VIDAS QUE ASSINAM POR MIM
Prólogo
Chamo-me Francisco. Sou, para todos os efeitos, aquele que vos fala de si e de tantos outros que, no fundo, também são eu. Há quem diga que cada pessoa é um universo, mas descobri, ao longo dos meus dias e das minhas noites, que dentro de mim convivem muitos mundos, muitos nomes, muitas vozes. Não estou só, mesmo quando me isolo, há sempre outros a sussurrar, a contestar, a criar.
Foi numa tarde nublada, dessas que ameaçam chuva mas só trazem vento, que a palavra " heterónimos " se cravou na minha mente. Li-a pela primeira vez num livro de Pessoa, poeta que aprendi a venerar como quem venera um espelho cheio de reflexos.
Mas cedo percebi que a heteronímia não era apenas privilégio de poetas maiores; era,
de alguma forma, a expressão mais autêntica do que significa ser Francisco — ou, pelo
menos, deste Francisco ortónimo que vos escreve.
Heterónimos: Entre Máscaras e Essências
A heteronímia é, para mim, um exercício de liberdade e abismo. Inventar vozes é criar
realidades. Cada heterónimo é um modo de existir, um filtro para o mundo, uma maneira de respirar palavras novas. Pergunto-me, muitas vezes, se os meus heterónimos são máscaras que visto para esconder-me ou, ao contrário, se são saídas de emergência para me encontrar.
Neste livro, não pretendo apenas descrever os meus heterónimos, nem fazer deles personagens acessórias de um ego inflado. Pretendo, sim, contar as histórias de cada
um, explorar os seus mundos internos, compreender como convivem e colidem dentro deste corpo que assina como Francisco. Talvez, assim, descubra quem realmente sou ou se, afinal, ninguém é apenas um.
O Narrador Ortónimo
Francisco é um nome comum. Ortónimo é um título estranho. E, no entanto, juntos formam a minha identidade de base, o ponto de partida desta viagem. Serei o guia, mas aviso desde já: não procurem aqui uma história linear ou uma biografia tradicional. A cada capítulo, darei a palavra aos meus heterónimos, deixarei que eles próprios escrevam, debatam e inventem. O leitor será convidado a entrar num labirinto de vozes, onde não há saída garantida.
Este é o início do livro.
Um convite à multiplicidade, à dúvida, à celebração dos muitos que cabem em cada um. Venham comigo. Ou, melhor, venham connosco.
Conceição Parreira
Janeiro 2026
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