terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

ÚLTIMA ANÁLISE

 Um círio arde cansado

Iluminando o casebre

E o morto vive na febre

De ter morrido enganado


Afasta a Morte um momento

Escarra no chão uma dor

E nos olhos um fulgor

Receando-se o tormento


Relembra os danos passados

Tenta lembrar alegrias

Mas só lhe surgem os dias

De martírios renovados


Em vão tenta recordar

Algo que tenha valido

Todo esse mal sofrido

No constante labutar


Vê trabalhos, vê canseiras

Vê o corpo repartido

Vê o seu amor traído

Das mais diversas maneiras


Vê os malogras que a Vida

Com bastas mãos espalhou

No caminho que o levou

A essa margem esquecida


 Com um olhar moribundo

Abarca tudo o que o cerca

Não achando qualquer perca

por ter de deixar o mundo


E num gesto derradeiro

De mil perguntas eivado

Puxa a Morte p'ra seu lado

E recai no travesseiro


Octávio Dias

Fevereiro 2026 

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