A TERRA DE NINGUÉM
Há um lugar onde ninguém mora.
Não aparece nos mapas, não tem fronteiras, nem caminhos assinalados.
É uma terra feita de espera.
Chega-se a ela quando a vida nos tira o chão e ainda não nos ofereceu um
novo horizonte.
Ali, o tempo caminha descalço.
As horas deixam de contar os dias e passam apenas a respirar.
Foi nessa terra que aprendi o verdadeiro peso do silêncio.
Não o silêncio que nasce da ausência, mas aquele que nos obriga a ouvir a
voz escondida dentro de nós.
No princípio, tive medo.
As paisagens pareciam vazias.
As árvores erguiam os braços como quem procura uma resposta no céu.
O vento atravessava os campos sem encontrar uma única palavra.
Depois, devagar, comecei a reparar que a terra de ninguém estava cheia de
pequenas vidas.
Uma flor nascida entre as pedras.
Uma ave que insistia em cantar antes do amanhecer.
Uma semente que rompia a terra sem perguntar se era o tempo certo.
Foi então que compreendi.
Há lugares que parecem abandonados apenas porque estão à espera de um
coração capaz de os reconhecer.
Também nós somos, por vezes, essa terra.
Um espaço onde a esperança parece ter partido.
Um campo onde o passado já não floresce e o futuro ainda não lançou raízes.
Mas é precisamente aí, nesse intervalo invisível, que a vida prepara o seu
milagre.
Nenhum rio nasce caudaloso.
Nenhuma árvore oferece sombra no dia em que germina.
Nenhum ser humano se encontra sem primeiro se perder.
Hoje, quando volto a essa terra sem nome, já não a vejo como um lugar de
abandono.
Vejo-a como o primeiro degrau de todas as recomeçadas.
Porque descobri que a terra de ninguém é, afinal, a terra onde começamos, pela
primeira vez, a pertencer a nós próprios.
Conceição Parreira
Outubro de 2026
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