VISITA A CASA DA MINHA SOBRINHA
Chego já o cozido à portuguesa, composto com as melhores carnes e enchidos de porco está ao lume, depois de tudo previamente amanhado como mandam os preceitos dos nossos antepassados e não tarda muito e o cheiro tradicional da confeção começa a exalar por todo a casa.
A mesa bem portuguesa, onde não faltou um vinho de Pégões e para sobremesa um melão, não de Almeirim nem do Alentejo, mas sim de um país sul americano, que pena, mas não faltou o nosso bolo de milho da tia Beatriz (minha mãe).
Agora a história que vou contar: Acabamos de almoçar e fomos dar a volta dos tristes como se diz cá na terra e ficámos presos à conversa com um antigo companheiro da primária, de nome Salvador.
- Pergunta-me o Salvado:
- Lembras-te do Jorge Gordo que também foi teu colega na Banca? Ja faleceu.
- Eu sei e aproveito para contar uma história que passei com o Jorge e o meu primo Luis, que enquanto cá andar será sempre recordada.
- Como sabes eu tinha um barco, que era a minha grande paixão e navegava com qualquer tempo. Certo dia o Jorge pediu-me para navegar comigo, mas não atendi o pedido pelo facto de ele não saber nadar. Tanto me pediu que um dia fez parte da tripulação. Numa manobra de rumo por mim executada e com o excesso de peso do Jorge, o barco afundou-se. Ele com grande aflição segurou-se à minha camisola e não a largou mais. Com a ajuda do Luis, conseguimos que o Jorge me largasse e só assim foi possível o seu salvamento e também o meu.
Até aqui tudo bem, mas o Salvador diz-me:
- Não continues, porque eu estava na praia e assisti a todo esse drama. Fui eu quem os auxiliou a sairem da água, não te lembras?
Passaram mais de sessenta anos. Como é possível esta lembrança surgir agora entre nós os dois? Foi um momento maravilhoso este, um recordar de histórias, mas uma coisa aconteceu: Selámos com um abraço os nossos oitenta anos de vida, abraço este que durou tantos anos a saldar.
João Paiva
Março de 2026
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