O MEU RIO
Muitos anos entre nós passaram
Foste com gosto a minha ambição
Recebeste bem os que até a ti chegaram
A quem dedicaste a melhor atenção
Na enchente por vezes barafustaste
Na vazante deixaste um agueiro
Não foste de todo um traste
Porque sempre limpaste o esteiro
Quando chegamos ao preia mar
Os mais velhos e sabedores de fé
Põem-se muitas vezes a reclamar
Pelos desencontros da tua maré
Os antigos que ainda cá estão
Olham para os filhos já criados
E dizem, para o rio não foram não
Muito menos para embarcados
Meu rio não podes estar doente
Apesar de muito mal tratado
Não tenho dúvidas que estás carente
E muito longe de estares acabado
Nas tuas margens sempre vivi
E nelas muitas vezes mergulhei
Com as correntes muito aprendi
E os muitos sustos que apanhei
O teu leito é um pegado lameiro
Se estivesse na minha mão te ajudava
Sabendo que foste um rio primeiro
Onde toda a gente navegava
Na tua enchente e vazante
Muito me ajudaram a sonhar
Desde o mau tempo a levante
Ao mar sereno para navegar
João Paiva
Março de 2026
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