terça-feira, 3 de março de 2026

MULHER

A Mulher Mundana: Entre o Mito e a

Realidade

Uma reflexão sobre a presença e o olhar feminino num mundo de

julgamentos

Dizem que há mulheres feitas de vento. Outras, de fogo. Mas, entre as esquinas e os silêncios da idade, há uma específica que sobrevive entre olhares enviesados e sorrisos cheios de segredos. Falam dela como quem fala de uma tempestade inevitável: a mulher mundana. Mundana. Palavra que carrega peso, que ressoa com o tilintar de moedas, com o rumor dos cafés ao entardecer, com o sussurro de histórias mal contadas. É mulher que caminha de cabeça erguida, olhando de frente para o mundo, sabendo, desde cedo, que cada passo pode ser motivo para um novo julgamento. Não se esconde, não se desculpa. Ocupa o espaço que tantos tentam negar-lhe. Em Lisboa, Porto, ou mesmo numa Dublin chuvosa de outono, a mulher mundana é presença inevitável. Não é só aquela que vive à margem das convenções, mas também a que reinventa todos os dias a sua própria liberdade. Falam dela com medo ou desdém, mas, sobretudo, com fascínio. Porque nela reside tudo o que a sociedade tenta domar: desejo, coragem, autonomia. A mulher mundana não necessariamente frequenta só salões ou cabarets. Pode ser a artista que recusa a vida pequena, a mãe solteira que ousou escolher outro caminho, a jovem que decidiu viajar sozinha, a executiva que se recusa a baixar o olhar perante o chefe. Mundana, para muitos, é sinónimo de mulher livre; para outros, de mulher perigosa. Ambas as leituras revelam mais sobre quem as faz do que sobre ela própria. Mas, afinal, o que teme o mundo nesta mulher? Talvez seja a constatação de que, em cada gesto seu, há uma recusa subtil às regras impostas. O medo de que a sua independência seja contagiosa, de que, ao vê-la, outras mulheres percebam que o mundo é um palco onde elas próprias podem escrever o guião. A mulher mundana não é heroína nem vilã. É humana, demasiado humana, e só por isso já incomoda. Vive exposta, é julgada—mas segue, sempre, com a altivez de quem sabe que, no fim do dia, o mundo pertence a quem ousa habitá-lo por inteiro. E enquanto houver quem tente reduzir a mulher mundana a uma narrativa de pecado ou escândalo, haverá também quem, secretamente, deseje a sua coragem. Porque, no fundo, todos ansiamos por essa liberdade: olhar o mundo sem pedir desculpa.

Conceição Parreira

Março 2026

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