NÃO VAIS PRO MAR - 2
Esta viagem foi acompanhada por mau tempo, o que originou que uma viagem destas levasse dois ou três dias, levou seis ou sete a concretizar.
Após a fragata carregada e com melhoria do tempo, largamos as amarras e viemos rio abaixo até Cacilhas, porém, o mau tempo ainda não tinha terminado de todo, o que originou bastantes cuidados na travessia do Mar da Palha, onde a fragata carregada até as cintas, o mar galgava e varria os encerados, previamente colocados e bem amarrados.
O meu tio estava contente por ter apanhado este tempo que para ele era bom, o barco bordejava bastante bem. Só se esqueceu de mim, que me encontrava todo enrodilhado nas mantas que se encontravam sob o convés da proa e com um medo do tamanho do barco.
-Estás mareado? Perguntou o meu tio.
-Não, respondi, que resposta eu poderia dar.
A fragata navegava muito bem com vento forte, de modo que ainda nesse dia com toda a pressa imprimida pelo meu tio, ainda se conseguiu terminar a carga em falta na moagem de Cacilhas, para que pudéssemos regressar ao Montijo pela noite dentro, tal não aconteceu.
A saída do Doca de Cacilhas, com a maré já a vazar, faltou a água para o barco navegar e este encalhou. Agora estamos no meio do lodo sem forma de voltar ao cais e o mais importante, era como o meu tio tinha pensado chegar a casa nessa noite não se preocupou com o jantar da tripulação.
Então ficou bravo, um homem do mar arreliado é pior que, sei lá o quê
-Oh João o tio vai fazer umas papas com esta farinha que aqui está e tu comes?
-Como pois eu estou é com fome. O meu tio saca da navalha corta uma ou duas sacas, retira a farinha suficiente, água bastante quente, farinha para dentro da panela até ferver e depois de arrefecida foi um regalo para uns e para outros não só comeram, como muito refilaram. Desta forma se ceou em cima do lodo em pleno mar da palha, agora com a maré vazia e aí fomos dormir.
Já estamos a navegar para casa, hoje o mar está calmo e a corrente é boa, pois a maré está a encher o meu tio já está mais alegre em relação ao que se passou na noite anterior, mesmo a navegar é muito trabalho para tão pouca gente.
Neste tempo havia muitos bodos ou corvineiros, é aquele bicharoco que agora se chama a toda essa espécie de golfinhos.
Eu tive a oportunidade de os ver tão perto, que para mim foi um regalo, mar calmo, fragata muito carregada, quase que o mar galgava para dentro e alegria para a criança que era eu.
A viagem demorou muitos dias e a minha mãe não me deixou embarcar mais, porque durante este tempo esteve muito preocupada comigo. Assim deixei a fragata do Baldrico e fui com o meu pai para a pesca, para a campanha do tio Manel Marujo.
A assim como assim, continuei a navegar pelo Mar da Palha local que muito admiro.
Com o tempo fui despedido do mar e por outros caminhos “naveguei”.
João Paiva
Junho 2026
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