quarta-feira, 18 de março de 2026

ESCRITA NARRATIVA

SAMARRA

Tinha para aí uns 17/18 anos, quando fui junto da minha mãe e pedi-lhe:

- Mãe empreste-me a samarra do pai, está muito frio e tenho que sair com uns amigos.

- Estás a mentir, tu vais mas é , para a reunião clandestina, que se dá nos antigos armazéns, junto ao forno cal.

- Nada disso, mãe.

- Olha bem para o teu emprego, se fores apanhado como o primo Joaquim, tu perdes o emprego e depois como é?

- Nada disso, mãe, repito.

- Jura que não me mentes.

- Nada disso, mãe

Pois foi tudo isso, a reunião era relacionada com os problemas laborais das mulheres que trabalhavam nas fábricas onde se matava e preparavam as carnes dos porcos, que eram sacrificadas dentro das próprias fábricas, onde se fabricavam os chouriços e se enlatavam todos os produtos para alimentação.

Quando cheguei à reunião já ia a meio e o frio era muito, e pouco tinha ouvido dos mestres que vinham de Lisboa em defesa dos operários corticeiros e das operárias das fábricas dos porcos. Nesta altura entram de rompante, três ou quatro G.N.R, a cavalo que pretendiam prender os chefes do proletariado e mais alguns operários que por ali se encontravam e mais gente que estavam naquele local pela primeira vez.

Tinha muito respeito pelos conselhos da minha mãe, do meu pai tinha, poucos ou nenhuns porque com a vida que tinha na pesca, não estava voltado para esses problemas e também nada sabia e entendia esta nova linguagem, que eu fui aprendendo. Como empregado no Banco, sabia perfeitamente que se fosse apanhado pela guarda, ficava com o emprego em risco.

Pois, cheguei a casa sem a samarra, porque ao fugir da guarda, não me restou outra alternativa que não fosse a fuga a nado para o outro lado do rio, por isso lá se foi a samarra, pelo rio abaixo e nunca mais a vi, molhado e a tremer de frio cheguei a casa e quem conhece bem a região, sabe quantos quilómetros tive que percorrer, descalço alem de outras faltas, para não ser preso.

A minha mãe mais ralada, ficou do que eu, então prometi-lhe a não lá voltar .

João Paiva

Março de 2026

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