segunda-feira, 23 de março de 2026

POESIA

                        APAGÃO

            Isto é verdade

              Porque hoje me lembrei

            Da quanta saudade

            Eu tenho quando na escuridão chorei


            É uma saudade esquisita

            Porque à luz do candeeiro

            Fazer trabalhos de escrita

            Nem com a sovela do sapateiro


            Hoje é noite e de luar

            Mas não tenho luz em casa

            Como é que eu vou a casa arrumar

            Não te amofines, que isso já passa


            Mas não passou

            E eu feliz por estar as escuras

            Bastante da minha avó me lembrou

            Com uma agulha e dedal fazer tantas costuras


            Não faz mal João

            Olha para o escuro e o que encontras

            Somente escuridão

            Menos no teu coração


            Vai dormir, tenho saudades do candeio

            O meu pai ganhava a vida no rio

            Á luz de um candeeiro

            Houvesse chuva calor ou frio


            Mas já é tarde e más horas

            A minha mãe gritava pelo candeeiro

            Estando já ela fora de portas

            A espera do padeiro


            A minha avó gritava

            Oh Francisco levanta-te

            A mula já berrava

            Adivinhando o vento de levante


            Mas lá em casa já muito havia a fazer

            E um dorminhoco, a sonhar com ela

            Que tinha uma redação para escrever

            Nem que fosse á luz da vela


            Sou feliz mesmo sem luz

            Agora já há eletricidade

            O que na realidade me conduz

            Para o campo da realidade

João Paiva            

Março de 2026            

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