domingo, 24 de maio de 2026

POESIA


A minha vida é uma banalização da escuridão —

como se a noite tivesse alugado quarto

dentro dos meus ossos.

Já não me assusta o escuro.

Assusta-me a facilidade

com que aprendi a chamá-lo de casa.

Há sombras sentadas à mesa comigo,

bebem do meu silêncio

e conhecem o nome de todas as minhas quedas.

Às vezes sorrio.

Mas é um sorriso cansado,

daqueles que acendem por fora

e morrem antes de chegar aos olhos.

Transformei o abismo em rotina,

a dor em mobília antiga,

e a tristeza já entra sem bater à porta.

No entanto,

há qualquer coisa em mim

que ainda resiste —

uma espécie de fósforo húmido,

quase apagado,

mas teimosamente vivo.

Porque até a escuridão,

quando é observada durante demasiado tempo,

acaba por confessar

que nasceu da ausência de luz.


Conceição Parreira

Maio 2026


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