A APOSENTAÇÃO
Após quarenta e cinco anos de trabalho árduo, com uma profissão pesada,
física e psicologicamente (sou enfermeira), chegou a tão desejada aposentação.
Foi uma fase em que vivenciei uma dualidade de sentimentos. Por um lado, tive a
sensação que iria ter tempo para descansar, visitar os amigos, sossegar o
espírito, ler, ouvir música, enfim, ter tempo para tudo. Por outro lado, a
necessidade de adaptação a um novo estilo de vida, nunca antes vivido.
A aposentação é um desafio para o ser humano. É uma etapa de passagem da
vida laboral para o desligar do trabalho formal. É, por isso, uma fase de
transição, pois implica definir novas rotinas e redimensionar os papeis que se
desempenhava antes da reforma. Há que reorganizar os padrões de vida individuais,
no fundo, todo o quotidiano, por forma a encontrar um novo papel na família e
na sociedade, que nos dê um sentido de utilidade, mas também, de satisfação e
alegria de viver.
Deste modo, se encararmos o trabalho como a dimensão central da vida das
pessoas, isso pode gerar frustração e desligamento. Ao contrário, se
considerarmos que é mais uma das fases da vida, isso permite que a perda deste
papel não seja um momento de rutura da identidade absoluta de cada um.
Passamos a valorizar outros papéis que poderemos adotar e desempenhar.
Assim, a aposentação pode ser vista como uma oportunidade para o
desenvolvimento de outros papéis que estão para além do profissional.
É importante podermos gozar um sentimento de velhice bem-sucedida e ocupar
o nosso dia-a-dia com atividades produtivas e significativas que nos tragam
satisfação e realização pessoal.
Em 2012, a Comissão Europeia definiu o “o Ano Europeu do Envelhecimento
Ativo e da Solidariedade entre Gerações”. Nesse ano, como em 1999, foram
realizadas diversas e muitas iniciativas em resposta ao repto da Comissão
Europeia, em Portugal e no resto da Europa.
Como exemplo dessas iniciativas de inclusão da população sénior e de
promoção da igualdade entre homens e mulheres e da solidariedade entre as
pessoas idosas, destaco:
- a implementação da rede de
universidades seniores para a formação/informação formal das pessoas com mais
de 50 anos;
- o turismo sénior – com projetos de férias, com o intuito de combater a
solidão da população sénior com menos recursos financeiros;
- o acesso dos mais velhos às novas tecnologias de informação e
comunicação, surgindo diversos projetos que abrangem diversas áreas.
Não devemos contentar-nos em ter uma participação passiva e sedentária.
Isso restringe a nossa ligação à sociedade,
apenas ao que captamos na televisão -
viver a vida de outras pessoas.
Felizmente para mim, consegui uma vaga na Universidade Sénior do Montijo,
assim que deixei de trabalhar. Foi uma alegria enorme, ter a sensação de
pertença a esta Instituição e, que ainda posso desenvolver novas ações como a
pintura, a escrita criativa, o Inglês, a costura e outras atividades
decorativas. Passei a preencher o quotidiano de tal forma, que não sinto a
falta do trabalho que desempenhava anteriormente.
A Reitoria, os Professores e outros técnicos desta Universidade, são muito
empenhados, eficientes e responsáveis, dando o seu tempo voluntariamente, e têm
contribuído de forma muito positiva em diversas áreas do conhecimento. Dá-nos a sensação de
descoberta de novos talentos que desconhecíamos. Fazem-nos sentir integrados e
respeitados.
Sinto agora que estou a viver bem esta fase de transição, como um marco
inicial do processo de envelhecimento. Tenho abraçado novos interesses e
desafios e, até, tenho feito alguns planos para esta nova fase da vida. Para
mim, é importante encarar a aposentação com entusiasmo, como uma fase de novas
oportunidades e de renovação de propósitos e objetivos de vida.
A entrada na Universidade, nesta fase da vida, evitou que me sentisse desocupada
e deprimida. Também fez com que eu não
caísse na tentação de aderir a demasiadas atividades despropositadas, apenas
com o intuito de ocupar o tempo. Não é bom encarar esta fase com sofrimento
pela saída do mundo do trabalho.
Encaro esta nova fase como uma maior disponibilidade de tempo para o desenvolvimento pessoal e de entreajuda, ajudando as filhas e os netos e quem de mim precisar. A vida espera-nos e vale a pena vivê-la com esperança.