terça-feira, 7 de abril de 2026

ESCRITA NARRATIVA


Era uma miúda de 9 anos, daquelas que ainda acreditam que o mundo cabe inteiro num sorriso. Todos os dias, depois da escola, corria para o parque como quem corre para casa. A mochila ficava esquecida num banco, os atacadores desatados, e o coração começava logo a bater mais depressa quando via o baloiço vazio. O baloiço era o seu lugar secreto. Sentava-se, segurava as correntes frias e empurrava-se com força, cada vez mais alto, como se pudesse tocar o céu com a ponta dos ténis. Lá em cima, por um segundo, o tempo parava. O vento batia-lhe na cara, os cabelos voavam livres e ela imaginava que era um pássaro, uma astronauta, ou simplesmente alguém capaz de ir aonde quisesse. No parque havia árvores antigas que pareciam ouvir os seus pensamentos, crianças a rir, mães a conversar baixinho e o cheiro da relva misturado com terra molhada. A miúda conhecia cada canto: o escorrega quente ao sol, a areia onde desenhava caminhos com um pau, o banco onde se sentava a observar os outros, como se estivesse a aprender vida sem ninguém dar por isso. Às vezes brincava sozinha, outras vezes fazia amigos que duravam apenas uma tarde. Não se importava. Para ela, cada encontro era uma pequena aventura. Inventava histórias, dava nomes às nuvens, falava com o baloiço como se fosse um velho amigo que nunca a julgava. Quando o sol começava a descer e alguém a chamava para ir embora, suspirava fundo. Sabia que tinha de sair do parque, mas levava consigo a sensação de liberdade, guardada no peito. Em casa, antes de adormecer, fechava os olhos e voltava a baloiçar, alto, muito alto, naquele lugar onde a infância ainda era inteira. E assim, dia após dia, a miúda crescia devagar, sem pressa, embalada pelo baloiço e pelos sonhos que só quem tem 9 anos sabe inventar.

Conceição Parreira

Abril 2026

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