sábado, 7 de novembro de 2026

A APOSENTAÇÃO

 A  APOSENTAÇÃO


Após quarenta e cinco anos de trabalho árduo, com uma profissão pesada, física e psicologicamente (sou enfermeira), chegou a tão desejada aposentação. Foi uma fase em que vivenciei uma dualidade de sentimentos. Por um lado, tive a sensação que iria ter tempo para descansar, visitar os amigos, sossegar o espírito, ler, ouvir música, enfim, ter tempo para tudo. Por outro lado, a necessidade de adaptação a um novo estilo de vida, nunca antes vivido.

A aposentação é um desafio para o ser humano. É uma etapa de passagem da vida laboral para o desligar do trabalho formal. É, por isso, uma fase de transição, pois implica definir novas rotinas e redimensionar os papeis que se desempenhava antes da reforma. Há que reorganizar os padrões de vida individuais, no fundo, todo o quotidiano, por forma a encontrar um novo papel na família e na sociedade, que nos dê um sentido de utilidade, mas também, de satisfação e alegria de viver.

Deste modo, se encararmos o trabalho como a dimensão central da vida das pessoas, isso pode gerar frustração e desligamento. Ao contrário, se considerarmos que é mais uma das fases da vida, isso permite que a perda deste papel não seja um momento de rutura da identidade absoluta de cada um.

Passamos a valorizar outros papéis que poderemos adotar e desempenhar. Assim, a aposentação pode ser vista como uma oportunidade para o desenvolvimento de outros papéis que estão para além do profissional.

É importante podermos gozar um sentimento de velhice bem-sucedida e ocupar o nosso dia-a-dia com atividades produtivas e significativas que nos tragam satisfação e realização pessoal.

Em 2012, a Comissão Europeia definiu o “o Ano Europeu do Envelhecimento Ativo e da Solidariedade entre Gerações”. Nesse ano, como em 1999, foram realizadas diversas e muitas iniciativas em resposta ao repto da Comissão Europeia, em Portugal e no resto da Europa.

Como exemplo dessas iniciativas de inclusão da população sénior e de promoção da igualdade entre homens e mulheres e da solidariedade entre as pessoas idosas, destaco:

- a implementação  da rede de universidades seniores para a formação/informação formal das pessoas com mais de 50 anos;

- o turismo sénior – com projetos de férias, com o intuito de combater a solidão da população sénior com menos recursos financeiros;

- o acesso dos mais velhos às novas tecnologias de informação e comunicação, surgindo diversos projetos que abrangem diversas áreas.

Não devemos contentar-nos em ter uma participação passiva e sedentária. Isso  restringe a nossa ligação à sociedade, apenas ao que captamos  na televisão - viver a vida de outras pessoas.

Felizmente para mim, consegui uma vaga na Universidade Sénior do Montijo, assim que deixei de trabalhar. Foi uma alegria enorme, ter a sensação de pertença a esta Instituição e, que ainda posso desenvolver novas ações como a pintura, a escrita criativa, o Inglês, a costura e outras atividades decorativas. Passei a preencher o quotidiano de tal forma, que não sinto a falta do trabalho que desempenhava anteriormente.

A Reitoria, os Professores e outros técnicos desta Universidade, são muito empenhados, eficientes e responsáveis, dando o seu tempo voluntariamente, e têm contribuído de forma muito positiva em diversas áreas  do conhecimento. Dá-nos a sensação de descoberta de novos talentos que desconhecíamos. Fazem-nos sentir integrados e respeitados.

Sinto agora que estou a viver bem esta fase de transição, como um marco inicial do processo de envelhecimento. Tenho abraçado novos interesses e desafios e, até, tenho feito alguns planos para esta nova fase da vida. Para mim, é importante encarar a aposentação com entusiasmo, como uma fase de novas oportunidades e de renovação de propósitos e objetivos de vida. 

A entrada na Universidade, nesta fase da vida, evitou que me sentisse desocupada e  deprimida. Também fez com que eu não caísse na tentação de aderir a demasiadas atividades despropositadas, apenas com o intuito de ocupar o tempo. Não é bom encarar esta fase com sofrimento pela saída do mundo do trabalho.

Encaro esta nova fase como uma maior disponibilidade de tempo para o desenvolvimento pessoal e de entreajuda, ajudando as filhas e os netos e quem de mim precisar. A vida espera-nos e vale a pena vivê-la com esperança.


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