quinta-feira, 30 de abril de 2026

ESCRITA NARRATIVA

MUITO ANTES DO VINTE E CINCO DE ABRIL

Fiz dezoito anos e nesse ano havia eleições e eu queria votar, já era homem e tinha conseguido prosseguir a carreira bancária, agora que tinha conseguido as habilitações necessárias para a promoção e para complemento só me faltava votar, como homem livre e trabalhador.

Não tive juventude, trabalho e estudos eram os meus horizontes.

Estudar no Externato da Dra.Ana Maria, não era possível para a bolsa dos meus pais, tanto mais que o estudo era pós-laboral e e não havia dinheiro. Distribui garrafas de Gaz que muito ajudou as finanças lá de casa, ainda bem que no Montijo, nessa época havia muito poucos primeiros andares predominava os rés do chão, o que para mim era uma sorte, pois que meu pai pescador de tapas esteiro e minha mãe nas limpesas.

Clandestinamente participei em reuniões que se realizavam nos velhos armazéns da cortiça, junto ao forno da cal. Sujeitos ás investidas do cabo Joaquim da Guarda Nacional Republicana e que para os colegas que não sabiam nadar, era mau porque ficavam sujeitos ás patifarias, mas os outros em que me incluía, nadávamos para outro lado do rio.

Para mim foi terrível porque despi a samarra do meu pai e a atirei ao rio para que melhor pudesse nadar, mas a samarra nunca mais a vi.

Ano de eleições, mãe quero votar, sim filho levas uma camisa branca, umas calças vincadas, sapatos engraxados e ficas a preceito para poderes votar.

Bicha para se votar, ali por cima dos armazéns do Nelson, na Calçada. Lá ía chegando á mesa de voto, presidida por um homem de bem, de boa família que nos deu de comer muitas vezes e eu sorridente cheguei á mesa.

- O que fazes aqui? Perguntou o presidente da mesa.

- Venho votar, respondi com tranquilidade.

- Tu vais é daqui para fora,o mais rapidamente possível. Nunca soube as razões, mas pela vida fora soube analisar perfeitamente tal situação.

Eu fui, não era eu, não sei quem era, mas a minha avó e a minha mãe secaram-me as lágrimas.

Fiquei muitos anos esperando por outro dia contrário a este, mas ele não aparecia. E eu a ver os meus colegas ficando para traz, palmilhando os caminhos que eu percorri lamentavelmente.

No banco onde trabalhava já há alguns anos, porque para lá fui com treze, não se podia falar em política e imaginar agora como era essa vida, que apenas tinha como horizonte, a espera do meu pai vinda do mar e que eu o ajudaria no amanho das redes e na limpeza da canoa.

Outra grande anomalia me ia apanhar durante alguns anos, a minha carreira militar ía dar cabo de todos os meus projetos e o Curso de Contabilidade e Pagadoria ía ficar para traz, onde em troca me era oferecido (obrigado) o Curso de Milicianos em Mafra, que nos preparava para uma terrível guerra, que bastante me marcou.

Três da manhã toca o telefone, já não me lembro quem foi o felizardo que me telefonou a dar a notícia, por tanta gente desejada. Dei dois ou três gritos de alegria e repentinamente guardei uma medalha militar, não fosse alguém tirar-me tanta alegria.

Primeira alegria no 25 de Abril, já posso votar, tardiamente mas possível, mas ninguém me tira as mágoas passadas, só sei que levei quase toda a família a votar.

Freneticamente passei a participar pelo bem estar dos operários corticeiros, pelas mulheres dos porcos e pelos pobres pescadores.

Ainda no Banco passei pelo período onde não se podia falar de política e quem não obedecia ía para a rua, mas agora podemos gritar bem alto pelos nossos direitos, pois sim meu irmão. Resta um tempo para contar algumas histórias, bem credenciadas, como aquela em que levei a minha avó Sofia, com os seus cem anos a votar, coisa inédita para ela.

João Paiva

Abril de 2026

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