sábado, 11 de abril de 2026

ESCRITA NARRATIVA

CICLONE

AS VELHICES DE UM AVÔ (10)

A casa da minha avó era num anexo à adega, cujo adegueiro era o meu avô, onde os meus tios também viviam, nesta altura tinha poucos meses de vida, a alcofa que me servia de berço ficou a boiar, quando um ciclone se abateu na nossa região e foi a muito custo que a minha avó Sofia me agarrou e levou-me para o sótão. Aí se aconchegaram muitas pessoas, a minha mãe não conseguia chegar até mim, devido a altura da maré, só o conseguindo quando a maré começou a baixar e só assim se conseguiu a reunião.

Nesta casa a que chamávamos a casa da avó, era a mais conhecida, porque havia sempre alguém para nos albergar, por isso era o nosso porto de abrigo. Ou porque tínhamos os calções molhados ou porque rasgámos a camisola, quando ao subirmos o valado da Tia Almerinda para irmos às laranjas, quando do nosso quintal também havia laranjas, então, as da vizinha eram as mais doces e vai daí, nestas ocasiões havia sempre uma agulha e um dedal prontos a trabalhar.

Era um prazer para os netos quando vínhamos da escola à hora do almoço, o primeiro a chegar a casa tinha direito ao ovo que encontrasse na capoeira, acabadinho de sair do cú da galinha e que a avó corria a fritá-lo estrelado, no entanto era bom que houvesse mais ovos, porque doutra forma havia briga.

Conheci bem cedo o valor da solidariedade muito vincada neste bairro dos pescadores, afinal o nosso bairro e depois havia a familiaridade, entre todos nós, porque se não éramos irmãos ou filhos, éramos com certeza primos e sim éramos primos uns dos outros e por aí fora. Dávamos pulos de contentes, descalços e mal enjorcados, mas felizes naquelas horas, porque a felicidade que sentíamos, brilhava em nossos olhos e aqueciam os nosso pés descalços, naquelas tardes de Inverno.

O primeiro ciclone da minha vida terminou, com o fim e início dos restantes ciclones, que iriam passar ao longo da minha vida.

João Paiva

Abril de 2026

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