segunda-feira, 30 de março de 2026

MEMÓRIAS

 O ELÉTRICO Nº 18

 

Numa ida ao cinema encontrei uma amiga de infância que já não via há muitos anos. Quando o filme terminou acabámos por ir conversando pela rua fora. Fomos parar a um café junto à nossa antiga escola, que já não existe. Já na mesa, ela abriu a carteira e mostrou-me um documento que me fez viajar no espaço e no tempo.

Era um bilhete do elétrico nº 18 que apanhávamos todos os dias para a escola. O nosso bilhete era diferente, tínhamos que ir mais cedo do que as outras pessoas para termos acesso ao bilhete operário ida e volta. Chamava-se assim porque era mais barato do que o bilhete normal, pois no elétrico iam bastantes operários para trabalharem nas fábricas que existiam junto à escola.

A entrada nas fábricas era às 7 da manhã e a saída às 16 horas. As histórias contadas no elétrico nº 18 pelos operários eram cativantes, pois relatavam sempre o que se passava durante o dia na fábrica. Muitos dos nossos companheiros de elétrico tinham vidas duras. O Francisco, por exemplo, levava sempre a mesma comida na sua marmita: um caldo, uma fatia de pão com chouriço e nada mais.

Como eram sempre as mesmas pessoas que iam naquela viagem já éramos uma família. Às vezes, à tarde, quando regressávamos da escola, já passava um pouco da hora a que terminava a validade do bilhete, mas o nosso amigo guarda-freio, Manuel, fazia de conta que não via e não dizia nada. Que seria feito deles? Pensámos. Alguns já não estarão por cá. Estávamos a terminar o café quando ouvimos o ruído de um elétrico que atraiu o nosso olhar. Passou rápido, chiando sobre os carris. Por um segundo tive a ilusão de ver o nosso velho Manuel com as mãos no característico volante de ferro e, ao seu lado, o Francisco que nos acenava com uma mão e a sua marmita na outra.

Alice Faria

Março de 2026

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