A antiga vila do Jarmelo localiza-se numa ramificação da Serra da Estrela, a cerca de quinze quilómetros da cidade da Guarda, numa posição estratégica que permitia o controlo das rotas entre o Planalto Beirão e a fronteira com Castela. Atualmente, o seu território reparte-se entre as freguesias de São Pedro e São Miguel do Jarmelo, tendo o antigo castro um papel organizador do espaço.
Neste cume ventoso do Jarmelo, onde hoje as pedras guardam um silêncio austero, ecoa ainda o rumor de uma maldição antiga. Diz a lenda que aquela que foi uma das mais prósperas vilas da Beira não sucumbiu ao tempo, mas à fúria de um rei ferido pelo luto.
Cresci a ver, da janela, o cume do Jarmelo recortado contra o céu. A sua presença constante, imóvel e silenciosa, acompanhou os meus dias muito antes de eu compreender o peso histórico e simbólico daquele lugar. Ao mesmo tempo, fui ouvindo a lenda repetida em tom quase ritual, tantas vezes contada que deixou de ser apenas uma história para passar a fazer parte da paisagem interior. Entre aquilo que via e aquilo que escutava, o Jarmelo foi-se tornando um espaço onde memória pessoal, tradição oral e identidade coletiva se confundem.
A memória histórica da localidade está profundamente associada à lenda do assassínio de Inês de Castro, segundo a qual um dos seus assassinos seria natural do Jarmelo. A tradição refere que, após a subida ao trono de D. Pedro I, a vila teria sido arrasada como forma de vingança régia. Apesar da falta de confirmação documental, esta lenda permanece central na identidade simbólica do lugar.
No antigo Jarmelo, a relação entre história e memória estende-se também à arte contemporânea. Destaca-se o conjunto escultórico Homenagem a Inês de Castro, composto por sete peças em ferro inauguradas em 2006 e concebidas por Rui Miragaia, que evocam episódios ligados à lenda. A escolha do ferro e a disposição das esculturas ao longo do percurso para o castro reforçam a integração paisagística e a dimensão narrativa do local. Outras intervenções artísticas, como uma escultura inspirada na vaca jarmelista, contribuem igualmente para a valorização e reinterpretação da identidade local.
Convido todas as pessoas a visitar o Jarmelo e a descobrir de perto as suas paisagens, histórias e manifestações artísticas. Uma caminhada pelo antigo castro, acompanhada pela observação das esculturas e pela vivência das tradições locais, oferece uma experiência única de aprendizagem e partilha, ideal para quem procura enriquecimento cultural e momentos de convívio.
Venha conhecer o Jarmelo e deixe-se envolver pela sua identidade singular.
Conceição Lavrador
Abril/2026
Sem comentários:
Enviar um comentário