A minha vida é uma banalização da escuridão —
como se a noite tivesse alugado quarto
dentro dos meus ossos.
Já não me assusta o escuro.
Assusta-me a facilidade
com que aprendi a chamá-lo de casa.
Há sombras sentadas à mesa comigo,
bebem do meu silêncio
e conhecem o nome de todas as minhas quedas.
Às vezes sorrio.
Mas é um sorriso cansado,
daqueles que acendem por fora
e morrem antes de chegar aos olhos.
Transformei o abismo em rotina,
a dor em mobília antiga,
e a tristeza já entra sem bater à porta.
No entanto,
há qualquer coisa em mim
que ainda resiste —
uma espécie de fósforo húmido,
quase apagado,
mas teimosamente vivo.
Porque até a escuridão,
quando é observada durante demasiado tempo,
acaba por confessar
que nasceu da ausência de luz.
Conceição Parreira
Maio 2026
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