sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

MEMÓRIA E FICÇÃO

 

O VELHO ARRAIS

Eu e o meu irmão Zé Manel tivemos conhecimento que um pintor, de que nem sequer

sabíamos o nome, tinha feito uma pintura alusiva aos barcos do Rio Tejo, que se

encontram bem patentes no Cais Marítimo de Alcântara.

O braço do Tejo que banha o Montijo, nossa terra natal, tem para nós grande

significado, uma vez que, quando aprendemos a dar os primeiros passos em terra,

aprendemos a dar as primeiras braçadas no rio e, assim, os anos passaram e nós com o

rio no coração.

Quando, na construção do Estádio de Futebol Os Belenenses, o nosso tio João, pedreiro

de profissão, estava a trabalhar nesse local, para onde se deslocava por certos períodos,

onde era obrigado a pernoitar, devido à grande distância a que ficava a nossa terra natal

(para a época, era uma distância enorme).

As saudades eram enormes para a nossa avó Sofia e não teve com meias medidas, para

matar essas saudades, do seu filho ausente, resolveu o seguinte:

-Meninos, amanhã, vamos visitar o tio João que está a trabalhar para os lados de Lisboa

e eu já não o vejo há muitos dias.

-Muito bem, avó. Vamos de barco, depois de comboio e também de camioneta da

carreira, não é, avó?

-Não, vamos é de elétrico, ou seja, de carro elétrico, mas só depois de chegarmos a

Lisboa.

-Ena pá! Nunca andámos nisso.

Manhã cedo, vestidos e calçados a rigor, aí vamos apanhar o barco para Lisboa, dia de

festa para sempre recordar. Pelo caminho, a avó foi-nos relatando alguns

acontecimentos e que iríamos ver um grande cais, cheio de grandes navios e de

pequenos barcos.

Ainda não era meio-dia e já estávamos na obra, o mais difícil foi encontrar o tio João de

forma a que ainda almoçássemos o petisco que a avó arranjou para todos nós, e que

ainda se encontrava morno devido à forma como foi acondicionado.

Espanto para o meu tio, alegria para a minha avó, e chegou a hora do regresso a casa,

mas tínhamos de ir ver os barcos ao cais. Quando entrámos naquele grande edifício com

aquelas enormes pinturas, verificámos que aqueles desenhos seriam os que nós

tínhamos ouvido falar.

Aquela fragata com a proa retorcida, e com aquelas maravilhosas cores, até podia ser

uma das que o nosso pai era o arrais.


Este assunto não ficou no esquecimento e vai daí, dois paroulos da aldeia foram à

livraria da vila, à procura de um livro, onde constavam as pinturas relacionadas com os

barcos do Tejo e sobretudo aquelas que pareciam os varinos que transportavam o sal

que carregavam nas salinas de que o nosso avô Francisco era marnoteiro.

Os dados possíveis estavam lançados, mas, do livro, nada, no entanto o livreiro

prometeu-nos que, quando fosse a Lisboa, o procurava e que, se o encontrasse, o traria.

-Ok! Senhor Carlos, agradecemos.

Passados alguns dias, a minha mãe é chamada pelo senhor Carlos, para lhe comunicar

que já tinha encontrado o livro que os seus filhos lhe pediram. É de um pintor famoso

que se chama Almada Negreiros.

-Quem, pergunta a minha mãe admirada? Não conheço ninguém com esse nome. (Não

era de admirar na gente do meu bairro).

-Espere, dona Beatriz, já vejo que você não sabe de nada, ainda bem que não o trouxe, o

livro, porque custa um dinheirão.

-Não pode ser, diz a minha mãe já aflita, os meus filhos não podem fazer tal coisa. Vou

já procurá-los, mas não mande vir o livro.

Tranquilo estava eu mais o meu irmão a fazer não sei o quê, quando a minha mãe rompe

em alvoroço contra nós com a história do livro. Não ligámos à conversa da nossa mãe e

corremos em direcção à livraria para saber notícias.

-Eu não mandei vir o livro, diz-nos o senhor Carlos, acrescentando que é muito caro e

que é necessário trazer o dinheiro, caso contrário, não vai haver livro para ninguém.

-Ok! Senhor Carlos.

Depois de sabermos o custo do livro, corremos a casa da nossa avó Domicília, mãe do

meu pai, a quem já tínhamos contado as peripécias do livro, e para ser encomendado, o

homem queria lá o dinheiro primeiro.

-Isso é que era bom, exclama a nossa avó, o senhor Carlos julga que somos da família

dele? Ora vamos lá falar com ele, é só tirar o avental e o lenço que tenho na cabeça e

passar as mãos por água.

-Avó, você está a tratar do jantar, guardamos para amanhã.

-Qual amanhã, qual quê, ele vai já hoje arranjar o livro.

-Mas tem de levar o dinheiro.

-Qual dinheiro, qual quê!

A chegada à vila foi rápida e, de rompante, entrávamos pela livraria adentro.

-Ó Matilde, chama lá o senhor Carlos.


-É para já, tia Domicília.

Lá vem o senhor Carlos agarrado à bengala.

-Então, tia Domicília?

-Então nada, Carlos! Já cá tens o livro?

-Não tenho tia Domicília, eles não trouxeram o dinheiro.

-E agora o que queres, uma bengalada? Ou já arranjaste o livro para os meus netos?

-Está bem, tia Domicilia, amanhã, tenho cá o livro, vem pelo barco das cinco da tarde,

assim, podem cá vir depois de amanhã e, se quiserem, podem vir bem cedinho.

-Não te esqueças de mandar o preço do livro, num papel, que eu depois passarei por

aqui para te pagar.

Dito e feito, era assim nesta família.

Nesse mesmo dia, e com a chegada do nosso pai, aí estamos os cinco ou seis

analfabetos em redor da mesa da cozinha à espera de se abrir o embrulho, que continha

o livro para ser folheado na presença dos analfabetos, mas agora acompanhados por dois

jovens que já andam na primária.

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