GARRAFÃO
Sempre no mesmo lugar, em cima de uma mesa de madeira com mais de sessenta anos, já carunchosa e com pés reforçados,com mais de dois metros de comprimento, por um de largura. E o garrafão lá está cheio ou vazio, mas mais cheio, empalhado com palha já tão velha que começa a desfazer-se.
Este cenário ainda se mantém vivo, como se tivesse nascido ontem e o velho garrafão em cima da mesa continua a ver grandes alegrias dos caçadores, assim como maus comportamentos dos mesmos.
Como devem ter reparado, já falei de caçadores, portanto estamos inseridos numa propriedade agrícola, onde se pode caçar com a devida licença. Nunca fui caçador, nem gostava do lazer da caça, mas vivi muitos acontecimentos relacionados com este desporto.
Um dia o Tio António Torcato, capataz de uma herdade vizinha, homem já idoso e que possivelmente, pouco foi mais longe do que a Arraiolos e de certeza à procura de um médico. Conhecia aqueles lugares como ninguém e era um exemplar caçador.
Na casa da malta, encontrava-se sempre um tacho de ferro fundido de quatro pés sobre uma lareira sempre acesa e que mantinha sempre uma sopa bem quentinha e acompanhada de alguns petisco de ocasião, à mão de semear encontrava-se o garrafão.
Junto a lareira, a mesa e uns bancos corridos e em cima da mesa lá estava o garrafão cheio evidentemente e algumas canecas de barro, um pão mole, um lugar agradável sobretudo no inverno. Quando por ali passasse alguém dava dois dedos de conversa ao tio António Torcato o que era muito do seu agrado e logo lhe oferecia comida quentinha e vinho do garrafão e depois era ouvi-los contar as suas peripécias, das suas caçadas e demais situações rocambolescas.
Ouço uma motorizada chegar ao monte e venho ver quem é, era o tio António que quase não se percebia o que ele dizia. tal era a aflição.
- Tio António o que se passa? Não consigo entendê-lo.
- Caçadores, caçadores e pouco mais disse que eu percebesse.
- Caçadores, maus, porco morto, vamos senhor João.
Metemo-nos na carrinha, mas antes tive uma ideia, voltar para traz e ligar para G.N.R. e dizer-lhes que algo de mal se estava a passar no monte do tio António Torcato para onde eu iria, pedindo-lhes que se lá dirigissem, o assunto é grave.
Ao chegar com o tio António, verifico que estão estacionados dois carros vários caçadores e um porco morto no pátio. O grupo está enervado e culpam um colega, mas até aqui ainda não percebi o que aconteceu.
Chovia e fazia muito frio naquela manhã e um grupo de caçadores, chegou ao monte e de imediato foram convidados para a casa da malta, porque estava quentinho, junto à lareira e podiam saborear um caldinho apetitoso acompanhado de um naco de chouriço ou toucinho, o tio António Torcato logo agarrou no garrafão para lhes servir vinho.
De repente entra o jeep da G.N .R. com a sua guarnição e perguntam o que efetivamente aconteceu e tomaram conta da ocorrência.
Mas havia um caçador, este já identificado pela guarda que continuava muito nervoso e não obedecia a ninguém, porque ao ver um porco que tinha fugido da malhada e se passeava pelo alpendre, o matou de imediato.
Foi um dos maiores desgostos do tio António Torcato, que depois de oferecer o que tinha para dar, como agradecimento mataram um dos seus animais. Não me restou outro caminho senão agarrar o tio Torcato pelo braço levá-lo para a casa da malta onde, para o alegrar, petiscamos e demos que fazer ao garrafão.
João Paiva
Fevereiro 2026
Sem comentários:
Enviar um comentário