quinta-feira, 22 de outubro de 2026

POESIA

 A TERRA DE NINGUÉM

Há um lugar onde ninguém mora.

Não aparece nos mapas, não tem fronteiras, nem caminhos assinalados.

É uma terra feita de espera.

Chega-se a ela quando a vida nos tira o chão e ainda não nos ofereceu um novo horizonte.

Ali, o tempo caminha descalço.

As horas deixam de contar os dias e passam apenas a respirar.

Foi nessa terra que aprendi o verdadeiro peso do silêncio.

Não o silêncio que nasce da ausência, mas aquele que nos obriga a ouvir a voz escondida dentro de nós.

No princípio, tive medo.

As paisagens pareciam vazias.

As árvores erguiam os braços como quem procura uma resposta no céu.

O vento atravessava os campos sem encontrar uma única palavra.

Depois, devagar, comecei a reparar que a terra de ninguém estava cheia de pequenas vidas.

Uma flor nascida entre as pedras.

Uma ave que insistia em cantar antes do amanhecer.

Uma semente que rompia a terra sem perguntar se era o tempo certo.

Foi então que compreendi.

Há lugares que parecem abandonados apenas porque estão à espera de um coração capaz de os reconhecer.

Também nós somos, por vezes, essa terra.

Um espaço onde a esperança parece ter partido.

Um campo onde o passado já não floresce e o futuro ainda não lançou raízes.

Mas é precisamente aí, nesse intervalo invisível, que a vida prepara o seu milagre.

Nenhum rio nasce caudaloso.

Nenhuma árvore oferece sombra no dia em que germina.

Nenhum ser humano se encontra sem primeiro se perder.

Hoje, quando volto a essa terra sem nome, já não a vejo como um lugar de abandono.

Vejo-a como o primeiro degrau de todas as recomeçadas.

Porque descobri que a terra de ninguém é, afinal, a terra onde começamos, pela primeira vez, a pertencer a nós próprios.


Conceição Parreira

Outubro de 2026

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