quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

POESIA


Encontro de Heterónimos

Um poema sobre Adolfo, Sophie, Bernardo e o ortónimo Francisco


Na sala silenciosa de palavras por nascer,

Francisco senta-se, pena em punho e olhar vazio,

Mas dentro, fervilham nomes e vontades de ser:

Adolfo, Sophie, Bernardo — vozes num só fio.

Adolfo, com a gravata justa e o semblante preciso,

Calcula os versos como quem resolve equações.

Fala do mundo em traços firmes e raciocínio conciso,

Busca a ordem, a certeza, nas dúvidas e ilusões.

Sophie é brisa de tarde, riso solto no jardim,

A cor dos campos, o aroma da infância perdida.

Na sua voz, cabem as histórias de amor sem fim,

E um balançar de sonhos, leveza na vida.

Bernardo, por seu turno, é poeta de corpo e alma,

Vê o absurdo, o mistério, a dúvida constante,

Cultiva o espanto, a saudade, a coragem que acalma,

Dissolve no papel o medo e o instante.

Francisco — ortónimo, rosto sem máscara nem véu —

Observa e escuta o tumulto dos seus outros eus.

É fio condutor, é palco, é chão e é céu,

Onde Adolfo, Sophie e Bernardo habitam sonhos seus.

Assim se forma o poema: um encontro de identidades,

Cada qual com a sua voz, os seus mundos, as suas verdades.

Francisco sorri, sabendo-se plural e uno:

No universo dos nomes, é ele o destino comum.


Conceição Parreira

Janeiro 2026

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