LÁGRIMA, caída na Atalaia
Nestes dias de calor, tenho saudades do Quintal da minha avó Sofia, onde havia uma torneira e por baixo uma pia.
Fecha a torneira gritava a avó, lá da cozinha, para mim e para o meu irmão.
Naquela casa havia água corrente, portanto havia banhos com fartura, sobretudo no verão, quando o calor apertava e nos refugiávamos naquele quintalinho, à volta daquela preciosa torneira que continuava aberta.
Este apontamento vem a propósito de um passeio que fiz até á Atalaia e me lembrou das Festas Grandes ou sejam as Festas de Nossa Senhora da Atalaia, pela qual passámos muito tempo a falar de farturas, do carrossel e da camioneta dos Belos que nos levava até lá, não me posso esquecer do frango com arroz, que levava muito tempo no forno a lenha, que existia no quintal da minha avó, que era para o jantar na Atalaia.
- João Francisco, Zé Manel, ajudem aqui a mãe a estender a toalha no chão, em redor da qual nos sentávamos para o jantar.
Esta toalha e todas as outras das restantes famílias, não eram quaisquer toalhas, para além de serem brancas, acabadinhas de saírem da lixívia e muito bem passadas a ferro, eram bordadas por mãos maravilhosas, enrugadas por terem aprendido a fazer todos os trabalhos domésticos, para além do vestidos de chita e calças de ganga, trapos estes que ajudavam à felicidade da família.
Como agora se diz estes pic-nic eram realizados no eucaliptal, por traz da igreja e só depois da procissão acabar.
O meu pai chega agora com o melhor melão de Almeirim, que o foi comprar ao local do costume, mas onde demorou mais de uma hora para o escolher, porque passou pelas suas mãos tantos melões, até encontrar o mais docinho e maduro.
O meu pai não ensinou este segredo a ninguém, porque este ritual já vinha de avós para netos e o local era sempre o mesmo.
Quando há dias visitei esta vila, parei junto de uma qualquer torneira, que se encontrava por estes sítios e integrada num qualquer esquema de rega automática, abriu-se e a agua correu de tal modo, que me fez lembrar a torneira do quintal da minha avó o que me emocionou e tal foi a emoção, que num dos meus olhos se soltou uma Lágrima.
João Paiva
Abril de 2026
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