Os Afectos: As Cartas Que Nunca Escrevi
Reflexão sobre sentimentos guardados e palavras por dizer
Há uma beleza silenciosa nas cartas que nunca escrevemos. Elas existem dentro de nós como pensamentos inacabados, pedaços de sentimento que se mantêm suspensos no tempo, guardados com carinho e, por vezes, com um certo peso no peito. São confissões sussurradas ao travesseiro, desabafos silenciados pelo pudor ou pelo medo, palavras de amor, gratidão, perdão ou até mesmo despedida, que nunca saíram do papel porque faltou coragem, tempo ou oportunidade. Os afectos, esses laços invisíveis que nos unem aos outros, muitas vezes manifestam-se através de gestos, olhares ou pequenos detalhes do dia a dia. Mas há um poder especial na escrita, na carta que nunca chega ao destinatário. Nela, podemos ser inteiramente verdadeiros, sem filtros ou receios. Podemos confessar aquilo que o orgulho não deixou dizer, pedir desculpa por antigas mágoas, agradecer pelo que ficou por valorizar, partilhar sonhos que julgámos tolos demais para serem revelados. Penso nas cartas que nunca escrevi à minha família, onde cabem saudades, admiração e até desentendimentos reconciliados apenas na minha imaginação. Recordo os amigos de infância, a quem nunca disse o quanto marcaram a minha vida, e as paixões platónicas, eternizadas apenas na fantasia de um bilhete escrito e nunca enviado. Há também as cartas a mim próprio, onde gostaria de ter pedido mais compreensão, mais paciência, mais amor-próprio. Talvez guardar estas palavras seja uma forma de proteger os afectos, de mantê-los intactos, livres das imperfeições da realidade e das limitações da linguagem. Ou talvez escrever, ainda que nunca enviar, seja um exercício de libertação, uma forma de nos conhecermos melhor e de dar sentido ao que sentimos. As cartas que nunca escrevi são parte de mim. São o reflexo dos afectos mais profundos e genuínos, daquilo que permanece, mesmo sem testemunhas. Talvez, um dia, encontre coragem para lhes dar forma. Até lá, continuam a habitar o espaço íntimo do coração, onde as palavras são sentidas antes mesmo de serem pronunciadas.
Conceição Parreira-Janeiro 2026
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