quarta-feira, 13 de maio de 2026

O PULSAR DE MARRAQUEXE

O calor da tarde ainda pairava no ar quando os meus passos me conduziram, quase por instinto, ao coração magnético de Marraquexe, a Cidade Vermelha. Entrar na Praça Jemaa el-Fna ao pôr do sol é aceitar o convite para um espetáculo vivo. O fumo das bancas de comida misturava-se com o aroma a cominhos e hortelã, enquanto tambores e encantadores de serpentes disputavam a atenção da multidão. Era o caos em perfeita harmonia.

Deixei a praça para trás e aventurei-me pelo labirinto dos Souks. Ali, o tempo parece seguir outra velocidade. Perdi-me voluntariamente entre ruelas estreitas: lanternas de metal reluziam sob a luz fraca e montanhas de especiarias coloridas desenhavam pirâmides perfeitas. O som dos artesãos a moldar couro e metal criava a banda sonora daquele formigueiro humano.

Ali perto, os meus olhos ergueram-se para a silhueta imponente da Mesquita Koutoubia. O seu minarete, uma obra-prima da arquitetura almóada, dominava o horizonte. Embora o interior guardasse mistérios inacessíveis, o exterior emanava uma serenidade que ancorava a cidade à sua história espiritual.

Afastei-me das muralhas da Medina em direção ao Jardim Majorelle. O impacto visual foi imediato. O azul-cobalto das paredes, profundo e luminoso, contrastava num golpe de cor com o verde vivo dos catos gigantes e das palmeiras. Caminhar por aqueles trilhos sombreados, outrora resgatados por Yves Saint Laurent, foi o fecho perfeito: um mergulho na frescura, na arte e na tranquilidade.

Noutro momento, atravessei também a parte nova da cidade, longe das ruelas da Medina. As grandes avenidas abriam-se em traçados amplos, com palmeiras a marcar o caminho, e os edifícios modernos, de vidro e betão, refletiam a luz quente do fim do dia. Entre cafés contemporâneos e o trânsito constante, Marraquexe mostrava outra face: mais ordenada, mais recente, mais cosmopolita — e, ainda assim, atravessada pelo mesmo pulso inquieto.

E ainda houve tempo para um desvio até aos Jardins Menara, onde a cidade abranda como se respirasse mais fundo. O grande espelho de água, tranquilo, devolvia a imagem das oliveiras alinhadas e, ao fundo, o recorte das montanhas do Atlas parecia flutuar na distância. Por instantes, observei o vaivém discreto de famílias e viajantes, e percebi que Marraquexe também se revela assim: não só no movimento, mas nessa luz serena que fica depois do som.

Marraquexe não se visita apenas: respira-se no fumo das bancas e na hortelã, escuta-se no choque dos tambores e no murmúrio das ruelas, e guarda-se na memória tanto pelo burburinho da Medina como pela geometria luminosa das grandes avenidas — e pelos instantes de pausa, quando o Atlas parece vigiar ao longe.  Marraquexe estranha-se, mas depois entranha-se”.

Maria da Conceição Lavrador

Maio 2026


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