quarta-feira, 29 de abril de 2026

ESCRITA NARRATIVA

 

Havia numa aldeia portuguesa, encostada ao rio e ao silêncio, uma miúda que só falava francês. Chamava-se Leonor, mas poucos o sabiam, porque ninguém lhe perguntava o nome: perguntavam-lhe antes porquê. Por que razão, numa terra de sinos e broas, aquela criança respondia bonjour quando lhe diziam bom dia. Por que motivo dizia merci ao invés de obrigada, e chorava em francês, com um choro mais comprido, quase musical. A mãe dizia que não era teimosia. Dizia que Leonor nascera assim, com a língua trocada no berço. O pai, homem de poucas palavras, encolhia os ombros como quem aceita o destino tal como aceita a chuva fora de tempo. Mas a aldeia não aceitava. A aldeia observa, cochicha, corrige. Na escola, a professora falava devagar, como se o português pudesse ser aprendido por osmose. Leonor ouvia, atenta, com olhos grandes, e respondia sempre em francês, com frases completas, educadas, impecáveis. Não errava um verbo. Errava apenas o país. As outras crianças riam-se. Chamavam-lhe a estrangeira, a parisiense, sem nunca terem visto Paris. Leonor não se defendia. Limitava-se a sorrir, um sorriso fino, como quem sabe um segredo que não pode traduzir. Às vezes, ao fim da tarde, sentava-se à beira do rio e falava sozinha. Em francês. O rio parecia entender. Corria mais manso, como se escutasse. Talvez fosse ali que a língua dela fazia sentido — na água, que não tem pátria. Um dia, chegou à aldeia uma mulher vinda de fora, com um lenço vermelho ao pescoço e livros debaixo do braço. Quando Leonor lhe disse bonsoir, a mulher parou. Sorriu como quem encontra casa depois de muito tempo. — Enfin, disse. Finalmente. Conversaram horas. Ninguém percebeu nada, mas perceberam tudo: Leonor ria alto, gesticulava, existia inteira. Pela primeira vez, não era um erro. Quando a mulher partiu, deixou um livro. Leonor guardou-o como quem guarda um espelho. Continuou a falar francês, é verdade. Mas já não o fazia sozinha. E a aldeia, aos poucos, aprendeu que nem todas as vozes nascem no mesmo lugar. Algumas vêm de longe para nos ensinar que o mundo é maior do que a nossa língua.


Conceição Parreira

Abril 2026

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