Um círio arde cansado
Iluminando o casebre
E o morto vive na febre
De ter morrido enganado
Afasta a Morte um momento
Escarra no chão uma dor
E nos olhos um fulgor
Receando-se o tormento
Relembra os danos passados
Tenta lembrar alegrias
Mas só lhe surgem os dias
De martírios renovados
Em vão tenta recordar
Algo que tenha valido
Todo esse mal sofrido
No constante labutar
Vê trabalhos, vê canseiras
Vê o corpo repartido
Vê o seu amor traído
Das mais diversas maneiras
Vê os malogras que a Vida
Com bastas mãos espalhou
No caminho que o levou
A essa margem esquecida
Com um olhar moribundo
Abarca tudo o que o cerca
Não achando qualquer perca
por ter de deixar o mundo
E num gesto derradeiro
De mil perguntas eivado
Puxa a Morte p'ra seu lado
E recai no travesseiro
Octávio Dias
Fevereiro 2026
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