Desceu a rua devagar fingindo uma indiferença que não sentia. Olhou, quase de forma casual, a janela da Marcela como se isso não fosse o motivo desta passagem.
Andava meio doido, pensava nela de uma forma tão imensa que até parecia que estava impregnado do seu cheiro.
Olhou a montra do café, sem grande esperança, mas podia acontecer ela estar
lá, mas não, só o senhor Ascenso ao balcão ia ajeitando os bolos na vitrina.
Podia entrar e perguntar se a tinha visto hoje mas podia parecer mal e
tornar as coisas mais difíceis.
Ela não simpatizava com ele e já o tinha feito sentir. Foi no baile, da
Sociedade os Amigos do Grilo, que a convidou para dançar e ela com andar de
desdém o enxotou com um:
-Dá à sola menino e desampara-me a loja faz favor!
Adérito ficou triste mas aceitou a frase como um desabafo, afinal nunca
tinham sido apresentados e uma menina tem que saber manter as distâncias.
Ia ser persistente e quando ela se apercebesse das suas boas intenções ia
ter, de certeza, um comportamento diferente.
***
Pensou fazer uma serenata, mas aqui na terra era capaz de ser um pouco
insólito, pois as pessoas um pouco conservadoras reagiam mal a tudo que
fosse inovação. Mas como em tudo na vida há sempre um primeiro dia para
começar.
Ia escrever uma cantiga, não sabia bem como, pois nunca fizera nada do
género, mas como já havia dito, era preciso iniciar.
Pensou que o nome da sua amada não era fácil de rimar, pois para Marcela
apenas lhe vinha à cabeça vitela, o que diga-se não parece nada apropriado, nem
fivela e muito menos morcela.
Ah lembrou de repente que bela podia servir para a cantiga. Talvez
assim:
Marcela estou à luz da vela
Com o coração meio partido
A pensar em como tu és bela
Eu podia ser teu marido
Podíamos mesmo casar
Oh meu amor...meu amor
Não posso assim mais andar
Pensando em ti minha flor
Oh meu amor...meu amor
Oh meu amor desgraçado
Oh meu amor...meu amor
Tenho coração destroçado
De facto era difícil encadear esta rima de forma a impressionar a sua eleita,
tinha que ser algo de especial, quase mágico, que a entontecesse, frases em que
a paixão fosse tão evidente que a sufocasse.
Bem tentou mas a sua inspiração não ia além de um pobre verso de pé
quebrado um pouco piegas, reconheceu, mas nem todos podem ser poetas. Ele,
Adérito, era abegão e perito na sua arte.
Prantou-se frente ao espelho e fazendo ritmo com uma caixa de fósforos meia
cheia ou, se preferirem meia vazia, entoou de forma esganiçada
Oh meu amor....meu amor
Não posso assim mais andar
O pobre cão não estava à espera e não suportou, latiu e fugiu desesperado antes
que a casa desabasse.
Tomou nova posse e insistiu
Marcela estou à luz da vela
Com o coração .......
A caixa de fósforos tentava, em vão, seguir o ritmo sem o conseguir, não por
culpa dela, mas porque os soluços da voz não permitiam afinar qualquer som.
***
Levou quase toda a noite, testou estilos, poses e até chá de perpétuas roxas
para aclarar a voz. Quando o cansaço venceu, adormeceu em sonhos de Romeu sem
Julieta, em serenata ao som de bandolins que traziam nos trinados dos acordes
uma Marcela levitando como uma pétala de rosa que docemente ia poisar nas suas
mãos trémulas.
***
Era sábado, o dia estava cinzento, nostálgico, quase feito para o amor.
Adérito sentiu a mensagem, o chamamento, o momento. Sabia que tinha chegado
a hora.
Ao cair do dia ia avançar, tendo o lusco-fusco como aliado. Tomou posição
debaixo da janela da sua eleita, os fósforos estavam prontos na caixa meia
cheia, ou meia vazia.
Começou a aclarar a voz, nuns arranques libertadores dos resquícios do
tabaco, quando num repente São Pedro, talvez para não assistir ao assassinato
das musas, abriu as comportas e o diluvio caiu impiedoso sobre os fósforos
deixando a caixa empapada e a pingar.
Adérito, tal como a caixa, parecia uma esponja a gotejar.
Olhou com tristeza para a janela e pensou que não valia a pena, o destino não
deixava.
Se tivesse coragem ia comprar uma corda.
Mas a paixão não era assim tanta.
Ia aguentar.
Fevereiro 2021
Manuel Penteado

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