A VOZ DO POETA
Eu não sonho pequeno,
que isso é coisa de quem tem medo.
Eu sonho largo, aberto, inteiro,
como um grito que rasga o peito
e se recusa a morrer em segredo.
Sou poeta,
e isso basta para me faltar tudo
e ainda assim sobrar-me o mundo.
Trago nos bolsos
o vento das palavras por dizer,
trago nos olhos
as cidades que ainda não existem,
e no sangue
uma febre antiga
que me empurra para viver. Para sonhar
Ah, que o sonho do poeta
não é dormir,
é incendiar a realidade
até ela acordar!
É pegar no dia cinzento
e virá-lo do avesso,
é chamar pelo sol
quando o céu insiste em negar,
é dizer “há mais”
quando tudo grita “não há”.
E eu digo:
há!
Há dentro de cada rua cansada
um poema à espera de nascer,
Há em cada esquina, um verso,
uma criança a brincar,
ao entardecer,
há dentro de cada gesto calado
uma revolução por acontecer.
O poeta não pede licença,
entra.
Não bate à porta,
arromba.
Porque o seu sonho
não cabe em molduras, ou taças,
não se dobra em silêncio,
não se vende em parcelas de rotina.
O sonho do poeta é perigoso,
tem dentes,
tem punhos,
tem asas.
E quando levanta voo,
meu amigo,
não há chão que o prenda.
Por isso escrevo,
não para ser eterno,
mas para não ser ausente.
Escrevo
porque o mundo, às vezes,
esquece-se de respirar.
E alguém tem de lembrar-lhe,
Respira. Acorda...
Bernardino Traquete
Maio de 2026
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