O
calor da tarde ainda pairava no ar quando os meus passos me conduziram, quase
por instinto, ao coração magnético de Marraquexe, a Cidade Vermelha.
Entrar na Praça Jemaa el-Fna ao pôr do sol é aceitar o convite para um
espetáculo vivo. O fumo das bancas de comida misturava-se com o aroma a
cominhos e hortelã, enquanto tambores e encantadores de serpentes disputavam a
atenção da multidão. Era o caos em perfeita harmonia.
Deixei
a praça para trás e aventurei-me pelo labirinto dos Souks. Ali, o tempo
parece seguir outra velocidade. Perdi-me voluntariamente entre ruelas
estreitas: lanternas de metal reluziam sob a luz fraca e montanhas de
especiarias coloridas desenhavam pirâmides perfeitas. O som dos artesãos a
moldar couro e metal criava a banda sonora daquele formigueiro humano.
Ali
perto, os meus olhos ergueram-se para a silhueta imponente da Mesquita
Koutoubia. O seu minarete, uma obra-prima da arquitetura almóada, dominava
o horizonte. Embora o interior guardasse mistérios inacessíveis, o exterior
emanava uma serenidade que ancorava a cidade à sua história espiritual.
Afastei-me
das muralhas da Medina em direção ao Jardim Majorelle. O impacto visual
foi imediato. O azul-cobalto das paredes, profundo e luminoso, contrastava num
golpe de cor com o verde vivo dos catos gigantes e das palmeiras. Caminhar por
aqueles trilhos sombreados, outrora resgatados por Yves Saint Laurent, foi o
fecho perfeito: um mergulho na frescura, na arte e na tranquilidade.
Noutro
momento, atravessei também a parte nova da cidade, longe das ruelas da Medina.
As grandes avenidas abriam-se em traçados amplos, com palmeiras a marcar o
caminho, e os edifícios modernos, de vidro e betão, refletiam a luz quente do
fim do dia. Entre cafés contemporâneos e o trânsito constante, Marraquexe
mostrava outra face: mais ordenada, mais recente, mais cosmopolita — e, ainda
assim, atravessada pelo mesmo pulso inquieto.
E
ainda houve tempo para um desvio até aos Jardins Menara, onde a cidade
abranda como se respirasse mais fundo. O grande espelho de água, tranquilo,
devolvia a imagem das oliveiras alinhadas e, ao fundo, o recorte das montanhas
do Atlas parecia flutuar na distância. Por instantes, observei o vaivém
discreto de famílias e viajantes, e percebi que Marraquexe também se revela
assim: não só no movimento, mas nessa luz serena que fica depois do som.
Marraquexe
não se visita apenas: respira-se no fumo das bancas e na hortelã, escuta-se no
choque dos tambores e no murmúrio das ruelas, e guarda-se na memória tanto pelo
burburinho da Medina como pela geometria luminosa das grandes avenidas — e
pelos instantes de pausa, quando o Atlas parece vigiar ao longe. “Marraquexe estranha-se, mas depois entranha-se”.
Maria da Conceição Lavrador
Maio 2026
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