio comboio. Ninguém perguntava a ninguém de onde vinha. Talvez porque todos ali estivessem a fugir de algo — ou a aproximar-se. Quando atravessámos a fronteira invisível da Holanda, a luz mudou. Tornou-se mais clara, quase líquida. Os campos pareciam pintados com paciência e os canais surgiam como frases bem pontuadas. Senti que Amsterdão não seria apenas um lugar, mas um estado de espírito: um espaço onde o tempo anda de bicicleta e a solidão aprende a conviver com a beleza. Ao chegar, o comboio parou com um suspiro metálico. Desci devagar, como quem não quer acordar de um sonho. A cidade esperava-me sem pressa, com as suas pontes curvas e janelas abertas para dentro da vida dos outros. Percebi então que a verdadeira viagem não tinha sido até Amsterdão, mas até esse lugar raro onde finalmente me sentia em movimento outra vez. E, pela primeira vez em muito tempo, isso bastava.
Conceição Parreira
Maio 2026
quarta-feira, 29 de abril de 2026
PORTAS
O Silêncio das Portas
Um conto à maneira de José Saramago
Ninguém soube ao certo quando foi que as portas começaram a fechar-se sozinhas, nem a quem caberia a culpa, se é que se pode atribuir tal responsabilidade a quem vive do lado de dentro ou do lado de fora, porque as portas, e isto aprendi cedo, são sempre fronteiras entre destinos. O senhor Manuel, homem de poucas falas e muitas dúvidas, começou a notar as primeiras diferenças numa manhã cinzenta, talvez terça, mas podia bem ser quinta, já que os dias, naquela vila, eram todos irmãos, filhos do mesmo tédio e netos da mesma esperança esquecida. A porta da cozinha, outrora risonha com suas dobradiças rangentes, teimou em não abrir ao toque habitual do ombro cansado do senhor Manuel, gesto aprendido de gerações, como quem cumprimenta um velho amigo, e ali ficou, imóvel, como se tivesse decidido, por conta própria, não mais permitir a passagem da rotina, talvez querendo guardar para si o cheiro do café e a dança do vapor que subia em espirais preguiçosas. Dona Amália, sua mulher, achou graça ao início, mas logo se impacientou, porque quem tem filhos para alimentar não costuma ter tempo para filosofias das portas nem dos batentes. Na praça, as conversas eram feitas de perguntas, e os velhos juntavam-se em círculos apertados, sussurrando teorias com a mesma convicção de quem comenta o tempo: terá sido o vento, ou será feitiço, algum recado de Deus ou capricho de diabo, quem pode saber, minha senhora, quem pode saber. O padre Arnaldo, homem de voz grave e paciência curta, tentou benzer a entrada da igreja, mas a porta, indiferente à água benta e palavras latinas, recusou-se a ceder. As crianças, que não conhecem o peso das preocupações adultas, viam nos novos acontecimentos oportunidades de jogo, inventando códigos secretos para atravessar paredes invisíveis, enquanto os mais velhos se perguntavam se as portas dos corações também se fechariam, e se sim, quem teria a chave para abrir o que foi selado pelo medo ou pela dúvida. Naquela noite, sentados à mesa por força da persistência e do improviso, senhor Manuel e dona Amália comeram em silêncio, ouvindo o rumor das ruas, as portas que se batiam ao longe, como se tentassem dizer algo há muito esquecido. Ninguém se atreveu a perguntar se amanhã as portas estariam abertas, porque ali, naquela vila, a esperança é coisa delicada, precisa ser cuidada como se cuida uma planta teimosa, dessas que só florescem quando ninguém vê. E naquela madrugada, entre o último suspiro do vento e o primeiro canto do galo, alguém, talvez a própria noite, sussurrou que as portas se fecham para recordar que, às vezes, é preciso aprender a bater, esperar, e escutar, mesmo que o silêncio doa mais do que a ausência de resposta.
Conceição Parreira
Abril 2026
ESCRITA NARRATIVA
Havia numa aldeia portuguesa, encostada ao rio e ao silêncio, uma miúda que só falava francês. Chamava-se Leonor, mas poucos o sabiam, porque ninguém lhe perguntava o nome: perguntavam-lhe antes porquê. Por que razão, numa terra de sinos e broas, aquela criança respondia bonjour quando lhe diziam bom dia. Por que motivo dizia merci ao invés de obrigada, e chorava em francês, com um choro mais comprido, quase musical. A mãe dizia que não era teimosia. Dizia que Leonor nascera assim, com a língua trocada no berço. O pai, homem de poucas palavras, encolhia os ombros como quem aceita o destino tal como aceita a chuva fora de tempo. Mas a aldeia não aceitava. A aldeia observa, cochicha, corrige. Na escola, a professora falava devagar, como se o português pudesse ser aprendido por osmose. Leonor ouvia, atenta, com olhos grandes, e respondia sempre em francês, com frases completas, educadas, impecáveis. Não errava um verbo. Errava apenas o país. As outras crianças riam-se. Chamavam-lhe a estrangeira, a parisiense, sem nunca terem visto Paris. Leonor não se defendia. Limitava-se a sorrir, um sorriso fino, como quem sabe um segredo que não pode traduzir. Às vezes, ao fim da tarde, sentava-se à beira do rio e falava sozinha. Em francês. O rio parecia entender. Corria mais manso, como se escutasse. Talvez fosse ali que a língua dela fazia sentido — na água, que não tem pátria. Um dia, chegou à aldeia uma mulher vinda de fora, com um lenço vermelho ao pescoço e livros debaixo do braço. Quando Leonor lhe disse bonsoir, a mulher parou. Sorriu como quem encontra casa depois de muito tempo. — Enfin, disse. Finalmente. Conversaram horas. Ninguém percebeu nada, mas perceberam tudo: Leonor ria alto, gesticulava, existia inteira. Pela primeira vez, não era um erro. Quando a mulher partiu, deixou um livro. Leonor guardou-o como quem guarda um espelho. Continuou a falar francês, é verdade. Mas já não o fazia sozinha. E a aldeia, aos poucos, aprendeu que nem todas as vozes nascem no mesmo lugar. Algumas vêm de longe para nos ensinar que o mundo é maior do que a nossa língua.
Conceição Parreira
Abril 2026
terça-feira, 7 de abril de 2026
POEMA COM JOGO DE PALAVRAS COMEÇADAS PELA LETRA J
Jaz no jardim da linguagem
uma letra leve,
j — de janela, de gesto, de jogo.
Junto palavras como quem junta jasmim,
e o cheiro já é quase um jeito de dizer
o que jamais se diz.
Jogo-me no jorro do som,
no jeitinho das sílabas
que dançam, juntas, em júbilo.
J é também o já e o jamais,
o começo e o corte,
o salto súbito do pensamento.
Juro que a letra se move —
não é tinta, nem traço:
é um jardim inteiro a germinar na boca.
E quando a noite chega,
e tudo jaz em silêncio,
resta o j —
ainda jovem,
ainda vivo,
ainda jogando luz
no escuro das palavras.
Conceição Parreira
Abril 2026
ESCRITA NARRATIVA
Era uma miúda de 9 anos, daquelas que ainda acreditam que o mundo cabe inteiro num sorriso. Todos os dias, depois da escola, corria para o parque como quem corre para casa. A mochila ficava esquecida num banco, os atacadores desatados, e o coração começava logo a bater mais depressa quando via o baloiço vazio. O baloiço era o seu lugar secreto. Sentava-se, segurava as correntes frias e empurrava-se com força, cada vez mais alto, como se pudesse tocar o céu com a ponta dos ténis. Lá em cima, por um segundo, o tempo parava. O vento batia-lhe na cara, os cabelos voavam livres e ela imaginava que era um pássaro, uma astronauta, ou simplesmente alguém capaz de ir aonde quisesse. No parque havia árvores antigas que pareciam ouvir os seus pensamentos, crianças a rir, mães a conversar baixinho e o cheiro da relva misturado com terra molhada. A miúda conhecia cada canto: o escorrega quente ao sol, a areia onde desenhava caminhos com um pau, o banco onde se sentava a observar os outros, como se estivesse a aprender vida sem ninguém dar por isso. Às vezes brincava sozinha, outras vezes fazia amigos que duravam apenas uma tarde. Não se importava. Para ela, cada encontro era uma pequena aventura. Inventava histórias, dava nomes às nuvens, falava com o baloiço como se fosse um velho amigo que nunca a julgava. Quando o sol começava a descer e alguém a chamava para ir embora, suspirava fundo. Sabia que tinha de sair do parque, mas levava consigo a sensação de liberdade, guardada no peito. Em casa, antes de adormecer, fechava os olhos e voltava a baloiçar, alto, muito alto, naquele lugar onde a infância ainda era inteira. E assim, dia após dia, a miúda crescia devagar, sem pressa, embalada pelo baloiço e pelos sonhos que só quem tem 9 anos sabe inventar.
Conceição Parreira
Abril 2026
domingo, 5 de abril de 2026
POESIA
Primavera em Ti
Quando a primavera chega,
não bate à porta —
entra devagarinho
pelas frestas do meu peito.
Traz nos dedos
o perfume das flores recém-nascidas
e pousa no meu ombro
como quem sabe o caminho do abraço.
Os campos vestem-se de verde esperança,
as árvores ensaiam rendas de luz,
e no ar há uma promessa antiga
de recomeço e de ternura.
É na primavera que te penso mais:
como se o teu nome
fosse semente na minha boca,
pronto a florir em beijo.
As andorinhas riscam o céu
com cartas de amor invisíveis,
e cada pétala que cai
é um segredo que te pertence.
No teu olhar
há manhãs claras e longas,
há rios que desaprendem o inverno
e aprendem a correr livres.
Se o mundo renasce em flores,
eu renasço em ti —
numa estação sem fim,
onde amar é o único clima possível.
CONCEIÇÃO PARREIRA
Abril 2026
FÁBULA
O Caranguejo e o Escorpião
À beira de um rio de águas calmas vivia um caranguejo paciente, que caminhava de lado, observando o mundo com atenção. Passava os dias a recolher pequenos tesouros da areia e a ouvir o murmúrio da água. Num dia quente, apareceu um escorpião vindo do deserto próximo. Estava cansado e precisava atravessar o rio, mas não sabia nadar. — Caranguejo — disse ele —, leva-me nas tuas costas até à outra margem. Prometo não te picar. O caranguejo hesitou. — Como posso confiar em ti, se o teu ferrão é feito para ferir? O escorpião respondeu com voz sincera: — Se te picar, afogar-me-ei contigo. Não faria sentido. Depois de pensar longamente, o caranguejo aceitou. Entrou devagar na água, sentindo o peso do escorpião nas costas. A meio do rio, porém, sentiu uma dor aguda. — Porque fizeste isso? — perguntou, já enfraquecido. — Agora morreremos os dois. O escorpião baixou a cabeça e respondeu: — Não foi por mal. Foi da minha natureza. O caranguejo afundou-se nas águas, compreendendo, tarde demais, que a confiança não pode ignorar aquilo que o outro é.
Moral da fábula: Nunca esperes que alguém deixe de ser quem é só porque a situação o exige.
Conceição Parreira
Abril 2026
quarta-feira, 11 de março de 2026
ESCRITA NARRATIVA
A Fábula do Urso Maior e do Urso Menor
Na orla de uma floresta antiga viviam dois ursos: o Urso Maior e o Urso Menor. O Urso Maior tinha passos pesados, voz grave e uma certeza antiga de que o mundo era perigoso. O Urso Menor tinha olhos curiosos, patas ainda inseguras e acreditava que o mundo era um lugar por descobrir. Todos os dias, o Urso Menor perguntava: — Posso ir mais longe hoje? E o Urso Maior respondia sempre: — Ainda não. A floresta ensina devagar. Certo dia, enquanto o Urso Maior dormia à sombra de um carvalho, o Urso Menor aventurou-se um pouco mais. Não foi longe — apenas o suficiente para se perder do cheiro seguro do outro. Assustado, o Urso Menor chamou. Chamou baixo, chamou alto, chamou com o coração. O Urso Maior acordou e percebeu: proteger não é prender. Correu pela floresta, derrubou silêncios, afastou medos, até encontrar o Urso Menor encolhido junto a um riacho. — Pensei que o mundo fosse maior do que eu — disse o pequeno. — E é — respondeu o Urso Maior, abraçando-o — mas tu também estás a crescer. Nesse dia, regressaram juntos. O Urso Maior caminhou um pouco atrás, atento. O Urso Menor caminhou um pouco à frente, confiante. Moral da fábula: Quem ama protege, mas também aprende a soltar. E crescer é isso: ir um pouco mais longe, sabendo que alguém nos espera.
Conceição Parreira
Março 2026
ESCRITA NARRATIVA
O comboio partiu ainda com a madrugada colada às janelas. Havia um silêncio espesso no cais, como se todos os destinos estivessem a prender a respiração. Sentei-me junto à janela, levando comigo apenas uma mala pequena e um cansaço antigo que não passava pela alfândega. À medida que o comboio avançava, os países iam-se dissolvendo como pensamentos mal acabados. Campos verdes, rios imóveis, estações com nomes difíceis de pronunciar — tudo passava com a mesma delicadeza com que se folheia um livro já lido. No reflexo do vidro, via o meu rosto misturado com a paisagem: eu também estava em trânsito, entre o que tinha sido e aquilo que ainda não sabia nomear. Havia pessoas que dormiam, outras liam, algumas olhavam o nada com devoção. Um homem de cabelos brancos desenhava mapas imaginários num caderno. Uma rapariga falava baixo ao telefone, como se confessasse um segredo ao próprio comboio. Ninguém perguntava a ninguém de onde vinha. Talvez porque todos ali estivessem a fugir de algo — ou a aproximar-se. Quando atravessámos a fronteira invisível da Holanda, a luz mudou. Tornou-se mais clara, quase líquida. Os campos pareciam pintados com paciência e os canais surgiam como frases bem pontuadas. Senti que Amsterdão não seria apenas um lugar, mas um estado de espírito: um espaço onde o tempo anda de bicicleta e a solidão aprende a conviver com a beleza. Ao chegar, o comboio parou com um suspiro metálico. Desci devagar, como quem não quer acordar de um sonho. A cidade esperava-me sem pressa, com as suas pontes curvas e janelas abertas para dentro da vida dos outros. Percebi então que a verdadeira viagem não tinha sido até Amsterdão, mas até esse lugar raro onde finalmente me sentia em movimento outra vez. E, pela primeira vez em muito tempo, isso bastava.
Conceição Parreira
Março 2026
terça-feira, 3 de março de 2026
ESCRITA CRIATIVA
A Raposa, o Leão e o Tigre
Na floresta, o Leão era o rei mais temido, forte e orgulhoso. O Tigre, veloz e valente, acreditava ser o verdadeiro dono do território. Já a Raposa, pequena e esperta, observava tudo em silêncio. Certo dia, o Leão e o Tigre começaram a discutir sobre quem mandava mais na floresta. A briga cresceu tanto que decidiram resolver a questão lutando até o pôr do sol. Enquanto isso, a Raposa teve uma ideia. Ela reuniu os outros animais e disse: — Enquanto eles brigam pelo poder, quem sofre é a floresta inteira. Precisamos de paz, não de força.Quando o Leão e o Tigre chegaram exaustos para a luta final, encontraram todos os animais unidos, protegendo seus lares. Envergonhados, perceberam que sua disputa só trouxe medo e desordem. O Leão abaixou a cabeça, e o Tigre recuou. — A verdadeira força — disse a Raposa — está em proteger, não em dominar. Desde então, o Leão governou com mais sabedoria, o Tigre aprendeu a controlar seu orgulho, e a Raposa mostrou que a inteligência pode ser mais poderosa que a força.
Moral: A força sem sabedoria causa destruição; a inteligência constrói harmonia.
Conceição Parreira
Março 2026
PALAVRAS COMEÇADAS PELA LETRA
Hoje Helena acordou bem-humorada. Havia um horizonte harmonioso diante dela, cheio de histórias e hipóteses felizes. Enquanto hidratava as hortênsias no jardim, ouviu o som do helicóptero que sobrevoava o bairro histórico. Helena sempre teve o hábito de honrar horários e ajudar humanos ao seu redor. Humilde, honesta e heroica em pequenos gestos, ela acreditava que a harmonia começa com honestidade. Naquela manhã, houve algo especial: um hóspede inesperado apareceu na hospedaria da família. Era Henrique, um historiador habilidoso que falava sobre heróis antigos e fatos históricos fascinantes. Helena ouviu tudo com humildade e humor, esperando que aquele encontro rendesse horas de histórias incríveis.
Conceição Parreira
Março 2026