(Um conto para os meus netos, sobre coragem e liberdade)
Era uma vez um reino à beira-mar chamado Portugal… durante muitos anos, esse reino viveu num longo inverno de silêncio. As pessoas falavam baixinho. Quase não cantavam. E tinham medo de dizer o que pensavam. As janelas ficavam muitas vezes fechadas e as ruas pareciam tristes.
Nesse reino mandavam feiticeiros poderosos, que criavam leis injustas. Eles proibiam certas canções, alguns livros e não deixavam as pessoas escolher livremente. Para terem a certeza de que todos obedeciam, usavam guardas secretos, que espalhavam o medo e terror por todo o lado.
Mas nem tudo estava perdido…
Em segredo, um grupo de jovens militares, chamados Capitães de Abril, começou a sonhar com um reino melhor. Eles sonhavam com ruas cheias de vozes, janelas abertas e canções livres ao vento. Não queriam lutar com violência, mas sim mudar o reino de forma pacífica, com coragem e união.
“E depois do Adeus” - Esse era o primeiro sinal.
Algumas horas depois, ainda de madrugada, ouviu-se outra canção:
“Grândola, Vila Morena” - Esse era o sinal final.
Quando a música tocou, os portões dos quartéis abriram-se. Soldados e carros tanques saíram para a rua e seguiram em direção à capital, não para atacar, mas para libertar o reino.
Ao nascer do sol, aconteceu algo muito especial.
Uma mulher simples chamada Celeste saiu de casa para ir trabalhar, levava consigo um ramo de cravos vermelhos. Ela nunca tinha sido militar nem usado armas. Quando um soldado lhe pediu um cigarro, Celeste não tinha nenhum para dar. Então ofereceu-lhe um cravo. O soldado sorriu e colocou a flor no cano da sua espingarda. Celeste ofereceu todos os cravos que tinha e todos os soldados colocaram o cravo no cano da espingarda. Nesse instante, as armas deixaram de ser assustadoras e meter medo. Onde antes havia balas, passou a haver flores.
Ao ver que tudo estava a acontecer em paz, o povo ganhou coragem. As pessoas saíram à rua, falaram, cantaram e abraçaram-se.
Os velhos feiticeiros perceberam que já não tinham poder. Sem o medo, não conseguiam mandar. Por isso, partiram, levando consigo o inverno de silêncio.
A partir desse dia, Portugal mudou. As janelas abriram-se, as pessoas puderam falar livremente e as canções voltaram a ouvir-se. A Liberdade passou a fazer parte da vida de todos.
E todos os anos, no dia 25 de abril, os cravos vermelhos voltam a aparecer para lembrar que, mesmo depois de um inverno muito longo, a primavera pode sempre chegar quando há coragem, união e vontade de mudar.
Assim, naquele abril de 1974, o REINO DO SILÊNCIO transformou-se, para sempre na PRIMAVERA DA LIBERDADE, porque a liberdade quando nasce do coração do povo floresce sempre.
Maria da Conceição Lavrador
(Abril 2026)

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