domingo, 5 de abril de 2026

ESCRITA NARRATIVA

LISBOA Ultima noite

Desembarquei do velho navio Carvalho Araújo, no Cais de Alcântara, vindo de Angra do Heroísmo, para embarcar no navio Niassa, com destino á guerra de Angola.

Fico a saber por um colega, que a minha mulher já se encontra no navio e que vai comigo para África.

Não quero acreditar, mas como é possível? Como um doido procuro por todo o navio a minha mulher, mas não a encontro, estão a bordo mais de três mil militares.

Como tudo isto aconteceu, não imagino, outra doidice, a minha mulher abandona o seu curso, para se integrar no meu contingente militar. Ainda julguei que se tratasse de uma enorme confusão. Eu não era militar de superior patente, dado que fui um miliciano, no cumprimento dos deveres militares e portanto não imaginava que fosse possível uma mulher acompanhar o seu marido.

Desisto de a procurar as cegas, dirijo-me ao meu comandante, outra carga de trabalhos para o encontrar, mas já sei notícias da minha mulher, agora estou no cais para me despedir dos meus pais e restante família.

Faço uma chamada de atenção para o que eram esses tempos conturbados com a guerra do ultramar. Militares a partir sem poderem despedir de suas mães. Não aconteceu comigo apesar de ter vindo dos Açores. Há sempre mais uns beijos e abraços de todos aqueles familiares que foram á Doca de Alcântara desejar boa sorte aos que partiam.

Voltei ao navio procurando a minha mulher, já sei onde se encontra, tenho o número do camarote e do respetivo convéns, foi fácil chegar até ela.

Depois de nos abraçar viemos a terra porque estavam os meus sogros que queriam abraçar e beijar a filha naquele início de dia, e de vida, desfeitos em lágrimas difícil foi separa-los.

Começa agora a acomodação dos soldados nos respetivos porões, porões pois então!Tristeza.

Sai do navio na companhia da minha mulher e com a obrigação de voltar na próxima madrugada e já ataviados, o que parecia uma coisa do outro mundo, eis que se torna realidade.

Devidamente camuflado, vagueamos pelas ruas mortas de Lisboa. Enquanto os meus colegas se foram divertir para as boites do antigamente.

Assim, subimos a Avenida da Liberdade, fomos ao Saldanha e acabamos a subir e a descer ruas até ao alvorecer, ouvimos ainda os primeiros pregões e o rebuliço tão peculiar das manhãs lisboetas.

Agora nós os dois o que pensamos e o que dissemos, já não sei, nem o que disse nem o que ouvi. O barulho dos elétricos já aí estão e até um polícia sinaleiro despediu-se de um jovem casal prestes a ir para a guerra. Por andarmos sós e longe da azáfama do cais de embarque, fomos bem vigiados e ainda ouve alguém que nos desejou boa sorte.

O que fizemos mais não sei, estamos a caminho do cais de Alcântara e já com o sol a nascer, onde vamos, encontramos outros militares que se preparam para partir e quantos de nós não irão regressar.

Alguns familiares ainda foram dar os últimos abraços e beijos e não tarda muito e o navio começa e desencostar do cais para iniciar a viagem de muitos dias e muitas lágrimas e foram muitas as que se juntaram às aguas do Tejo.

De pé e junto a uma amurada mais alta do navio, nos despedimos de Lisboa, desenhando um coração e gritando até ao meu regresso.

João Paiva

Abril 2026

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