CERTO DIA
AS VELHICES DE UM AVÔ (6)
Pela tardinha estava sentado em cima do cabeço de bombordo do buke de carga "Baldrico", onde era jovem tripulante, quando este se encontrava aportado numa doca de Lisboa, ali para os lados do Poço do Bispo, esperando pela maré , que nos levasse de regresso ao Montijo, agora carregados de farinhas para alimentação dos porcos.
Tarde soalheira e cujas águas do rio, espelhavam com o por do sol. Em cima daquele mesmo cabeço tinha jantado um belo petisco, que a minha mãe tinha cuidado de arranjar, quando ía para viagem, que era composto pelos saborosos torresmos do Ti Carlos Ramos, assim como um naco de chouriço da mesma procedência e algumas maçãs, mas as riscadinhas de Palmela, que os homens do mar tanto gostavam.
Estava fazendo horas para regressar aos meus "aposentos" junto á quilha bem mesmo á proa do barco, onde estendia a minha enxerga de palha de milho e me tapava com um cobertor de papa ás riscas vermelhas, amarelas e verdes. Bordado á nossa embarcação, encontrava-se um batelão carregado de arroz a granel, o mesmo deveria ter montes de gorgulho, dado a forma como estava estivado, sem respeitar qualquer regra de higiene e limpeza.
De repente chegou ao cais um casal, que eu conheci logo o homem pois tratava- -se de um tripulante do batelão.
- Salta diz ele para a rapariga.
- Não salto, tenho medo.
- Mas salta.
- Não salto
De imediato o homem salta para o porão do batelão, mesmo para o meio do arroz, onde se enterrou sem deixar rasto.
Eu e a rapariga gritámos e vieram em nosso socorro vários tripulantes que após a minha explicação, colocaram pranchas de madeira por cima do arroz e freneticamente procuraram o homem soterrado. Tendo encontrado a cabeça, com muita dificuldade lá o puseram de fora do arroz, ele ainda respirava, depois com a ajuda de uma ligeira grua o içaram e o colocaram no convéns da proa do barco, mas vivo.
Quanto á rapariga nunca mais a vi, possivelmente já tinha recebido o que lhe era devido.
João Paiva
Março de 2026
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