“A Folha de Papel em Branco”
Há quem tema a escuridão, quem se assuste com alturas e quem desconfie de palhaços. Mas poucos assumem o pavor mais silencioso e mais democrático de todos: a folha de papel em branco. Sim, ela mesma — aquela superfície aparentemente inocente que, segundo fontes altamente confiáveis (o meu próprio bloco de notas), já provocou mais suores frios do que provas de matemática. Às 9h02 da manhã, hora oficial da coragem criativa, uma folha A4 impecavelmente branca foi avistada em cima de uma mesa, exibindo a sua habitual expressão vazia. Interpelada pela reportagem, manteve-se em silêncio, postura que especialistas interpretam como pressão psicológica sobre o escritor. O escritor — que, por questões de privacidade, identificaremos apenas como “Eu Mesmo” —aproximou-se munido de uma caneta preta, na esperança de iniciar o ritual sagrado da escrita. “Hoje vai”, afirmou, com uma convicção que durou exatamente três segundos, tempo suficiente para lembrar que não fazia ideia do que escrever. A folha, impassível, observava. Testemunhas relatam que o primeiro ataque de pânico criativo aconteceu quando “Eu Mesmo” pousou a caneta e a retirou logo depois, sem deixar sequer um rabisco. O incidente foi registado como “tentativa frustrada de começar pela introdução”. Peritos em criatividade alertam que a folha em branco é astuta. Finge disponibilidade, mas apresenta uma ameaça psicológica complexa. “Ela força-nos a olhar de frente para o nada”, explica a professora de Literatura, Dra. Metáfora de Sousa, “e depois pergunta: e então, o que tens para mim?”. A situação só começou a melhorar quando o escritor abandonou a estratégia da inspiração súbita e optou pela abordagem “vamos escrever qualquer coisa antes que o café arrefeça”. O primeiro parágrafo surgiu às 9h47, seguido de um suspiro de alívio e de uma sensação de vitória proporcional a ter conseguido estacionar à primeira. No final, a folha já não estava branca. Estava povoada de palavras, frases e duas rasuras — marcas de batalha, símbolos de resistência e testemunho de que, às vezes, escrever é metade luta, metade comédia involuntária. A folha em branco não deu declarações finais, mas ficou comprovado: por mais intimidante que pareça, ela perde sempre para o escritor que ousa começar... mesmo que seja a escrever uma crónica sobre ela própria. E assim se fecha mais um caso no departamento de Crimes Criativos e Outros Desabafos Jornalísticos.
Conceição Parreira
Fevereiro 2026
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