domingo, 31 de maio de 2026

ESCRITA NARRATIVA

VOU JANTAR AO MONTIJO, NO MEU VELEIRO

Manhã cedo, tenho o barco em ordem, vistoriado pela autoridade marítima, desde a quilha ao convés, de nome Argonauta,

uma antiga traineira, que fez parte da armações algarvias na pesca do atum, foi arqueado em barco de recreio, com mastro e duas velas, sendo uma latina e a outra carangueija, um motor fixo a gasóleo, uma roda de leme antiquíssima e uma hélice em bronze, com quatro beliches, com sala de estar, casa de banho, devidamente cabinado e de popa redonda, era um belo barco, aguentava bem o mar.

Comecei a navegar neste barco em pleno Rio Sado, com a família, mas quem mais me acompanhava era a minha filha Susana e fizemos algumas viagens sozinhos.

Ganho coragem e faço-me ao mar sozinho, rota: Setúbal, porto de partida, agora pela frente Arrábida,Sesimbra, Cabo Espichel, Cascais, Forte de S.Julião da Barra, Ponte 25 de Abril, Cacilhas, Mar da Palha, Seixalinho e Montijo.

Quando estou no barco, pronto a largar os cabos e começar a navegar sozinho, não é para todos e porra foi difícil largar aquele cabo que ainda me agarrava a terra, cabo solto vamos embora, não há azimutes, não há rádio, não há qualquer instrumento de navegação, apenas uma bússola. Cá vamos eu e o meu Argonauta, estou a deixar a estibordo a doca do Naval, não tarda muito e estou em Albarquel, venho a navegar em motor, mas estou com vontade de largar as velas, mas como estou sozinho e a maré começa a encrespar, não me sinto com confiança para tal, assim continuo motorizado.

Com toda a atenção que dedico à navegação, até porque me cruzo com pesqueiros e há que ter cuidado, presto também atenção às maravilhosas paisagens da Serra da Arrábida, que esconde aos seus transeuntes, mas eu estou no mar e tenho o privilégio daquela majestosa vista.

Neste momento estou a cruzar com um pesqueiro que se aproxima de Sesimbra e que me acenam com estima e assim tenho a estibordo o cabo Espichel e vários pequenos pesqueiros, cheguei às aguas do Atlântico, que coisa tão estranha, encontro-me só no mar, mentira algumas gaivotas vieram cumprimentar-me e sou ultrapassado por bombordo por uma lancha rápida, que julgo tratar-se da autoridade marítima. Vou a navegar com Cascais á vista, por bombordo tenho toda a costa que vai do Espichel até á Trafaria, onde ficam situadas todas as maravilhosas praias da Costa da Caparica.

Vou a aproximar-me do Bugio, quero passar pela argolada ou seja o mar que fica entre o Bugio e a Trafaria, mas não arrisco, continuo a navegar em mar aberto, agora tenho à proa a linha do Estoril e vou rumar em direção à Ponte sobre o Tejo.

Entretanto aproveitei para saborear o petisco que a minha mulher me arranjou, o que quer dizer é que passo sob a ponte, mas já com a barriga cheia e aqui mais do que nunca tenho muitas gaivotas por companhia, porque me encontro precisamente na rota de entrada de navios de grande porte e consequentemente no seu rasto ficam detritos provenientes das cozinhas. Esse rasto com bom tempo é visivel.

Compreendo como é proibido aos barcos lançarem borda fora os seus detritos relacionados com a alimentação, porque também sou contra quando fazem limpezas de porões e todos aqueles produtos químicos vão parar ao mar, estou inteiramente de acordo com a resolução. Mas depois vejo todo e qualquer cidadão encher o mar de plásticos e outros utensílios e não estão sozinhos porque grande parte dos esgotos vão parar ao mar, sem qualquer tratamento ou reciclagem. Começam agora a falar em instalações para tratamento de resíduos de esgotos antes de irem parar ao mar.

Bom estou a desviar-me do rumo, olho para cima e vejo a ponte com todos aqueles carros em movimento, há um som estranho, que só o ouvimos quando navegamos junto ou sob aquela medonha estrutura. Mas vou agora perdendo aquele som e entretanto aceno à tripulação de um grande cargueiro que se faz ao mar e sou correspondido. Encosto-me à margem esquerda do Tejo por ser mais tranquila e dou comigo a fazer rumo em direção à Praça do Comércio, esta alteração deveu-se ás correntes do rio, porém deixo-me disfrutar a bela praça e da maravilhosa paisagem que ela me oferece.

Base Aérea 6 à vista e não tarda muito e estou a entrar no braço do Tejo que me leva ao Montijo. Já me arrependi de fazer esta rota porque há muito movimento do rio e sobretudo pela rota dos cacilheiros que fazem as carreiras entre o Terreiro do Paço e Cacilhas, Trafaria, Barreiro e Montijo, por ter escolhido esta rota, assumi grande responsabilidade.

Cheguei ao Mar da Palha, com o Montijo no horizonte e deixo um grande pontão a estibordo, onde grandes navios descarregam gás para o Rosarinho a fim de ser comercializado depois de enchidas as tão características garrafas.

Quando estou a navegar, tranquilamente, já com a ponte dos vapores à vista, verifico que à minha proa apareceu um cardume de robalos, como eu nunca tinha visto, corro pelo convés para apreciar devidamente aquele movimento de peixes. Porém diz-se que um marinheiro nunca vai borda fora, pois eu estive quase, tropecei num cabo solteiro que esta preso numa das pontas e aí vou eu agarrado à amura, quase a cair ao rio, lá me segurei àquilo que pude e acabei estatelado no convés juntinho ao cabeço da proa, ainda deitado voltei-me de barriga para cima e agradeci aos Deuses por não estar na água e a afogar-me, tudo por causa de um cabo solteiro, que há muito deveria ter casado.

A maré está a vazar e a corrente é contrária á minha progressão, portanto vou fundear junto ao cais da Base Aérea e esperar pela preia-mar, entretanto aproveito para descansar um pouco e acabar com o resto do petisco e também dormir. Quando acordo quero de imediato terminar a viagem e assim vou rio abaixo até ao cais, é preciso alguma cautela para não sair da cale. Esta está bem marcada, mas um descuido e atira-me para o lodo e eu não quero passar a noite no rio, até porque vou jantar a casa dos meus pais, onde já se encontra a minha mulher.

Este resto de viajem já o faço acompanhado de muita gente conhecida, que ganha a sua vida neste braço do Tejo, pessoas que conheço deste pequeno, com quem jogava à bola e ao berlinde e à noite íamos caçar morcegos com paus de vassoura. Ainda mantive conversa com estes amigos, porque vir de Setúbal de barco para jantar na casa dos meus pais, foi coisa inédita e bastante comentada, enquanto alguns me chamaram de maluco e para outros era um heroi.

Com o meu barco bem visível ao longe, a verdade é que cheguei ao cais e já lá tinha a família á minha espera, e de todos os receios já se tinham esquecido com a minhas chegada.

Entretanto é quase noite, vou só arrumar o convés e também guardar alguns apetrechos para deixar o barco bem arrumado e tudo feito por uma só pessoa, apanágio de qualquer marinheiro que quer ver sempre o seu barco bem aperaltado.

Já estou no meu Simca mil a caminho de casa dos meus pais, conduzido pela minha mulher, jantar e ir para a feira, porque estamos no S.Pedro, festas bastantes populares na nossa terra.

A noite está a terminar e nós temos que voltar para Setúbal, até porque sergunda feira é dia de trabalho para todos e o

barco terá quer ficar amarrado no cais do Montijo.

Durante a semana começo a tratar do regresso do barco a Setúbal, por isso só posso ir tratar dele no sábado á tarde e partir para a viagem de regresso, logo que a maré determine, o que veio a acontecer por volta da meia noite.

O regresso é feito com uma tripulação de cinco ou seis homens, amigos, pronto tudo bem, vamos aproveitar o que resta das festas e á uma da madrugada toda a gente a bordo, para aproveitarmos a vazante da maré, para chegar ao mar da Palha o mais cedo possível. Tive o cuidado de guarnecer o barco para dois dias de viagem, com mantimentos suficientes, por que quem vai para o mar avia-se em terra,

Já estou o bordo, pronto a receber a tripulação, composta por cinco ou seis elementos, incluindo o meu filho.

Olho para o grupo e digo, parabéns ninguém desistiu. Portanto largar a amarra e motor a trabalhar. toda a gente amontoada á proa, felizmente está uma linda noite para navegar, alguns pássaros e peixes a saltar e agora desfrutar a vista que nos é oferecida, pela iluminação das festas e por alguns foguetes que ficaram para o fim.

Primeira baliza ultrapassada, com a acalmia do rio e o barulho do motor, dá para aliviar os problemas e contar uma ou duas anedotas, já passamos o Seixalinho e não tarda estamos a passar a Base Aérea por estibordo e começamos a vislumbrar

a neblina sobre a Ponte 25 de abril, onde devemos chegar ao nascer do sol. Mas atenção estamos no Mar da Palha e aqui já não há calma, começa o mar a encrespar e alguns balanços já se notam no barco. Na cabine reparo que um ou outro companheiro a marear e começo a gozar com eles, o tempo começa a desalvorar e todo o cuidado é pouco.

Toda a gente gostou de passar por baixo da ponte, para alguns nunca mais ouve outra oportunidade, mas atenção com os balanços já caíram uns copos e umas garrafas e alguns tripulantes estão amarfanhados junto á amura da proa evitando a todo o custo de deitar carga ao mar.

Somos ultrapassados por um veleiro que a todo pano galgava as ondas em direção ao Atlântico, como se nada passasse com ele, em sentido contrário, passa por nós um pesqueiro, que navega com a proa de baixo de água, cujo mestre me aconselha a aportar a qualquer cais da margem direita, porque lá fora está muito mau tempo.

Aqui sim apercebi-me que o tempo estava toldado e comecei a ter dificuldades em voltar para traz e sobretudo quando uma onde invade o barco pela popa, situação que me obrigou a mandar vestir coletes, mas a maioria da tripulação nunca tinha tido em mãos tal objeto e alguns agarraram com toda a força mas sem o vestirem. A preocupação agora está comigo e quando vejo o meu primo Abílio vestir o colete pelos pés, ai fiquei de tal modo preocupado, que naveguei conforme o mar me deixava para junto do Forte do Bugio, porque em maior dificuldade eu levava o barco a encalhar na praia do forte o que

esteve para acontecer por breves instantes, altura em que também o meu filho tenta segurar o coco e quase vai borda fora agarrado ao pequeno barco, ele não foi, mas o coco ninguém mais o viu.

Reparo que o veleiro que horas antes me ultrapassou, para se fazer ao mar, está de volta, enquanto eu naquele turbilhão de vagas tento rumar á doca mais próxima o que veio a acontecer, mas com muita dificuldade e com toda a minha tripulação inativa, molhados, com frio, mas todos no convés, ninguém desceu para a coberta, tal foi o susto. Neste ultimo percurso fui aconselhado por mais dois mestres a seguir o rumo de levava em direção a terra.

Ainda mal tinha atracado o barco e já não tinha tripulação no barco nem os via por perto, todos abalaram para bem longe da doca, apenas um voltou para traz para me fazer companhia no regresso a Setúbal. Com o mau tempo em cima, chegou a

hora do almoço, vamos para terra procurando forma de nos alimentar convenientemente, o que na realidade aconteceu. Bem alimentados regressamos ao Argonauta e depois de uma vistoria ao barco, fui dormir enquanto o meu colega ficou a observar o movimento marítimo, mas por pouco tempo, até que me vem chamar para assistir ao acidente com um veleiro alemão, que devido ao mau tempo foi encalhar na praia do Bugio, aquela a que eu antes queria aportar.

Saíu para socorrer o veleiro, o barco de socorros a náufragos, assim como uma lancha da Guarda Fiscal, que estiveram próximo de um naufrágio, o veleiro lá ficou adornado, não sabendo mais nada, até porque se fez noite e havia que dormir, mas antes ainda fomos jantar a terra e que bem nos soube.

Pouco dormi na doca e pela madrugada já estava a pé e o que vi? Um mar sereno, sem qualquer ponta de vento. como se diz um dia maravilhoso. Apetrechar o barco, motor a trabalhar, bússola indicando o rumo até ao Cabo Espichel e aí vamos a navegar em chão de senhoras. Cruzamos e acompanhamos muitas embarcações de pesca e uma das que passou por nós foi o veleiro que no dia anterior, também ele voltou a traz em direção a doca. Quanto ao veleiro que ontem encalhou na praia do Bugio, por lá ficou, e como está bom tempo talvez se safe mais depressa.

Agora junta-se a nós um barco de recreio,que foi remodelado de uma velha embarcação muito bonita e a cair para o luxo, cujo mestre me veio cumprimentar e quis saber para onde navegávamos, depois disse-me que ía para Setúbal, pelo que navegamos á vista, mas como ele é muito veloz, lá fiquei para traz e com tempo para saborear o petisco que tinha sobrado do dia anterior e como era abundante também deu para o meu camarada. O Cabo Espichel estou a dobrar com calmaria na companhia de vários pesqueiros que trabalham, ao longo da costa e agora para dentro do Rio Sado. Tempo limpo o Sol jáqueima e tenho pela proa a vista maravilhosa da Península de Tróia, a maré está a encher e por isso estamos a navega rmuito bem, assim sendo vou direitinho ao estaleiro do Miguel.

Com vagar, nada de pressas, então não é que encalhei mesmo junto á marca, que fica mesmo em frente de Tróia, como a água começa a vazar, não tive outra alternativa que não fosse esperar pela nova maré, para desencalhar o barco, o que não foi difícil agora eu que vinha armado em navegador de mar alto, venho mesmo encalhar no mar baixo, isto é já dentro do rio, que grande melão que eu apanhei, tanto mais que os meus ex-camaradas estava na margem do rio a assistir ás manobras de desencalhe, como sempre acontece só desencalhei na maré seguinte e pela madrugada, já estou no estaleiro esperando pelo Miguel.

A entrada em Setúbal, pelo rio é linda, temos a estibordo todo o areal de Tróia, assim como também se vislumbra todo o arvoredo que em conjunto com toda a urbanização oferece aos visitantes momentos inesquecíveis, por bombordo temos toda a paisagem da Serra da Arrábida, sobre o rio onde se encontram as belas praias inseridas na baía mais linda do mundo e neste dia limpo e tranquilo, originou que fizesse a melhor viagem entre Montijo e Setùbal.

Os meus familiares chamavam-me maluco por fazer estas viagens, porque haviam alguns profissionais do rio que nunca tinham navegado no Mar da Palha, chegavam à Base Aérea e voltavam para o cais.

Mas sempre que eu estava atracado no Montijo, tinha sempre pescadores comigo que se admiravam das viagens que eu fazia e sobretudo ajudavam a limpar o fundo do barco, dado as muitas algas que se prendiam no casco.

Até que um dia caiu mau tempo e o barco que tinha sido ancorado, mais ou menos tranquilo, no entanto a ondulação suspendeu a ancora e foi arrastado para junto de uma velha muralha. Antes de o barco bater nas pedras alguns familiares foram noutra embarcação e conseguiram salvar o argonauta, quando estes estava prestes a bater nas pedras, ainda hoje guardo uma ancora que me ofereceram após terem salvo o barco. Aqui fica um grande abraço para todos aqueles que praticaram tal ação.Todos eram pescadores, aqui e ainda meus familiares.

Estava escrito que o meu barco se iria afundar devido ao mau tempo que assolou o Rio Sado.

João Paiva

Maio de 2026

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